Euro 2016

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A falhar é que eles se entendem

A Alemanha ganhou à Irlanda do Norte (1-0) com golo de Mário Gomez e selou o apuramento aos oitavos de final. Foi um resultado curto para a diferença de futebol entre as duas equipas - os alemães perderam a oportunidade de chegar a uma goleada.

Pedro Candeias

MARTIN BUREAU

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Diz a teoria que os guarda-redes usam equipamentos com cores diferentes dos defesas, dos médios e dos avançados para que sejam vistos à distância e não confundidos com os seus colegas. É um bocadinho como a roupagem dos árbitros, que durante anos foi monocromática até ser o que é hoje. Já agora, foi em 1994, no Mundial dos EUA, que os juízes foram autorizados a usar o amarelo e o branco além do preto. E, já agora, foi em 1994 que o mundo viu este padrão nas camisolas e nos calções do mexicano Jorge Campos.

Esteja à vontade, tome o seu tempo para absorver este caleidoscópio

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Pois então, o Jorge Campos foi uma das estrelas desse Mundial, não só pela farpela colorida mas pelas defesas que fez – e eu até acho que uma e outra coisa estão relacionadas. Não sou o único.

E isto leva-nos à segunda e terceira teorias sobre a cor e os guarda-redes. A segunda teoriza sobre o olho humano, atraído pelos cromatismos brilhantes, e que o mais provável é que um futebolista chute contra esse bloco colorido. Por exemplo, o amarelo fluorscente [tome nota].

A terceira - e não me demoro mais nisto e já vamos ao jogo - diz respeito a um estudo que garante que, num momento de tensão como as grandes penalidadades, o jogador tem tendência a sentir-se intimidado se enfrentar um guarda-redes que vista de vemelho. E se este for grande e estiver de encarnado, tanto melhor. E se este for grande e estiver de encarnado e for alemão, temos Manuel Neuer.

Acredito que estamos todos de acordo quanto a Neuer (o homem intimida) mas não terá sido por isso que a Irlanda do Norte se encolheu perante a Alemanha. Isso aconteceu porque os irlandeses jogam muito mal e os alemães jogam muito bem e nos dias em que estão para aí virados atropelam os adversários.

Hoje foi um dia assim e Michael McGovern, o guarda-redes dos verdes, esteve na carreira de tiro durante quase todo o encontro. McGovern fez, só na primeira parte, cinco defesas apertadas e viu alguns remates passarem rente aos postes da baliza dele.

Com um ponta de lança à frente (Mário Gomez), os alemães teceram uma teia à volta dele, com trocas de posições, variações de flanco, triangulações, arranques, mudanças de velocidade, enfim, percorreram os termos técnicos do abecedário do futebolês de uma ponta à outra sempre à procura do golo. E quando o conseguiram, por Gomez, continuaram a fazer mais do mesmo, porque sabiam fazê-lo – e por que os deixavam fazer. Ou melhor, porque não havia nada a fazer.

Quem tem gente como Götze, Özil, Kroos, Müller, Khedira ou Schürrle está habilitado a controlar os quase 90 minutos e uns pozinhos que duram um encontro, sobretudo quando pela frente está uma seleção que diverte fora e dentro do estádio, mas que é uma tristeza com uma bola nos pés.

Na segunda parte, a Alemanha chegou a ter 12 remates contra apenas um e 72% de posse e o jogo acabou 1-0. Mas podia ter terminado quatro, cinco ou seis a zero, se McGovern não tivesse feito provavelmente uma das melhores exibições da sua carreira.

A propósito, McGovern estava vestido assim. Com esta cor.

Clive Mason/REMOTE