Euro 2016

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Onde estás tu, Rei Shev?

Quando as coisas estão más, a tendência de uma nação é virar-se para os heróis do passado. E, neste Europeu, há um país desesperadamente à procura do seu herói.

João Santos Duarte

MARCO BERTORELLO

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A história está repleta de casos de sucesso, e de desilusões totais. Tomemos apenas dois exemplos, mas talvez os dois expoentes máximos em que é possível agarrar: Franz Beckenbauer e Diego Maradona. Ambos são lendas do futebol e heróis dos respectivos países, mas com percursos de vida opostos no que toca à carreira de treinador.

Beckenbauer conseguiu alcançar o sucesso enquanto treinador e jogador, tendo sido campeão do mundo pela Alemanha Ocidental em 1974 no relvado e pela Alemanha já reunificada em 1990 no comando técnico. Nessa final venceu a Argentina… de Maradona. Já o pequeno génio guiou aos argentinos à glória no mundial de 1986, mas foi uma autêntica desilusão quando o banco lhe foi entregue no campeonato do mundo de 2010. A Argentina até começou a prova de forma fulgurante, mas caíria nos quartos-de-final com uns contundentes 4-0… frente à Alemanha.

Ou seja, nem sempre um grande jogador dá um grande treinador, ou selecionador. Se quisermos ir para um caso mais recente, Dunga, o homem que comandou o meio campo do Brasil ao campeonato do mundo de 1994 como jogador, foi recentemente despedido, pela segunda vez na carreira, do comando da seleção brasileira depois da prestação miserável da equipa na Copa América Centenário deste ano. De qualquer forma, quando as coisas estão más uma das tendências é o país virar-se para os seus heróis do passado. E há um herói que pode estar prestes a assumir por estes os destinos do seu país.

Quando hoje entrar em campo para defrontar os vizinhos polacos na ultima jornada do grupo C, a Ucrânia tem apenas uma certeza: a de que já está eliminada da prova, depois de duas derrotas consecutivas por 2-0 nas duas primeiras jornadas frente à Alemanha e à surpreendente Irlanda do Norte. Até a hipótese de poder complicar o apuramento aos polacos é pouco provável, porque a Alemanha defronta os norte-irlandeses no outro jogo. Mesmo não estando nada em jogo para os ucranianos, para o jogo de hoje a história recente até dá vantagem à Ucrânia: a Polónia não conseguiu vencer nenhum dos 5 últimos jogos com os vizinhos de leste. Os dois países encontraram-se de resto na fase de qualificação para o campeonato do mundo de 2014, e os ucranianos venceram por duas vezes.

Fora do Europeu, os ucranianos já pensam no futuro, e o futuro chega já em Setembro com o início da fase de apuramento para o mundial de 2018 na Rússia. E a federação está tentada a ir buscar o mais recente herói do passado para injetar o moral necessário à equipa. Ele até já estava no banco neste Europeu, mas como um dos adjuntos de Mykhailo Fomenko. Esse homem chama-se, claro está, Andriy Shevchenko.

Shevchencko é “só” o maior goleador de sempre da seleção, com 48 golos em 111 jogos, e a sua carreira dispensa apresentações para qualquer pessoa que tenha acompanhado de perto o futebol nos últimos 20 anos. Rápido, bom com os dois pés, letal na finalização, acabaria por ter apenas três clubes na vida. Fez história no Dinamo de Kiev ( 172 jogos / 83 golos) e no Milan (226 jogos / 127 golos), e acabaria por ter uma passagem pelo Chelsea que foi uma autêntica desilusão ( apenas 9 golos em 48 jogos) .

Se “Sheva”, ou o “Vento do leste”, como também ficou conhecido, seguirá o caminho de Beckenbauer ou de Maradona quando passar para o banco, é impossível de saber para já. Mas pelo menos tem desde logo uma particularidade (não que isso possa querer dizer muito no futuro...). É que foi treinado por três dos melhores técnicos de todos os tempos. Ainda conheceu o lendário Valeryi Lobanovskyi no Dinamo de Kiev, o homem que revolucionou na altura o futebol da União Soviética com o seu conceito de “futebol científico” e disciplinado (aliás quando ganhou a Liga dos Campeões em 2003 ao serviço do Milan, “Sheva” voou para Kiev para colocar a medalha na campa de Lobanosvkyi, que tinha falecido no ano anterior). Depois, foi treinado por Carlo Ancelotti em Itália, e por José Mourinho em Inglaterra. Se os professores contassem para algo, o aluno teria tudo para ser um dos grandes.

Isso poderá começar a comprovar-se a partir de Setembro, quando a Ucrânia começar caminhada para o Mundial de 2018 e defrontar no dia 5 a Islândia (de resto uma das surpresas deste Europeu). Claro está, se até lá Shevchenko sempre for confirmado como selecionador, ele que em 2012 até chegou a abandonar o futebol para uma passagem fugaz pela política. Certo é que a Ucrânia, que internamente vive tempos difíceis e conturbados, precisa dos seus heróis para se unir e erguer. E, no que toca aos últimos anos, não há maior herói do que ele. O povo do futebol precisa do seu rei Shev.