Euro 2016

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Joga pedra nos penáltis, malditos penáltis

"Na Gaveta" de hoje é sobre aquele momento de angústia que faz e desfaz heróis

Adriano Nobre

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Começam amanhã os oitavos-de-final do Euro2016 e com eles chega também a probabilidade de os jogos começarem a ser decididos através de desempates por penalties, o eterno parente pobre do jogo. Uma espécie de Geni de Chico Buarque: eles dão para qualquer um, malditos penalties.

Chamam-lhes lotaria. "Lotaria dos Penalties", para sermos mais rigorosos. Se a eliminatória não ata nem desata lá seguem eles, jogadores e guarda-redes, rumo a uma das balizas do campo para definir o vencedor. Cinco remates no mínimo para cada equipa desde a marca dos 11 metros, quem acertar mais festeja. Quem acertar menos lamenta. Malditos penalties.

Que foi justo, que foi injusto. Que foi sorte, que foi azar. O futebol é isto e as opiniões são isto. Chamar-lhe lotaria será, no entanto, uma questão de perspetiva: se os penalties - que para todos os efeitos ainda requerem alguma arte, engenho, concentração ou frieza - , são matéria de sorte, o que dizer do critério de moeda ao ar que definiu o Itália-Rússia (0-0) das meias-finais do Euro68? Os russos, eliminados, não dirão nada, seguramente.

Passada a fase das moedas ao ar, na história das fases finais dos Europeus de futebol já houve 15 jogos decididos através do desempate por penalties. O primeiro ocorreu a 20 de junho de 1976, em Belgrado, e ficou para a História por vários motivos: por ter sido o primeiro, claro; por ter sido o único que até agora decidiu uma final de um Europeu (no caso entre a Checoslováquia e a RFA, 2-2 no final do jogo); e, mais importante, por ter sido aquele em que um senhor de nome Panenka decidiu cunhar o seu nome na galeria de heróis com 'aquele' penalty decisivo (e lá voltaremos noutro texto).

Depois dessa noite de Belgrado, os desempates por penalties passaram a ser uma normalidade nem Europeus. Até agora, só na edição de 1988 – disputada na Alemanha e ganha pela Holanda - não houve qualquer jogo decidido dessa forma. No plano oposto, a edição que teve mais jogos desempatados por penalties foi o Euro96, em Inglaterra, que teve quatro jogos com esse desfecho: dois nos quartos-de-final e as duas meias-finais. A seleção anfitriã desse torneio esteve, aliás, dos dois lados da barricada: festejou o apuramento nos quartos-de-final após um 0-0 com a Espanha, mas chorou depois a eliminação na meia-final frente à Alemanha depois do 1-1.

A Inglaterra é, aliás, uma das duas seleções com mais eliminações - três - em fases finais de europeus por intermédio deste sistema de desempate: depois dessa meia-final com a Alemanha em 1996, os ingleses foram afastados através de penalties por Portugal nos quartos-de-final do Euro2004 (após o 2-2, Ricardo allez!) e pela Itália nos quartos-de-final do Euro2012 (após um 0-0).

A par da Inglaterra neste campeonato dos pé-frio surge a Holanda, também com três eliminações por penalties, mas em Europeus consecutivos: 1992, contra a Dinamarca de Schmeichel nas meias-finais; 1996, contra a França nos quartos-de-final; e 2000 contra a Itália, nas meias-finais. Esta última terá sido mesmo a mais dolorosa, porque os holandeses perderam o desempate por penalties depois de já terem falhado dois penalties durante um 0-0 em que dominaram completamente os italianos. Não bastasse isso, o jogo disputou-se em Roterdão, num Europeu co-organizado pela Holanda e Frank De Boer fez o pleno: falhou um primeiro penalty durante os 90 minutos e voltou a falhar no desempate.

Escusado será dizer que a Inglaterra e a Holanda estão entre as seleções que mais desempates por penalties protagonizaram em Europeus: quatro, tantas como os disputadas por Espanha e Itália. A diferença é que enquanto ingleses e holandeses perderam 75% das suas aparições, a Itália está nivelada (duas vitórias e duas derrotas) e a Espanha tem um score de apenas uma derrota e três vitórias. A última das quais nas meias-finais do Euro2012, frente a Portugal. Malditos penalties.

Carlos Esteves