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Cristiano, por Christiana

Leia a crónica sobre Cristiano Ronaldo escrita pela jornalista do Expresso nascida no Brasil que partilha com ele um nome e o futebol

Christiana Martins

PHILIPPE DESMAZES

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A minha pátria pisa o chão de chuteiras. Dança, samba nas quatro linhas. 'Tá bom, sambava. Nunca vi o anjo das pernas tortas jogar, mas conheci o negro rei em terra de preto escravo e vi Zico, magrinho, ser partido em campo, filho de português, alegria do Mengão. Vi o doutor Sócrates, vi um Falcão que corria de cabeça erguida, a alegria musical de Junior e os tiros de canhão de Éder. Sim, meninos, eu vi. Já vi muita coisa. Vi Paolo Rossi estragar-nos festa, o italiano que nos obrigou a dobrar bandeiras e engolir o grito.

Já não vi os 7 a um. Desliguei a televisão quando os boches deram quatro. Mandei as visitas embora, as crianças para a cama e fui dormir. Mesmo. Uma nação de joelhos e homens a babar de tanto chorar não são cenas bonitas de se ver. Não vi, como não vejo filmes de horror.

Tanto preâmbulo só para dizer que já vi muita coisa, que o futebol não me é um idioma estrangeiro, ouvi o rolar da bola de berço, sou sobrinha-neta do director do saudoso "Norte Desportivo" e que, por isso, a minha irmã sentou no colo do Jordão, em visita ao Brasil.

Apesar de já ter visto tanto e ouvido muito mais, tu nunca me impressionaste. O teu ar de boneco He-man, os teus músculos fabricados, a brancura comprada dos teus dentes, a construção esforçada da tua polêmica personagem. Sim, reconheço o mérito da busca, a beleza do esforço recompensado, a grandeza de quem procura e alcança objectivos há muito sonhados.

Reconheço o teu fado de carregar o piano da seleção nas tuas costas largas. Não gosto nada do teu ar enfadado, de quem se dá ao direito de nos olhar do alto da tua grandeza, do teu enjoo. Viro-te a cara, na maior parte das vezes que cruzas o meu ecrã. Ontem, enquanto lutavas e fazias um golo daqueles que enchem a vista de quem gosta de futebol, eu trabalhava, fechada numa sala sem televisão.

Tanta coisa nos separa, mas há algo que nos une: sou Christiana, tu és Cristiano. Tenho um agá a mais, que me distingue, tens milhões de características que te isolam. Na minha terra, onde há nomes de todas as cores e tonalidades, os Cristianos são raros. Na tua, que venho fazendo minha, as Cristianas, mesmo sem agá, não são banais. Mas há algo que nos une: a clareza dos sentimentos explícitos.

Ontem, na conferência de imprensa, depois da bobagem do arremesso do microfone e do jogo impróprio, o menino Cristiano parecia um velho. Não estava enfadado, estava estafado. Cansado, a pele e os músculos do rosto esticados sobre os maxilares tensos. Cristiano, a tua máscara escorregou e foi quando mais gostei de ti.

Carregar piano nunca foi tarefa fácil. Ser cuspido, gozado, também não. Ser alvo de admiração é um risco que pressiona. Estás a ficar velho. Já se vê no campo, apesar do brilho de quem continua a ser único. Cristiano falta-te o agá, mas espero que sobre-te resistência. Vê se aguentas, respira fundo, cerra os dentes mais uma vez, encolhe o medo, bem apertadinho no fundo do estômago e solta a tua franga. Pensa que as quatro linhas não serão a tua casa para sempre. Que um dia destes tens de pendurar as chuteiras. É a vida.

Até lá, mira a rede, chuta a fundo e dá uma alegria aos filhos desta tua homônima. E já agora, ao Cristianinho, a quem cabe o amanhã do nosso nome. Vê lá se esqueces o microfone ao alvo e volta à bola, a tua mais fiel amante. Como o Chico Buarque disse "para estufar esse filó como eu sonhei, só sendo Rei". Então, coroa-te a ti próprio com um agá maiúsculo, um agá de homem maduro. Demora até a gente chegar aqui, mas já que estás a chegar, então aproveita o melhor que a maturidade tem a nos dar: sabedoria.