Euro 2016

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Smicer, qual é o melhor dia para casar?

"Na Gaveta" de hoje recorda o jogador checo que saiu e voltou de um Europeu para dar o nó

Adriano Nobre

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E ao 14.º dia não há bola a rolar. Uma pessoa habitua-se a isto, 36 jogos em dias consecutivos para ver, analisar e discutir. Golos, penalties, expulsões, emoções, injustiças, dias com quatro partidas à escolha – nem que seja "só para espreitar" – e depois chega este vazio, que se prolonga até sábado à tarde. Ora, para quem já tem a voz de Freitas Lobo, Pedro Henriques ou António Tadeia entranhada no cérebro a comentar de forma imaginária as rotinas mais básicas da sua vida, estes dois dias e meio são demasiado tempo.

O que fazer com esta pausa até aos oitavos-de-final? Reabastecer o frigorífico, devolver as chamadas ao chefe, ir à loja do cidadão tratar daquele assunto são opções pertinentes. Mas talvez o mais importante seja pôr a vida familiar em ordem. Ao jeito do que fez o antigo internacional checo Vladimir Smicer, num dos dias sem jogo antes da final que a sua seleção disputou no Euro96: deu um saltinho a Praga para casar.

Pouco convencidos das possibilidades que a seleção da República Checa tinha no Europeu que se disputou em Inglaterra, Smicer e a sua noiva Pavlina agendaram o casamento para o dia 28 de junho de 1996, dois dias antes da data agendada pela UEFA para a final da competição."Nunca pensámos que poderíamos chegar à final...", admitiria Smicer, anos depois, à Radio Prague.

E a verdade é que tudo poderia ter corrido sem sobressaltos para os noivos caso o próprio Smicer não tivesse atrapalhado os planos. Bastaria, para isso, não ter marcado, aos 88 minutos do último jogo da fase de grupos do Euro96, frente à Rússia, o milagroso golo do empate (3-3) que permitiu aos checos evitarem a eliminação precoce e seguirem para os quartos-de-final da prova.

Sorte a dos checos, que à conta de Smicer não fizeram as malas nesse dia. Azar de Portugal, que por causa disso caiu nos quartos-de-final, com uma cabeça do tamanho do chapéu oferecido por Poborsky a Baía.

A derrota dos portugueses acontece a 23 de junho e é aí que Smicer e Pavlina percebem que o problema pode realmente acontecer: a meia-final com a França fica agendada para 26 de junho e se tudo correr bem no plano desportivo o casamento, marcado para 28, fica "entalado" entre esse jogo e a final (agendada para 30).

Começam então as movimentações de Smicer junto do selecionador, Dusan Uhrin, para perceber qual a melhor tática a adotar em caso de vitória sobre os franceses. "Antes da meia-final perguntei ao treinador se poderia ir casar se passássemos à final. E ele respondeu: 'Sim!, se passarmos podes fazer o que quiseres!", contou o jogador.

A vitória sobre os franceses ocorreu mesmo – 6-5 num desempate por penalties após empate 0-0 – e, depois do banho tomado, Smicer lá deixou o estádio rumo ao avião que o levaria numa rápida transição ofensiva nupcial até Praga. E nem o bónus de quatro pontos que levou na cabeça, resultado de um choque com Thuram, estragou os planos. "Foi ótimo, o casamento estava cheio de gente... mas claro que não pude desfrutar da festa, pois tive de regressar a Inglaterra após o casamento".

Regressou, treinou e jogou a final. Mas como as fadas não usam pitons, o conto não teve o desfecho feliz que se pedia. Smicer entrou apenas aos 88 minutos da final frente à Alemanha e jogou pouco mais de 15 minutos no prolongamento. Foi o tempo que demorou até Bierhoff marcar o primeiro "golo de ouro" da história dos europeus. No fim ganhou a Alemanha. E Smicer seguiu para a lua de mel.