Euro 2016

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“É muito difícil começar mal e acabar a vencer”

Entrevista a Giuseppe Bergomi, campeão do Mundo em 1982

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Shaun Botterill

“Não te preocupes, bravíssima, é melhor o teu italiano do que o meu inglês. Falaremos devagar.” Ele não fala inglês e eu não falo italiano, mas não é todos os dias que se pode conversar com um campeão do mundo (e não dizem que a linguagem do futebol é universal?). O ex-capitão do Inter de Milão está em França a comentar jogos para a Sky Sport italiana e recordou aquele Mundial de 1982 em que a Itália começou com três empates e acabou campeã. Mas não prevê a mesma glória para Portugal.

Jogava na Itália que ganhou o Mundial de 1982 e que começou com três empates. Agora Portugal começou o Europeu com três empates. Podemos ter esperança?
Lembro-me bem desse Mundial, claro, fomos campeões, eu ainda tinha 18 anos. Mas era uma altura diferente. Em 82 ainda jogávamos a fase de grupos com vitórias a dois pontos, havia menos diferença, e passavam apenas os dois primeiros do grupo, não havia terceiros classificados a serem apurados. Na altura, a Polónia qualificou-se em primeiro lugar e nós em segundo. Agora passam os quatro melhores terceiros... Bom, não tem nada a ver. Podem falar de parecenças com a Itália, mas era uma situação distinta, parece-me.

Mas é a ideia de começar uma prova mal...
E depois conseguir vencê-la, sim, claro. Mas é muito difícil. De facto, Portugal não começou o Euro nada bem. Esperava — e acho que todos esperavam — que Portugal vencesse a Islândia, a Áustria e a Hungria de forma fácil, para dizer a verdade. O que lhes calhou bem depois do grupo foi terem ficado na parte mais favorável do sorteio, com exceção para o jogo contra a Croácia, porque acho que não vai ser nada fácil. A Croácia está a jogar muito bem. Mas, com um Cristiano Ronaldo bem e com os jogadores talentosos que tem, Portugal devia aproveitar a oportunidade para chegar longe.

Viu os três jogos de Portugal?
Não, não consegui... [risos] Não vi o jogo com a Hungria, só um resumo. Ando muito ocupado por aqui, a fazer antevisões para a televisão italiana e a responder a perguntas de jornalistas espanhóis que querem saber o que penso do Itália-Espanha.

Antes do Euro dizia-se que a Itália estava muito mal, mas afinal...
[riso] Sim, porque é a Itália... Temos um grande treinador [Antonio Conte], que criou uma mentalidade muito forte no grupo. Admitimos que temos pouco talento no ataque, mas temos grandes jogadores na defesa. Chiellini, Bonucci, Barzagli e o comandante Buffon são de facto jogadores extraordinários. E quando não se sofre golos está-se muito mais próximo de ganhar, seja um Europeu ou um Mundial. Ter uma defesa forte faz toda a diferença, e a Itália sabe bem disso.

No Mundial de 82 também foi a defesa a ajudar? Bergomi, Scirea, Collorati...
Sim, sim, claro. Mas, atenção, nessa altura também tínhamos grandes talentos no ataque, hem? Tínhamos o Paolo Rossi, que foi o melhor marcador do Mundial, o Bruno Conti, o Antognoni... Era uma equipa com grandes jogadores. Ou seja, era forte na defesa, mas seguramente que também era forte no meio-campo e no ataque — era forte em todas as zonas, um pouco diferente da equipa atual.

Quem crê que vencerá o Euro?
Bem, no início, as equipas que eu via como favoritas eram a Alemanha e sobretudo a França, por jogar em casa. Ainda mantenho este prognóstico, apesar de saber que terão um percurso muito mais difícil do que o esperado, porque terão de derrotar vários adversários muito fortes para atingir a final. Mas acho que a França é a seleção que pode vencer o Europeu.

Mas não tem estado muito bem... Nem sequer na defesa.
Também tiveram alguns azares. Perderam o Varane, tiveram vários ausentes... Mas têm grandes talentos no ataque: Martial, Griezmann, Coman, Payet... São jogadores que podem resolver um jogo de um momento para o outro. Pogba e Matuidi também. E, como disse, jogam em casa. É verdade que pode ser uma grande pressão, mas penso que isso faz mais bem do que mal aos jogadores.

Não crê que a Espanha seja favorita, então?
Hummm... Vamos ver, não entra nas minhas favoritas, não, porque é uma equipa que está diferente do que era no passado. São jogadores que já venceram tanta coisa que precisam de reencontrar aquela fome de vitórias, que me parece que agora já não têm. Claro que mesmo assim podem vencer, como têm feito, mas creio que a Alemanha e a França estarão mais fortes. E cuidado com a Itália, porque se a Itália conseguir vencer a Espanha então vai até ao fim.

Que pensa que acontecerá no Itália-Espanha? São duas formas muito distintas de abordar o futebol.
Vai ser um jogo difícil para ambas. Claro que a Espanha tem muita posse de bola e é muito forte quando tem a bola, joga bem em qualquer sítio do campo e tem médios e atacantes com técnica e velocidade. A Itália vai ter de ser muito corajosa para aguentar isto, especialmente a nível mental, e depois partir rapidamente para o ataque e atormentar os últimos defesas espanhóis.

Dá-lhe mais prazer ver a Itália ou a Espanha a jogar?
O futebol espanhol, do tiki-taka do Barcelona, é belíssimo, se feito a grande velocidade. Mas se o fazem com pouca rapidez, então prefiro ver um jogo da Itália, que é rápida a atacar e perfeita a defender. Creio que hoje conseguimos distinguir bem as tradições futebolísticas dos países. Sabemos que características tem Portugal, sabemos como joga a Espanha, como atua a Itália... Quando os italianos se puserem a copiar o jogo dos outros, vai correr mal. Porque não vão saber fazê-lo, não estará de acordo com a nossa cultura futebolística. Então fiquemos assim, que estamos bem.