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O chão que o diabo pisou

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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André acordou em sobressalto, um arrepio na espinha, o pijama encharcado. Estava gelado, tão gelado que os ossos gemiam desconforto. Era sempre assim, noite sim, noite sim, desde a noite em que lhe mataram a inocência.

Podia viver mais de mil anos, há medos que não se apagam, pesadelos que retornam religiosamente todos os sonos. E, de cada vez que acordava encharcado, sentia uma dor avassaladora, uma revolta tão profunda que era como se estivesse a viver tudo de novo. O pesadelo pela primeira vez.

André lembra-se daquela noite como se fosse hoje. Agora. Dormia na tenda do acampamento quando sentiu passos junto ao fecho. Devia ter pouco mais de seis anos, o medo estampado no rosto. Não tenhas medo, sou eu, disse António, o chefe dos escuteiros, com palavras doces. Respirou de alívio, ele era o herói de todos.

Quando António chegou à sua beira, embrulhou-o num longo abraço. Ele não desconfiou, um menino daquela idade apenas sabe confiar. Mas depois começou a estranhar o seu falar, não dizia coisa com coisa, apertava-o cada vez mais contra o seu corpo musculado. Respirava como um animal enraivecido.

André ainda tentou resistir, mas não tinha forças. Pior: a perna mais curta que o fazia coxear todos os dias aprisionava-o ainda mais naquela noite. Tentou gritar mas o grito ficou sufocado na garganta. Foi a primeira vez que António o violou. A primeira de muitas. Anos mais tarde, André chegou a pensar denunciá-lo mas à última hora desistia sempre. Por medo. Por vergonha.

Durante anos, ele foi o chão que o diabo pisou. Só conseguiu carta de alforria quando cresceu, corpo de homem. Quando passou o prazo de validade. Os pedófilos só gostam de carne fresca.

Na semana passada, quando a polícia veio ao bairro prender António, André sentiu um alívio enorme. Espera que apodreça na prisão, mas nem assim consegue andar na rua de cara levantada. O pesadelo continua vivo. É a sua maior vergonha. O seu maior segredo.