Euro 2016

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O bom, o mau e o vilão que se fez herói - e seis outros pontos para discutir o filme da fase de grupos

De um Portugal de serviços mínimos à comovente Islândia, o que fica da primeira fase do Euro 2016

Nelson Marques

Getty Images

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1. O enorme ruído provocado pelo desnecessário episódio do microfone (mas que tem valido momentos de grande humor) não impediu Ronaldo de mostrar a sua melhor face quando a equipa e o país mais precisava dele: os dois golos que marcou eesta quarta-feira (a que juntou a assistência para o golo de Nani) fazem dele o primeiro jogador a marcar em 4 fases finais e colocam-no a um golo de igualar Platini como melhor marcador em Europeus. No final, foi o amigo Fábio Coentrão quem respondeu aos críticos: "Falem agora, papagaios!"

2. Três empates em três jogos não é grande cartão de visita. Mas isso é olhar apenas para o copo meio vazio. Quem olhar para o copo meio cheio, argumentará que ninguém foi capaz de nos ganhar: foi assim que a Itália foi campeã em 1982. Conseguirá Portugal repetir a proeza e provar que a ambição de Fernando Santos não é, afinal, só jajão?

3. Os números contam sempre apenas parte da história, mas vale a pena olhar para as estatísticas deste Euro 2016. Portugal é a segunda equipa com maior percentagem de posse de bola (61%), só atrás da Alemanha, é a que mais remata, a que mais cantos tem a seu favor e aquela que menos concede. Mas teve muitas vezes de correr atrás do prejuízo e falta perceber como se comportará contra equipas com maior capacidade ofensiva.

4. O tira-teimas chega já este sábado, naquele que é o seu teste mais exigente até ao momento. A Croácia, não esqueçamos, ganhou à Espanha, campeã em título, algo que não acontecia na prova há 12 anos (a última derrota foi com Portugal no Euro 2004). Esta Croácia lembra aquele "Brasil da Europa" que maravilhou o mundo no Mundial de 98, ao chegar ao terceiro lugar com Boban, Suker, Prosinecki e companhia. Agora tem dois cérebros com pés de veludo aprimorados em Espanha (Modric, do Real Madrid, e Rakitic, do Barcelona), tem poder de fogo calibrado em Itália (Mandzukic, da Juventus, e Kalinic, da Fiorentina) e tem Perisic, que leva o 4 nas costas só para enganar: é ele quem, muitas vezes, empresta velocidade e imprevisibilidade ao ataque da equipa. Se passar Portugal, é uma séria candidata à final.

5. Que me perdoe Ronaldo, mas não há como não gostar desta Islândia, que, com 330 mil habitantes, é o país menos populoso de sempre a chegar a um Europeu. Num campeonato que nos deixa com a sensação de um filme já visto, a Islândia é das poucas seleções a furar o guião. Enquanto Portugal se conformava com o empate com a Hungria, que, naquele momento, o empurrava para um confronto com a Inglaterra e para aquele que é, no papel, o pior lado do quadro do Euro, a Islândia não desperdiçou a oportunidade de ganhar à Áustria no último suspiro do jogo. Preferiu conseguir o primeiro triunfo de sempre na prova a contentar-se com um empate que, pelo menos em teoria, lhe seria mais vantajoso. E como o festejaram. Imperdível este comovente relato.

6. Não sei qual será o resultado no referendo desta quinta-feira para saber se o Reino Unido permanece ou não na União Europeia, mas, pelo menos neste Europeu, as equipas britânicas estão para ficar. Inglaterra, País de Gales, Irlanda e Irlanda do Norte (só a Escócia falhou o apuramento para França) passaram todas à próxima fase. Mas, ao contrário do que seria expectável, foi Gales e não a Inglaterra quem mais brilhou nesta primeira fase, levado às costas por Gareth Bale, colega de Ronaldo no Real Madrid e o único a marcar em todos os jogos da primeira fase. A passagem da Irlanda é uma boa notícia. Numa prova marcada por confrontos entre adeptos, têm sido dos fãs irlandeses alguns dos melhores momentos deste Europeu.

7. No sentido oposto, vai fazer falta a Suécia. Não só porque a seleção nórdica é garantia de beleza nas bancadas, mas porque a competição perde prematuramente um dos seus melhores jogadores. Zlatan Ibrahimovic, o homem que nunca deixa os jornalistas sem uma boa resposta, abandona a seleção sem conseguir brilhar com ela numa grande competição. Os suecos caíram no "grupo da morte", que tinha a melhor seleção europeia no ranking da FIFA (a Bélgica, 2ª) e a Itália, finalista do último Europeu, o que não é vergonha nenhuma, mas tinham mais do que obrigação de ficar à frente da Irlanda.

8. O Euro vai agora para os "oitavos" e já há uma certeza: a final do último campeonato não se vai repetir. Espanha e Itália enfrentam-se já no próximo jogo e, numa prova onde ainda ninguém marcou mais do que 3 golos num jogo, é pouco provável que se repita o resultado da última final: 4-0 para os espanhóis. Outra certeza é que Espanha, França, Inglaterra, Itália e Alemanha não se poderão encontrar no jogo decisivo, o que abre a porta deste a um estreante: do outro lado do quadro, só Portugal e Bélgica sabem o que é chegar a uma final.

9. Os grandes favoritos estão todos ainda em prova, mas nenhum convenceu por completo. A França ganhou dois jogos nos instantes finais empurrada pelo público da casa e empatou um, com a Suíça, quando já estava apurada. A Espanha ganhou no último sopro à República Checa, venceu confortavelmente a Turquia, mas foi batida pela Croácia e deixou escapar o primeiro lugar do seu grupo. A Itália venceu os dois primeiros jogos com o cinismo de sempre, mas perdeu com a República da Irlanda. A Inglaterra ganhou o duelo britânico com Gales, mas empatou com Rússia e Eslováquia, semeando dúvidas se está realmente preparada para ganhar o seu primeiro Europeu. A Alemanha é a Alemanha de sempre, mas está em serviços mínimos: três golos marcados, zero sofridos, duas vitórias, um empate. Daqui para a frente se verá quem quer mesmo ganhar este Euro.