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Colírio para os olhos

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Ao final da tarde, sobretudo com este calor bom, Isaías assenta arraial no jardim do bairro. Senta-se sempre no mesmo banco, junto à fonte, para ver a fauna passar. Nunca dá o tempo por perdido, as portuguesas estão cada vez mais bonitas, as estrangeiras cada vez mais descascadas, é um regabofe de cortar a respiração. O final da tarde é sempre colírio para os olhos.

Quando Portugal não joga e está dispensado de ajudar Abel no café, André faz-lhe companhia. É coxo mas não é cego. E talvez devido à lei das compensações, tem olhos gulosos, comem e não é pouco. Um homem não é de ferro e ontem, com a lua cheia atrevida, as hormonas entraram em ebulição. É tão bom apreciar a paisagem.

Os dois homens deixam-se ficar no banco de jardim, felizes a ver a banda passar. Houvesse umas imperiais e uns pires de tremoços e até as portas do paraíso se abririam. De um a dez, quanto é que dás aquela?, desafia Isaías. Sete, responde o André, sempre muito cauteloso com os números, exigente nos exercícios de contabilidade. Um dia, hás-de mostrar-me o teu caixote de lixo, brinca Isaías, insatisfeito com a avaliação.

- E aquela? – prossegue a brincadeira.
- Oito, no máximo.
- Deves estas a gozar!
- Olha que não.

Depois, os dois dão graças ao programa de final de tarde. Não custa nem um cêntimo e uma pessoa regressa a casa de papo cheio. O único problema é o Isaías, músculos em vez de cérebro. Ainda por cima, aprendeu com a velha guarda, não tem tento na língua, não descansa enquanto não lança um piropo.

- És boa como o milho – é o seu cartão de visita.
- Comia-te toda – conclui o raciocínio, com o auxílio dos neurónios do baixo-ventre.

Isaías nunca foi homem de muitos predicados. É terra a terra. Mas acha-se o maior, não consegue ficar calado, lança asneiras gigantescas como se fossem filosofia pura. Tamanha ignorância deixa André fora de si.

- Não sabes que isso agora dá cadeia?
- O quê?
- Os piropos.
- Deves estar a gozar.
- Olha que não.
- É para o lado que durmo melhor.

Naquele preciso instante, passa por eles uma bonita francesa. Um monumento. Mas, ao contrário do habitual, Isaías ficou calado, engoliu o piropo. Não disse nada ao André, para não dar parte de fraco, mas a verdade é que a lei lhe travou o verbo. Com o Costa e os seus amigos de esquerda no Governo tudo pode acontecer, pensou, e não lhe apetece ir dentro. Até porque amanhã Portugal joga a sua primeira final no Europeu e, sabe-se lá, se há televisor na prisão.