Euro 2016

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A bola joga-se com as mãos e no fim ganha a Alemanha

Quando só se fala do Europeu e de futebol, a crónica de quem não percebe patavina deste desporto

Cristina Peres

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Estão a ver aquela pessoa que decide ir fazer aquela compra extemporânea ao Colombo precisamente uma hora antes de jogo na Luz? Sou eu! E aquela que resolve marcar encontro “ao pé do estádio do Lumiar” e fica bloqueada em minutos pelos carros dos adeptos que vão assistir a um treino? Sou eu! E aquela que vai ao AKI ao final da tarde e pensa que o negócio deve estar mesmo mau ou que já passou da hora de fechar por não haver mais clientes e é esclarecida pela empregada que “tá tudo a ver o jogo”? Sou eu!

Quando vejo lugares habitualmente azafamados completamente desertos, lembro-me primeiro de justificações bíblicas, da erupção do vulcão Eyjafjallajökull ou uma bomba de neutrões do que a hipótese de “estar a dar” um desafio determinante para o futuro do… grupo?… para passar à fase seguinte?… fase de quê? Só as pessoas com uma dificuldade semelhante à minha percebem que é tão difícil falar de futebol como de Física quântica. Nem sei fazer perguntas!!!!

Só sei que, dantes, a minha vida era muito mais fácil. Havia “bola ao domingo” e passava-me ao lado, não fosse o muito deprimente som dos rádios transistores nos jardins, cafés, táxis e sei lá mais onde muitos homens ouviam o relato. As senhoras reservavam-se e pronto. Era o tempo em que não havia phones nem headsets, quando muito uns auriculares, e apenas um, para dar direito à expressão “tá a ouvir o relato”.

O tema futebol já alimentava demorados e empolgados comentários entre muitas pessoas. Só que eu não me relacionava com elas e o futebol não entrava realmente a todas as horas por todas as nesgas e frestas de todos os media. Isto terá acontecido a pessoas da minha geração sem irmãos rapazes, nascidas em famílias cujos pais, tios, avós assistiam - e só por acaso - àquilo que hoje eu imagino que deveriam ser finais de taça…? A palavra “taça” até me é familiar desses tempos. Mas confesso que só por via do massacre operado pela atual omnipresença do tema futebol é que fui obrigada a reconhecer a minha deficiência: falta-me a parte do cérebro onde deveria organizar-se e fixar-se a informação referente ao tema.

Sou tomada por refratária primária (até rima) e já me disseram que estou a fazer género. Não, não estou mesmo! Sempre que não percebo nada, nem piadas nem comparações, intuo que seja… futebol, o que está longe de chegar para descodificar a dita graça. Há quem tente esclarecer-me com resultados muito sofríveis, no máximo. Fica para a próxima!

É só dificuldades: o penálti, a Liga e a Taça (da “taça” lembro-me) e o Campeonato e o Europeu e o Mundial e os pontas de lança e o clássico e os Campeões e a UEFA e o derby e a FIFA… que me soam todos ao mesmo e ao seu contrário. Acho que nunca para, tal como o Natal e os Santos Populares, que mal acaba um, começa o outro. Para mim, o Mundial pega com o Europeu e com a Taça e recomeça…

Há uns 30 anos, escapei por pouco a linchamento por ter perguntado o que era o “esférico”… nem sei o que seria se tivesse perguntado as restantes dúvidas… tal como os nomes dos jogadores. Lembram-se do vulcão islandês, o Eyjafjallajökull? Para mim, é tão impronunciável e difícil de fixar como os nomes dos jogadores. Exceto o Eusébio e o Pelé (porque cresci a ouvir falar deles), o Maradona (por causa da Argentina e da cocaína e não-sei-quê), o Futre (porque tinha o mais horrível cabelo à futebolista de que me lembro), o Figo (porque era alto e casou com uma sueca), o Zidane (porque foi malcriado na despedida) e, claro, o Cristiano Ronaldo.

Coisa difícil…