Euro 2016

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Faz o que o Adrien diz, não faças o que eu fiz

Neste “Na Gaveta” escreve-se sobre o que deve ou não dizer um jogador que parece condenado a ficar no banco de suplentes

Adriano Nobre

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A resposta de Adrien Silva condensou ontem numa frase todo um manual de comportamento e etiqueta para balneários. Frustrado por não estar a ser opção de Fernando Santos no Europeu? O capitão do Sporting explica porque é que é homem de braçadeira: "Somos 23 e nem sempre se pode agradar a toda a gente". Assunto encerrado.

Como em tudo na vida, a análise à situação do médio português depende sempre do ângulo de análise. Por exemplo, para muitos adeptos do Sporting será um crime de lesa-futebol Adrien não ser titular nesta equipa de Portugal; já para a maioria dos benfiquistas o que é crime é o país não ter pelo menos um Renato em cada esquina.

Enquanto o adepto comum se entretém com as suas convicções inabaláveis, dentro do balneário gerem-se egos. O treinador sabe isso, os jogadores sabem isso e nós, cá fora, imaginamos isso. Daí o guião tradicional dos jornalistas nestas ocasiões. Há insatisfação por não jogar? O assunto mexe com o jogador? E com o balneário? As opções são respeitadas? Não são? Acha justo? Injusto?

Não interessa. Cada vez menos as respostas nas conferências de imprensa satisfazem esta curiosidade. A hiperprofissionalização do futebol e o foco permanente dos media fizeram crescer protocolos que raramente são furados. Percebe-se o procedimento. Mas nem sempre a azia foi gerida com esta diplomacia.

Em 1984, por exemplo, o avançado português Fernando Gomes, o bi-Bota de ouro europeu e várias vezes campeão pelo FC Porto (que nessa época tinha sido finalista da Taça das Taças), resolveu desabafar depois de ter chegado ao fim do segundo jogo de Portugal no Euro84 com apenas cinco minutos em campo.

"É como um pesadelo o que me tem acontecido", disse Gomes ao jornal "A Bola". Desiludido com o estatuto de suplente de Jordão a que se viu remetido, Gomes teve mesmo um assomo de modéstia só possível num balneário balcanizado como o português nesse Europeu. "Aquilo que já fiz no futebol coloca-me, entre os elementos desta seleção, como o que tem mais nome e prestígio na Europa", disse, criticando ainda a "falta de golo"que a equipa tinha revelado nos dois jogos anteriores (um golo apenas).

Consequência ou não destas palavras, Gomes foi titular no decisivo jogo seguinte, frente à Roménia, e que Portugal ganharia com um golo de... Nené.

Ainda menos diplomático seria, uns anos depois, e noutra seleção, o croata Prosinecki, que ficou de fora da ficha de um jogo de preparação da sua equipa nas vésperas do arranque do Euro 1996 de vido a "uma pequena lesão", explicou o selecionador Blazevic. Mas depois o então jogador do Barça explicou que essa "lesão" fora no orgulho. "Se não me põe a jogar de início, então também não entro depois". Pelos vistos resultou: na semana seguinte Prosinecki iniciaria o Europeu como titular no meio campo da Croácia frente Turquia.

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