Euro 2016

Perfil

Ronaldo, quero irritar-te profundamente

O diretor do Expresso aperta, provoca e critica o CR7 com um objetivo claro. É melhor ler – até ao fim – para perceber

Pedro Santos Guerreiro

FRANCISCO LEONG

Partilhar

És o número 7 e não metes um, estás velho, cansado, talvez lesionado, falhas penalties, cabeçadas, remates, andas aos papéis, não vales um chavo, pareces uma amélia, o Bale é que é, se fosses jornalista a Canavilhas já te tinha mandado despedir. Ronaldo, espero que leias este texto, vou tentar irritar-te profundamente, irritar-te até te passares da cabeça e passares da cabeça aos pés a ordem para me calar, para nos calares, para calares a indignação com dignidade, para desmarcares as críticas quando marcares golos, golos, golos.

Lembras-te da garrafa de ketchup? No Mundial de 2010? Tínhamos empatado 0-0 com a Costa do Marfim, os golos não apareciam e tu: “Os golos são como ketchup, quando aparece, aparece todo de uma vez, por isso não estou preocupado. (…) Vai ser como o ketchup, vai aparecer todo de uma vez, estou com esse feeling”. Feeling e feito, cilindrámos a Coreia do Norte com sete secos. Tu até só marcaste um, uma coisa esquisita, meio cómica, transportando a bola com o pescoço até ressaltar na cabeça e cair-te à frente do pé, foi só encostar, até riste do bilhar sortudo às três tabelas, mas a garrafa desenguiçou, o ketchup desobstruiu, os golos saíram de jorro. Estamos a precisar disso, pode ser?

Bom, há irritações mais eficazes do que esta. Um faroleiro qualquer no El País que não te grama nem com molho de tomate (nem com ketchup), diz que és “malcriado, ridículo, estúpido”. A Marca chama-te “o vilão habitual”. Um jornal italiano diz que é uma “deceção sem fim”. Dizem que não tens “fair play”, que és um gabarola por tirares uma selfie com uma adepto que invadiu o relvado (enfim, nessa até foste um gajo fixe), o Rui Santos acha que estás “mais ligado para a parte estética”, sempre a “olhar para o ecrã”, que te falta concentração, o Inácio acha que estás mal da lesão, o Guilherme Aguiar diz que a equipa está a ser prejudicada pela tua “má forma”, o “sempre vosso Miguel Cadete” manda-te olhar para os outros jogadores e até tu reconheces, “eu também falhei”, enquanto o Fernando Santos acha-te “abatido”.

O que é que queres mais? Que eu continue? Ronaldo, és um totó, um choninhas, um mosca-morta, lesma, preguiça, cão com pelo, pavão, galo emproado, um capitão à deriva, arruma as botas Zé-ninguém, põe-te na estrada, faz-te à vida, vemo-nos no dia de são nunca à tarde e eu posso continuar a escrever o contrário daquilo em que acredito se isso te enfurecer porque o teu orgulho dá-te sempre força, a crítica dá-te sempre para ganhar, a fracasso antecede sempre o sucesso, a vozearia dá-te sempre concentração. Por isso vai lá, vai mostrar o jogador mais caro do mundo ao entrares no mais caro dos novos estádios, tira o ketchup de uma vez e, copiando com vénia o jogo de palavras do Pedro Candeias (que por sua vez as usou com vénia ao blog Azar do Kralj), Ronaldo vai para o Király, vai a correr depressa para o guarda-redes da Hungria, cilindra-o a ele e a nós, para nos calares, e nem é para nos calares, é para nos fazer gritar “Portugal!” e no fim pedir “Ronaldo dá-me a tua camisola”, porque não passar é que não dá e se a seleção não és só tu, a seleção precisa de ti.

Sim, Ronaldo, quero irritar-te profundamente. E espero que funcione.

Palavras-chave

Partilhar