Euro 2016

Perfil

Crónica do animado torneio que se disputa nas férteis e imensas terras francesas no ano da graça de 2016

São 24 cavaleiros de reinos de toda a Europa e um deles deposita toda a sua fé em D. Fernando

Ricardo Marques

ATTILA KISBENEDEK

Partilhar

Senhor,

Espero que esta o encontre de boa saúde, pois por cá estamos bem e até o sol, com a graça de Vossa Excelência, tem brilhado todos os dias, menos naqueles em que choveu. Há caça e carne com abundância, muita e fresca fruta, boas albergarias e vinho e queijo como raramente temos à mesa. E, senhor, muito bom proveito nos tem feito tanta fartura nestes dias que parecem não ter fim. Há que dizê-lo com frontalidade: estes franceses esmeraram-se e as feiras onde têm decorrido as justas são do melhor que alguma vez vimos. Oh! Como é viçosa a verde relva...

Chegaram antes de ontem ao fim os dias chatos, as intermináveis horas a ver cavalinhos a correr de um lado para o outro, a contemplar cavaleiros trancados em armaduras defensivas, inexpugnáveis de tão brilhantes, e de lança na mão - mais preocupados em evitar os golpes do que em atingir o adversário. Como Vossa Excelência bem sabe, é tudo mais ou menos. Ninguém morre e os que ficam pelo caminho regressam aos seus reinos mais cansados do que magoados. Oito já lá vão. Impressionou-nos, como sempre acontece, o poderio do cavaleiro germânico. Uma maravilha de precisão. Muito agradados ficámos também com a persistência do nobre francês, que nunca podemos dar por batido. Mais surpreendente é a determinação dos povos que chegaram da grande ilha britânica: quatro vieram e quatro ainda aqui estão.

E que belos dias nos aguardam daqui para a frente. Parece que foi ontem que D. Fernando deixou o reino a caminho destas terras estrangeiras na caravela alada, carregando nos alforges todos os nossos sonhos. Deixou a santa terra lusitana com juras de regressar apenas após o 11 de julho do ano da graça de 2016, tendo mesmo, julgo saber, avisado em casa que não o esperassem antes. Uma firmeza. Foi por isso que, na noite de quarta para quinta-feira, juntamente com D. Marcelo, a quem muito saudámos, fizemos com agrado e bom vinho uma bela festa à conta do empate decretado no combate com o nobre magiar. Não o esperávamos tão agressivo, mas D. Fernando não se ficou. Por três vezes foi ferido, por três vezes o atingiu. Uma maravilha. E, verdade seja dita, senhor, a armadura encomendada aos melhores ferreiros do reino tem levado muita pancada. Está amassada, sim, mas resiste.

Não faltará na corte quem lamente não termos ainda derrotado qualquer cavaleiro. Se me permite a ousadia, Excelência, nada de mais errado: ninguém nos vence. Estamos firmes no cavalo e tal firmeza muito útil nos será nos difíceis, mas belos, tempos que se avizinham, pois acabou o tédio, não haverá mais sestas interrompidas pelos festejos estridentes dos camponeses que acompanham todos os cavaleiros. Imagine, senhor, que fomos acordados com gritos provocados por um golpe, o único golpe, diga-se, entre os nobres representantes da Albânia e Roménia. Sim, mas tudo terminou. Enfim, é chegada a hora dos duelos, dos golpes certeiros, das espadas afiadas. O campo de batalha vai encolher e, no fim, só haverá lugar para um. O outro estará por terra, ferido de morte. E, meu bom senhor, depositamos toda a nossa fé em D. Fernando.

Anteontem, bastantes jograis ingleses nos provocaram com ameaças tendo em vista o nosso provável confronto e interromperam a animada festa. Tolos, pois mal sabiam que, longe dali, num relvado imaculado se defrontavam os nórdicos islandeses e cultos austríacos. Oh, abençoada a arte de D. Fernando, que à distância, por artes e magias só ao alcance dos grandes magos dos números, ajudou o islandês num golpe certeiro. Quem me dera ter a arte para descrever a cara dos ingleses... Nessa tarde, um dos moços de D. Fernando lançara a pena de um escriba para um dos charcos, que por aqui os há em abundância, e todos vimos nisso bom augúrio. Para desgraça do moço.

Senhor, sabeis por certo que nos calhou em sorte o cavaleiro croata, que se pavoneia por aqui inchado depois de ter batido nosso vizinho espanhol. Não o neguemos, é um nobre temível, que tem passeado por estas terras toda a sua força e técnica nos combates por pontos. Veremos como se comporta num confronto até à morte.

Mandai tocar os sinos, Senhor.

Não pelo regresso, mas, assim o desejamos, por tardar ainda a chegada do invencível, ainda que não vencedor, D. Fernando.