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O mais "interessante" do futebol é a "possibilidade de David vencer Golias"

Professora de Relações Internacionais, Raquel Vaz-Pinto escreveu um livro sobre duas das suas grandes paixões: o futebol e as relações internacionais. A instrumentalização do futebol por ditadores como Mussolini e Franco, e ainda pela atual extrema-direita francesa, a origem neofascista de algumas claques, a globalização do futebol, a rivalidade histórica entre Barcelona e Real Madrid e o futebol como antídoto para o racismo, o anti-semitismo e a xenofobia são alguns dos temas abordados em "Para lá do Relvado - O que podemos aprender com o futebol". Mas há mais, tanto no livro, como na entrevista que se segue, a segunda de uma série em que a literatura e o futebol se cruzam.

Helena Bento

Nuno Botelho

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Tudo começou em 2014, numa aula de História do Século XX. Raquel Vaz-Pinto (n. 1976) queria explicar aos alunos a ascensão e a crescente importância dos recursos energéticos nos países desenvolvidos, mas não sabia como fazê-lo de modo a que eles percebessem exatamente o que estava em causa. “Tinha a nítida sensação de que o cerne daquela aula iria passar ao lado deles”, diz. E acrescenta: “É muito mais difícil para um professor – e isto pode parecer um contra-senso – explicar ou dar importância àquilo que é um dado adquirido ou que é óbvio. É mais fácil explicar a exceção, o que é diferente”.

Decidiu, então, que iria começar aquela aula de uma forma diferente. “Porque é que o patrocinador das camisolas do Atlético de Madrid [que naquele ano estava a fazer um campeonato 'estrondoso'] é o Azerbeijão?”, perguntou-lhes. E por que razão é o Barcelona patrocinado pelo Qatar? E o Real Madrid? Porque é que é patrocinado pelos Emirados Árabes Unidos? E o que explica que o russo Abramovich seja dono do Chelsea desde 2003? E… e… e por aí fora.

A aula terminou e Raquel Vaz-Pinto – professora de Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa) – estava “muito contente”. Tinha conseguido cumprir o seu objetivo, que era fazer perceber aos alunos “porque é que os nossos mercados são importantes e por que motivos é que países como a Rússia e o Qatar, que têm sérios problemas de direitos humanos, se preocupam em melhorar a sua imagem do ponto de vista externo”.

Mas essa aula foi importante ainda (e sobretudo) por outra razão. “Depois disso, fiquei a pensar na enorme sobreposição que há hoje em dia entre o futebol e as relações internacionais”. Mais tarde, António Araújo, seu amigo e historiador, convidou-a para escrever uma crónica semanal, que passou depois a quinzenal, sobre futebol no blogue Malomil. “Quanto mais escrevia, mais constatava que, de facto, o futebol vai muito para além do relvado, e que engloba outras áreas da sociedade”. Foi por isso que decidiu escrever um livro sobre o tema. “Para Lá do Relvado – O que podemos aprender com o futebol” foi publicado em maio deste ano pela editora Tinta-da-China. “Mais do que discutir se é melhor jogar em 3x5x2 ou 4x4x2, procurei olhar para todas essas dimensões do futebol: políticas, históricas, económicas”, explica a também investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).

É por isso que no livro tanto se fala do “génio e líder” Johan Cruyff, antigo jogador e treinador holandês falecido em março deste ano, e do treinador do Atlético de Madrid Diego Simeone, que conseguiu “incutir um espírito vencedor num clube que estava dominado por uma cultura de inferioridade e vitimização”, como do quão irrefletida poderá ter sido a atribuição do Campeonato do Mundo de 2018 a um regime não-democrático como o russo e das consequências que isso poderá ter em termos desportivos e políticos. Outro assunto explorado no livro é a rivalidade entre o Barcelona e o Real Madrid, com raízes no final do século XV, desde o casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela, “que veio ditar o fim da Catalunha enquanto entidade política e cultural soberana”.

Quando mais nada importava a não ser jogar à bola

A ligação de Raquel Vaz-Pinto ao futebol vem desde o tempo em que era miúda e passava às tardes a jogar à bola com o avô. Eram horas felizes aquelas. O jogo tinha o poder de concentrar em si todas as atenções. Nada mais importava. O mundo – e as suas coisas – não importavam. Isso ficava para outra altura. “Perdia completamente a noção das horas, de tão entretida que estava. Às tantas, apercebia-me de que tinha perdido o lanche e que estava a caminho de perder o jantar”. Também em casa o futebol era “assunto sério”. Mãe portista “doente”, avô benfiquista “doente”. Mãe de um lado, avô do outro, engalfinhados a discutir futebol. “Através do futebol, acabava-se muitas vezes por falar de outros assuntos sobre os quais não se podia falar na altura”.

Raquel lembra a inteligência e a genica que a mãe revelava durante essas conversas. “Naquele tempo, era raro uma mulher falar e discutir futebol, mas ela fazia-o de uma forma – como aliás com tudo na sua vida –extremamente fundamentada. Discutir futebol com ela não era fazer conversa de café – até porque ela nunca teve paciência para isso. Era discutir à séria”. Com a mãe, Raquel falava sobre tudo. Desde as competições europeias ou a origem do sucesso do FC Porto às razões pelas quais Heathcliff, personagem criada por Emily Brontë em “O Monte dos Vendavais”, a fascinava tanto. E podiam até falar – embora não saibamos se o fizeram – sobre as preferências de cada uma em relação às equipas nacionais. É que o futebol nunca foi motivo de discussão entre as duas. “Só me tornei sócia do Benfica depois de a minha mãe ter morrido e eu ter feito o luto”. Antes disso, a questão de ser ou não sócia do clube nunca se colocou: “Era incapaz de lhe fazer uma coisa dessas”.

Dinamarca em 1992, Leicester em 2016…

Um dos temas que Raquel Vaz-Pinto aborda no seu livro é o da globalização do futebol e tudo o que isso implica: mais qualidade e competitividade, e maior capacidade financeira, que se reflete nas enormes somas de dinheiro envolvidas em todas as suas dimensões. Um dos principais desafios que o futebol enfrenta hoje em dia “é ser capaz de continuar a manter aquele elemento de surpresa e magia, a possibilidade de David vencer Golias”, aponta Raquel, que não tem dúvidas de que esse é o "lado mais interessante do futebol".

Foi isso que aconteceu, por exemplo, quando a Dinamarca, chamada a substituir a Jugoslávia, venceu o Campeonato da Europa de 1992, deixando “todos os que assistiram à prova incrédulos” (não só a qualidade das outra equipas, como a francesa, a alemã e a holandesa era, à partida superior, como a então grande estrela da seleção dinamarquesa, Michael Laudrup, não estava em forma para jogar). E foi isso que aconteceu em maio deste ano, quando o Leicester, para espanto de todos, sagrou-se campeão de Inglaterra. “São estes momentos que nos fazem acreditar que tudo é possível”.