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O relógio antigo da melancolia e a geração de jornalistas “insubstituível”

Com o tio e o avô assistiu ao primeiro jogo de futebol em 1966, tinha ela nove anos, e com o pai, escritor e jornalista de outro tempo, aprendeu a separar as águas – “uma coisa é a maneira como a gente ganha a vida, outra coisa é a vida”. Passou pelas redações de “A Bola” e do jornal “Público”, foi colaboradora do Expresso e editora da revista “Livros”. Também escreveu sobre cultura mas hoje em dia é sobretudo o futebol que lhe preenche os dias, desporto de que diz gostar “cada vez mais”. O Expresso publica esta quinta-feira a terceira de uma série de entrevistas em que a literatura se cruza com o futebol

Helena Bento

Vasco Célio/Stills

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De todas as suas memórias de infância, há uma muito especial, guardada, como alguém dizia, naquele lugar feliz da nossa cabeça onde as memórias boas estão guardadas. Leonor Pinhão tinha cerca de "nove, dez anos", quando começou a acompanhar o tio e o avô nas idas ao antigo Estádio da Luz, inaugurado em 1954 e demolido em 2003 para dar lugar ao novo estádio do clube. A ex-jornalista conta que havia ali um relógio antigo que, "a cerca de 20, 30 minutos do final de cada jogo", costumava deixá-la numa "melancolia imensa". "Eu começava a olhar para os ponteiros a girar e ficava angustiada porque sabia que o fim do jogo estava a aproximar-se. Lembro-me perfeitamente dessa sensação. Assistir a jogos era para mim, na altura, um felicidade imensa".

Nascida em Lisboa em 1957, Leonor Pinhão começou por trabalhar no jornal A Bola, onde se tornou a primeira mulher a entrar no quadro de uma redação desportiva em Portugal. Em 1989, e a convite de Vicente Jorge Silva, integrou a equipa fundadora do jornal Público, tendo dirigido as secções de desporto e cultura (haveria de voltar ao jornal anos depois). Foi colaboradora do Expresso e, mais tarde, editora da revista "Livros". Atualmente, mantém uma coluna de opinião no Record e escreve semanalmente no Correio da Manhã.

Filha do escritor e jornalista Carlos Pinhão (1924-1993), que pertencia a uma "geração de jornalistas desportivos insubstituível", Leonor conta que com o pai aprendeu, sobretudo, a separar as águas - trabalho de um lado, vida pessoal do outro. Campos distintos que não se devem tocar e ainda menos sobrepor. "O meu pai fazia uma coisa muito inteligente, que eu tento fazer também - embora não saiba se tão bem como ele - que era separar o trabalho do resto. Uma coisa é a maneira como a gente ganha a vida, outra coisa é a vida. Se misturas tudo, acabas por ter uma vida muito pobre".

Isso explica que Leonor não tenha crescido num ambiente em que o futebol dominava as conversas, as rotinas. A não ser, claro, aos fins de semana, quando acompanhava o avô e o tio nas idas ao estádio para ver o Benfica jogar. "Em pequena, lembro-me de ver em minha casa atores, amigos do meu pai, alguns treinadores também, mas não jornalistas que escreviam sobre futebol". Hoje em dia, Leonor já não vê jogos no estádio, mas o jogo continua a emocioná-la tanto ou até mais do que antes. "Gosto cada vez mais de futebol", diz. "Na vida real, é muito difícil encontrarmos outras situações em que os mais fracos podem vencer os mais fortes, mas no futebol, se houver empenho, algum talento, vontade e sacrifício, isso é possível".

Leonor deixou o jornalismo em 1998, ainda a tempo de assistir "às primeiras remodelações gráficas nos jornais feitas com base na ideia de que as pessoas não têm tempo para ler" e, por isso, "as notícias têm de ser curtas e com títulos apelativos". A diminuição do espaço para a reportagem, "essa arte tão nobríssima dos jornais", tanto nos desportivos como nos generalistas, veio por arrasto. Considera, aliás, que desde então "houve um empobrecimento muito grandes dos jornais", que se traduziu na diminuição do número de leitores. "Antes eram companheiros das pessoas. Era frequente ver-se pessoas a passar com um jornal debaixo do braço, como hoje se vê com os telemóveis. Não é que antes tivéssemos mais tempo para ler, simplesmente tínhamos uma relação diferente com os jornais".

Um ano depois, em 1999, publicou "Memória de uma Carreira", uma biografia de Rosa Mota, e em 2001 publicou, pela editora Relógio D' Água, "Tudo sobre Futebol", uma antologia de textos publicados entre março de 2000 e setembro de 2001 no jornal "A Bola", em que Leonor escreve, entre muitos outros episódios do rocambolesco meio futebolístico português, sobre a chegada de José Mourinho ao Benfica (que veio suceder ao alemão Jupp Heynckes), e a sua grande primeira entrevista à SIC. "Com a candura própria da sua idade e com o entusiasmo de quem vive um sonho único, José Mourinho disse a David Borges que desde que assumira o comando técnico da equipa do Benfica deixara, pura e simplesmente, de ler jornais (...) porque tinha as suas ideias muito próprias, não queria ser influenciado por opiniões diversas, negativas, e sem interesse específico para o seu trabalho".

Também a derrota do Brasil frente ao Uruguai no Mundial de 1950, que ficou para a história da seleção e futebol brasileiros, descrita por Nelson Rodrigues, em "A Pátria das Chuteiras" (1950), como "a nossa catástrofe, a nossa Hiroshima", é tema de uma das crónicas publicadas no livro. "Barbosa, tranquilo, espera o centro, e dá o passo em frente no fatídico momento em que o uruguaio [Ghiggia], sabe-se lá porquê, chuta enviesado e mansinho, meio sem jeito, enganando o guarda-redes brasileiro e fazendo o golo que permitiu ao Uruguai sagrar-se campeão do mundo vencendo o Brasil, no Maracanã, e desencadear um dos mais pesados traumas coletivos brasileiros que marcou a vida de uma geração inteira", escreve Leonor Pinhão, que hoje relembra o livro como uma mera "brincadeira". "Ensinaram-se desde cedo que as crónicas servem para apenas embrulhar o tacho do arroz, depois ele estar feito, para não arrefecer. Mas pronto, olha, se calhar deixei-me levar pela vaidade".

  • O mais "interessante" do futebol é a "possibilidade de David vencer Golias"

    Professora de Relações Internacionais, Raquel Vaz-Pinto escreveu um livro sobre duas das suas grandes paixões: o futebol e as relações internacionais. A instrumentalização do futebol por ditadores como Mussolini e Franco, e ainda pela atual extrema-direita francesa, a origem neofascista de algumas claques, a globalização do futebol, a rivalidade histórica entre Barcelona e Real Madrid e o futebol como antídoto para o racismo, o anti-semitismo e a xenofobia são alguns dos temas abordados em "Para lá do Relvado - O que podemos aprender com o futebol". Mas há mais, tanto no livro, como na entrevista que se segue, a segunda de uma série em que a literatura e o futebol se cruzam.