Euro 2016

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Departugal ou Croexit?

Croácia mistura a experiência de Modric e Rakitic com o talento de Pjaca e Coric. E é favorita para o jogo contra Portugal (20h, RTP1)

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Harold Cunningham

Quando chegou à zona mista depois do empate com Portugal, o selecionador da Hungria estava bem-disposto por ter ficado em 1º lugar e a conversa até começou bem. Mas foi bruscamente interrompida:

“Antes da qualificação não saíamos a jogar a partir do guarda-redes, o que requer autoconfiança e é preciso treinar muito. Antes do Euro, nos jogos de preparação, trabalhámos e a equipa evoluiu, até porque defrontámos adversários fortes, como a Croácia...”

“Que dicas pode dar a Portugal sobre a Croácia?”

“Para Portugal? Não tenho de dizer nada. Isso tem de ir perguntar ao seu selecionador. Até à próxima.”

Bernd Storck foi-se embora com cara de poucos amigos e deixou-me de gravador na mão — e sem saber mais sobre a Croácia, além de que tinha vencido a Turquia (1-0), empatado com a República Checa (2-2) e convencido contra a campeã europeia Espanha (2-1). Na ausência de Fernando Santos, pedi ajuda a um especialista croata. “A história diz-nos que a maioria dos nossos jogadores são muito bons tecnicamente. Uma outra coisa que posso dizer é que são jogadores ‘com tomates’. São corajosos, não têm medo da competição”, diz ao Expresso Marko Vukelic, diretor desportivo do Dinamo de Zagreb.

É que é o campeão croata, acima de qualquer outro clube, a ter uma influência ímpar na seleção. Modric, Kovacic, Mandzukic, Pjaca, Corluka, Jedvaj, Schildenfeld, Vida, Vrsaljko, Badelj, Brozovic, Coric, Rog, Cop e Kramaric não são palavrões (ainda que prendam a língua a muita gente): são 15 das 23 razões pelas quais a Croácia está a impressionar no Europeu — e são 15 jogadores com o selo Dinamo de Zagreb. “Temos uma academia fantástica, das melhores do mundo. A nossa equipa sénior é pelo menos 50% composta por jogadores formados no clube”, explica Vukelic.

Não é que o Dinamo de Zagreb seja propriamente o Barcelona no que diz respeito a prestígio europeu, mas os croatas estão a distinguir-se, tal como os catalães, pela excelência da formação, o que acaba por beneficiar a seleção.

Somos certamente o clube de topo na Croácia e diria até em toda a região, incluindo Áustria, Hungria, Eslovénia, Bósnia, Montenegro, Albânia e Sérvia. Sabemos que somos um clube que não pode manter um jogador de topo depois dos 23, 24 anos”, explica Vukelic, há 13 anos no Dinamo. “Sabes o lema do Barcelona, ‘mais do que um clube’? O nosso, não oficial, também é ‘formar jogadores, mais do que um clube’. Neste momento, temos na nossa equipa sénior 11 jogadores com menos de 21 anos”, acrescenta.

Gordon Schildenfeld, Marko Rog, Ante Coric e Marko Pjaca são os quatro jogadores do Dinamo atualmente na seleção. “Os outros já saíram e agora estão em clubes de topo como Real Madrid, Juventus, Atlético de Madrid... A única maneira que tens para formar um jogador é deixá-lo jogar e muitas vezes até contra adversários mais velhos. O resultado é teres o nosso central Filip Benkovic, de 18 anos, a marcar o Lewandowski no Allianz Arena, na Liga dos Campeões”.

É por isso que as exibições croatas no Europeu, apesar de terem surpreendido meio mundo, não surpreenderam Vukelic. “Sabíamos que tínhamos uma excelente equipa, com uma grande combinação entre jogadores experientes e jogadores muito jovens, com ‘fome’ de conquistas. Quando juntas esses dois grupos sabes que ficas com uma equipa em grande”, diz.

Precisamente o mesmo diz Eduardo, guarda-redes da seleção e do Dinamo de Zagreb, há duas épocas. “O Dínamo tem uma escola de formação com sucesso e tem lá neste momento jovens com qualidade que são meus colegas, o Rog, o Pjaca... É uma equipa com a qual temos de ter imenso cuidado, mas também temos de nos focar no que podemos fazer.”

O que Portugal pode fazer é manter o registo atual que tem com a Croácia: em três jogos, três vitórias — a última das quais em 2013, num amigável que Ronaldo resolveu. O ressurgimento do capitão como figura da seleção contra a Hungria foi uma boa notícia, mas a seleção ainda precisa de resolver indefinições, sobretudo no ataque, para ultrapassar uma Croácia que se deleita com a circulação fluida da bola, baseado num jogo coletiva e sistematizado em 4-2-3-1.

Fernando Santos deverá manter o 4-4-2 com que Portugal iniciou o Euro, trocando apenas Eliseu por Raphaël, já recuperado da lesão. O restante plano mantém-se, sendo provável, contudo, que Portugal tenha neste jogo bem menos posse do bola do que o habitual. O que não é necessariamente mau, se os portugueses aproveitarem os desequilíbrios nas transições defensivas da Croácia, que ataca com muita gente. “Os portugueses podem confiar em nós. Quando jogamos contra equipas fortes, normalmente fazemos grandes exibições”, disse Nani. Marko Vukelic tem mais confiança nos croatas: “Somos um pequeno país com pouco mais de quatro milhões de habitantes, por isso estar sempre a participar nestas provas é fantástico. Mas acredito que esta equipa está pronta para fazer um grande resultado.” Uma coisa é certa: quem continuar será candidato a ir até à final, porque está posicionado no lado ‘fácil’ do sorteio. De um lado do quadro — o do Portugal-Croácia — há zero Europeus e zero Mundiais conquistados. Do outro lado do quadro, há nove Europeus e 11 Mundiais conquistados. Ou seja, ganhar agora é sonhar com uma exit só a 11 de julho — como tem dito e repetido Fernando Santos...