Euro 2016

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“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Hoje é o dia. O dia do jogo, Portugal contra a Croácia, nos oitavos de final. Ninguém jura o resultado, muitos ainda não se refizeram da dureza do apuramento. Mas, estranhamente, o jogo não é o mais importante do dia. Hoje, é o dia de Maria. Hoje, ela não irá ao café do Abel torcer por Ronaldo, tão-pouco estará forrada de negro dos pés à cabeça. Hoje, acordou com a firme vontade de mudar o destino. Capricha no retrato para estar à altura do desafio. Afinal, há vida para além do futebol.

É por isso que ela está em frente ao guarda-fatos, os trapos em sentido sob o seu olhar. Para uma mulher, escolher roupa é tarefa delicada. Penosa. Não que tivesse muita, nunca foi dada a grandes extravagâncias. Ainda assim, perdia tempo a combinar cores, saias e calças em constante despique, o colar que se quer e a camisa que o rejeita.

Hoje podia ter optado pelo vestido de cetim azul petróleo, mas não, ajuizou de imediato, era demasiado curto, justo, demasiado vistoso, talvez mesmo inapropriado. O fato castanho com gola de pele de camelo era mais decente, mas a textura do tecido não combinava com a estação. E assim foi ficando, duvidando, escolhendo, atenta a todas as combinações possíveis e imagináveis. Como sempre, escolheu o que queria evitar - um tailleur azul de corte tradicional, que lhe garantia pose de executiva sem lhe retirar o charme.

Deixou cair o roupão de turco com as duas borboletas bordadas a branco à altura do peito. A roupa interior imaculada, impecável. Vestiu a saia,

correu o fecho éclair, a cintura protestou, deve ter encolhido uns bons centímetros nos últimos tempos porque a peça de roupa não assentou. Teve de procurar na parte de trás da porta do guarda-fatos um cinto para amparar a queda, o de camurça recheado de argolas douradas vinha mesmo a calhar. Depois, pegou na blusa de seda bege que repousava orgulhosa no cabide da lavandaria. Assentava-lhe que nem uma luva. Só tinha um problema, era demasiado transparente, oferecida, deixava entrever as subtilezas do soutien preto. Apesar das cuecas serem pretas, era forçada a concluir que se a harmonia é regra, o bom senso é excepção. Com preguiça de se despir, optou apenas por mudar de soutien - cor de pele, mais discreto sob a seda.

Por fim, as meias. Pode parecer um pormenor sem importância, mas não há nada de mais fundamental, não há homem no mundo que não olhe para as pernas de uma mulher. Mais do que um mero adereço são prova de estatuto, sinal de disponibilidade, caminho de liberdade. Opacas ou de seda, depende das ocasiões. Há que vesti-las com esmero, primeiro a concha da mão a abraçar o apertado espaço dos dedos, depois colocá-las no pé, contornar os tornozelos, subir as pernas, o joelho ao virar da esquina, muita atenção ao atravessar a coxa, cuidados redobrados, atenção aos anéis, olhos atentos ao mínimo rasgo. Optou pelas de seda.

Os cabelos castanhos, cortados à altura do pescoço, escorriam gotas de ansiedade. Enfiou o polegar direito por entre os caracóis, fez remoinhos, desbravou as madeixas revoltas. Era um tique nervoso que não conseguia controlar, ainda mais num dia especial como este, um dia em que tudo podia acontecer.

Ao passar pela sala, ligou a televisão. Era o que sempre fazia, nem tanto para ver, mais para ouvir. O aparelho sintonizado no primeiro canal, mas bem que podia ser no terceiro ou no quarto. Àquela hora falta originalidade, todas as estações oferecem o mesmo tipo de programação. É verdade que, nos últimos tempos, o figurino mudou um pouco, culpa do Europeu, então hoje, à conta do jogo contra a Croácia, há directos a toda a hora.

O pequeno-almoço tomado de relance, uma chávena de chá com leite e duas torradas generosamente barradas com doce de tomate. Não se esqueceu do iogurte líquido com bifídus activo - diz-se que agiliza o tráfico intestinal. Nem do sumo de laranja natural para se proteger de uma hipotética gripe. Desligou a televisão, o esquentador, fechou a botija. Trancou a portada das janelas.

Fumou dois cigarros de rajada na poltrona de couro, estrategicamente colocada num canto da sala, de frente para a televisão. Vício recente, companhia desde que o gato desaparecera sem deixar rasto. O fumo subiu-lhe à cabeça, sentiu-se levitar. Reparou que o relógio de pêndulo ancorado na parede, carente de corda, havia desistido de registar o tempo. Parecia um reformado num jardim abandonado.

Apesar de saber que aquele era um dia especial, Maria não era mulher de muitos exibicionismos. Maquilhou-se de maneira discreta, nada de rímel, apenas um pouco de blush - bastou uma demão para perder o ar soturno. Ainda carregou no batom, arrependeu-se de imediato. Num gesto seco, trincou os lábios com um guardanapo de papel. Descalçou finalmente as pantufas, não teve grande dilema em escolher os sapatos, um dia importante como aquele pedia saltos altos.

À medida que caminhava em direcção à porta da entrada, fez uma vistoria minuciosa ao apartamento. Voltou a apertar as torneiras, uma a uma, as da casa de banho e também a da cozinha, confirmou que as luzes estavam apagadas. Ainda fez menção de desligar a televisão, o esquentador, fechar a botija do gás, era sempre assim, há hábitos que nos comandam a vida. Sorriu quando constatou que afinal aquela rotina já fazia parte do passado. Olhou para as janelas, as portadas devidamente trancadas. Em cima do frigorífico dormia uma revista com a programação da televisão.

Enfiou a chave mais comprida no buraco da fechadura, rodou com força a maçaneta. A porta arrastou-se, as pulseiras de fantasia dançaram nos pulsos esqueléticos. Para alívio de consciência, deu três voltas bem dadas à chave. As notícias da televisão alertam, por estes dias os bandidos andam afoitos. Saiu disparada escada abaixo sem tempo sequer para cumprimentar o vizinho do lado.

Ao chegar à porta do prédio, reparou que o professor Bambara - por favor, chame-me simplesmente Mamadou, pedira o bruxo guineense no dia em que se conheceram – já estava estacionado no passeio em frente. Pontual como um relógio suíço. Vestia um daqueles trajes africanos tradicionais, o que lhe dava um ar ainda mais imponente. Ela estremeceu. Aquele homem mexia-lhe com as entranhas, deixava-a sem chão. Só de vê-lo ficava a flutuar nas nuvens.

Ele acenou-lhe um sorriso, ela ficou ainda mais sem jeito. Naquele momento compreendeu que estava à sua mercê. Sabia, pressentia, que aquele era o dia. Bastava que ele lhe tocasse com um dedo que diria logo que sim. Ainda bem que não trouxe o terço, estava pronta para o pecado. Disponível para amar.