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Samba, samba, samba, olélé

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Foi pouco depois da morte da mulher, que o advogado se viu forçado a procurar alguém para o ajudar nas lides da casa. Aquele era um dos poucos pelouros da sua falecida. Era sempre ela quem fazia tudo, ele estava muito mal habituado, não sabia estrelar um ovo, quanto mais passar uma camisa a ferro.

Mais uma vez, socorreu-se do amigo Abel, ou melhor, da filha do amigo Abel. Foi ela quem lhe indicou uma brasileira.

- Tem cabeça no ar, mas é boa onda – avisou, antes de lhe entregar um pedaço de papel com o número de telemóvel da mulher.

A curta experiência veio provar que a filha do Abel havia acertado em cheio na avaliação da nova empregada – a brasileira não tinha apenas a cabeça no ar, tinha o corpo todo, vivia literalmente nas nuvens.

Elisângela, era assim que se chamava, chegava sempre atrasada. Sempre bem disposta. Mal abria a porta, dirigia-se para a casa de banho, despia as várias camadas de pullovers, açaimava a longa cabeleira com um elástico colorido, vestia uns calções curtíssimos, mínimos, uma camisola de alças que lhe realçava os atributos e revelava a barriga. A tatuagem em forma de estrela no umbigo.

Assim que vestia a farda, ocupava a sala de estar e logo punha um Cd a rodar na aparelhagem. A casa estremecia, virava pista de dança. Rebolava a anca, dançava, qualquer nesga de soalho servia de palco à sua sensual coreografia.

O barulho era o de um trem eléctrico, Carnaval hora sim, hora sim. Ao segundo dia, o senhor advogado já conhecia as letras das músicas de cor e salteado, o reportório nunca mudava.

Ao final do dia, a mulher parecia de rastos, certamente não por culpa do trabalho, com tanto samba pouco tempo sobrava para as tarefas domésticas. Ficava sempre um tanto por fazer - às vezes, umas calças por passar, outras, a sopa para o jantar. Ficava sempre alguma coisa para trás, um pano do pó esquecido em cima da cómoda de mogno do quarto, a vassoura encostada a um canto na entrada.

- Elisângela, tenho imensa pena, gosto muito de si, mas compreende que esta situação não pode continuar – foi com palavras doces e suaves que o senhor advogado a despediu ao fim de uma semana.
- O senhor me desculpe….sabe que eu não faço isso por mal.
- Eu sei, Elisângela. Mas também deve compreender que não é nada fácil para mim dizer-lhe isto…ponha-se no meu lugar.

- Eu entendo ocê, né doutor…mas….

Nada mais havia a explicar. A música corria-lhe no sangue, não havia nada a fazer, até quando trabalhava, dançava. Afinal, Carnaval é quando um brasileiro quer.

- Me desculpe…- repetiu, mais uma vez.
- Ora essa, não tem de pedir desculpas…
- O doutor é genti boa. Foi muito legal trabalhar para ocê.

Trabalhar era maneira de falar, força de expressão. Mesmo assim, a empregada era uma daquelas pessoas de quem era impossível não gostar. Era com dor na alma que o advogado a dispensava. Na verdade, o único problema dela era ter um andamento demasiado elevado para aquela casa. Era mais, muito mais, do que uma boa onda. Era um verdadeiro tsunami.

- Isto é para si – disse o senhor advogado, enquanto lhe estendia um envelope na hora da despedida.

Ela agradeceu com um sorriso de brinco a brinco. Abriu-o, com cuidado, começou a contar as notas, uma a uma, os olhos arregalados nem queriam acreditar. Ela só tinha trabalhado, e mal, meia dúzia de dias, mas ele pagou-lhe não um, não dois, mas três meses de salário.

- Deus, meu pai! O doutor não faça uma coisa destas! Eu não tô merecendo tamanha gentileza – replicou, ao mesmo tempo que fazia menção de devolver o envelope.

- Acredite, Elisângela, você merece isso e muito mais –retorquiu o velho, com um sorriso humilde. E acrescentou:

- Pode não ser uma boa empregada, aliás, permita-me que lhe diga, com toda a sinceridade, que não tem jeito nenhum para este tipo de trabalho. Mas é uma excelente pessoa. E uma pessoa como você não tem preço.

Ela voltou a sorrir. Sorrir para não chorar. Aquelas palavras bateram fundo, mais fundo do que o compasso de qualquer trem eléctrico. O velho era boa praça, qualquer outra pessoa, ter-se-ia zangado com a bagunça, ninguém teria admitido que transformasse a sua casa num sambódromo.

- Você está a querer mandar-me de volta para o Brasil!
- Como assim, Elisângela?
- Com esta sua gentileza, vou na hora comprar um bilhete de avião.
- Mas a situação no Brasil não está grande coisa.
- Tá preta memo.
- Então, por que é que vai?
- Porque o Brasil é lindo.

Para ela, vida era festa pegada, alegria sem fim. Nada nem ninguém conseguia roubar-lhe o sorriso que lhe nasce nos olhos e se espraia na praia de Copacabana. Antes de deixar o apartamento, antes de voltar a enfiar as várias camadas de pullovers, foi à sala de estar, tirou o Cd da aparelhagem e ofereceu-o ao senhor advogado.

- Para o doutor não esquecer de mim, não. Quando a tristeza bater, ponha essa música aí. Dá para arrasar qualquer tristeza, né? Me promete?
- Prometo, sim – o velho acendeu um sorriso de agradecimento.

Ela deu-lhe então dois beijinhos na face, molhados, passou-lhe a palma das mãos pelo cabelo grisalho, estes brasileiros são mesmo assim, pensou o senhor advogado, são dados à amizade, a vida é exercício de alegria.

Ao chegar à soleira da porta, a mulher parou um instante, entornou o olhar como quem quer expressar a vergonha pela situação. Depois sorriu, não conseguia passar muito tempo sem sorrir. Ensaiou dois passos de dança, um samba a borbulhar na cabeça, uma sonora gargalhada e voou pelos lanços da escada.

Pessoas como ela, se não existissem, teriam de ser inventadas, foi o único pensamento que, naquele momento, bailou na cabeça do velho advogado.

- Ocê não esqueça a promessa não, né – gritou a brasileira quando aterrou no rés-do-chão.

Ele acenou um tímido sim e voltou para a tristeza da rotina. Era assim desde a morte da mulher. Regressou à sala e ligou a televisão, a sua melhor companhia, a única que lhe merecia atenções, à conta da transmissão dos jogos do Europeu. E, de repente, sem mais nem porquê, lembrou-se de Scolari. Se o sargentão ainda fosse nosso treinador, certamente que contrataria a empregada brasileira para psicóloga da selecção. Os jogadores agradeceriam - andam um pouco em baixo, precisam de alguém para lhes levantar o astral. E, na próxima quarta-feira, contra a Hungria, a história seria bem diferente. Em vez do fado do costume cantariam samba, samba, samba olélé.