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Nós, o Ronaldo e os microfones: uma história de amor e desencontros

As reações de Cristiano Ronaldo com a comunicação social têm altos e baixos, algumas por culpa dele, outras por culpa dos jornalistas. É difícil haver um meio-termo

Pedro Candeias

Foto Reuters

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Nunca ninguém disse que ia ser fácil ou que ia valer a pena. É o que é e não há nada a fazer: a relação de Cristiano Ronaldo com a comunicação social é uma coisa ambígua, instável e volátil, como uma relação de amor intensa que tem os seus picos de paixão e os seus baixios de depressão.

Faz parte do jogo.

Ronaldo não é um tipo fácil, porque não é dócil. Tem orgulho no que tem, no que é, no que fez e no que faz; e no que construiu. Ele próprio construiu-se.

Pulou por cima do contexto social e familiar em que nasceu, fintou a genética e o destino que lhe estava resevado no lado pobre da Madeira – e transformou-se. O miúdo escanzelado e com os dentes encavalitados e o penteado de berloques que chegou vestido de Armani a Manchester deixou de existir.

Hoje, no lugar dele está um ícone musculado multimilionário, conhecido em todo lado pelo que joga, pelos títulos que ganha e pelos golos que marca. E também pelas festas nos iates, pelas namoradas que teve, pelo abdominais que mostra, pelas viagens a Marrocos, pela vaidade que veste.

Ele é o único concorrente de um reality show só dele, onde aparecem o filho e a família, os amigos e a mansão, os carros, a piscina, as manias e os trejeitos, as poses de body builder e os banhos de sol. É tudo interpretado e realizado por ele, com a ajuda da entourage.

Como muitos outros génios, Ronaldo tem um lado obsessivo-compulsivo e controlador, porque só controlando todos os cenários e prevendo os imprevistos é que alguém como ele consegue estar tanto tempo no topo. Beckham, por exemplo, tinha de ter sempre as toalhas de rosto impecavelmente alinhadas umas com as outras no toalheiro, porque a desarrumação desarrumava-lhe a cabeça.

O controlo dá paz de espírito e uma sensação de domínio sobre o meio a gente como Ronaldo ou Beckham, que não podem pôr um pé na rua sem serem fotografados.

O que Ronaldo não sabe é que não consegue controlar a crítica. Ou melhor, Ronaldo não concebe a crítica. Não admite que ponham em causa o que vale, que não reconheçam os seus méritos e os seus números, e que não percebam o trabalho que lhe deu para chegar até aqui – e para se manter aqui.

Na cabeça de Ronaldo, os clubes onde ele joga, a seleção que ele representa e o país que deu a conhecer devem-lhe muito, se é que não lhe devem tudo. Ele alimenta-se dessa devoção, precisa dela, fá-lo sentir-se bem e apoiado, porque é assim o ambiente lá em casa dos Aveiro. E é por essa genuinidade, arrogância, mimo ou seja lá o que for que a relação com a imprensa e a comunicação social foi-se tornando tremida. E fraturada.

Cristiano Ronaldo é um fenómeno que divide opiniões entre quem o adora e quem o detesta. É difícil encontrar um meio-termo, porque uma personalidade maior-do-que-a-vida dificilmente gerará consensos. Haverá sempre quem escreva bem dele, como Jorge Valdano, que o prefere a Messi; mas também haverá sempre quem o tente destruir, como John Carlin fez há dias, usando argumentos ridículos e abusivos para o criticar – recuperar o passado do pai do português é um exercício, no mínimo, desonesto.

A Ronaldo cabe-lhe conviver com este monstro de duas cabeças e tentar não perder a dele quando confrontado com as coisas de que não gosta. Podia ser um problema de maturidade, mas aos 31 anos já se tem idade suficiente para ter juízo.

Só o Peter Pan será para sempre jovem.

OS CASOS

“Então mas tu queres que eu seja bruto?”

Em entrevista à CNN, Ronaldo perde a paciência com o jornalista que lhe pergunta sobre Gerrard, Sergio Ramos, e o futuro de ambos. Basicamente, esse é um assunto que não lhe interessa e ele faz por mostrar isso. A intervenção de um dos assessores ajuda a complicar: "Então mas tu queres que eu seja bruto com o homem?"

“FIFA? I don't give a fuck about FIFA”

Também à CNN, quando questionado sobre um jornalista sobre os escândalos FIFA, o Mundial no Qatar, o que achava ele da corrupção e o que achavam os colegas dele sobre a corrupção, Ronaldo cortou a direito. Eram os tempos em que se tinha descoberto a careca a Blatter e aos outros dirigentes da FIFA.

“Diz-me um que tenha marcado mais. Um!”

Era uma conferência de imprensa pré-jogo da Liga dos Campeões e Ronaldo estava num período de seca – bom, para ele, período se seca são dois jogos sem marcar – e um jornalista perguntou-lhe o que achava a sua prestação em encontros fora de casa. Ronaldo puxou da estatística e devolveu a questão. No dia seguinte, Cristiano fez um golo em Roma, contra a Roma.

“Se fosses inteligente não fazias a pergunta”

O Real Madrid tinha feito um jogo mau e um jornalista da TV3 foi repescar um assunto antigo: em Córdoba, há meses, Ronaldo limpara o escudo do Real e essa imagem fora polémica. Cristiano não gostou e respondeu torto.

CMTV? O que é isso?

Os problemas de Cristiano com o “Correio da Manhã” não são de hoje. Em 2014, pela seleção nacional, o português escusou-se a responder a uma pergunta de um jornalista do “CM”.

O caso do microfone

Durante um passeio da seleção nacional com adeptos, esta quarta-feira em Lyon, Cristiano Ronaldo reagiu de forma agressiva quando um repórter da CMTV se aproximou para fazer uma pergunta. O capitão da seleção nacional tirou o microfone da mão do jornalista da estação de televisão CMTV e atirou-o para o lago. Um momento insólito perante dezenas de adeptos e jornalistas (imagens CMTV)

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