Euro 2016

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“Eventualmente haverá bacalhau”

De Zagreb a Lisboa, preparam-se noites de emoção com os olhos de duas nações colados à televisão. Em jogo, um lugar nos quartos de final e mais uma etapa rumo a Paris. Têm a palavra os adeptos ‘deslocados’

Tiago Oliveira

THOMAS SAMSON

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Até prova em contrário, o sonho europeu continua bem vivo. No futebol, claro está. Hoje às 20h em Lens não há referendo que valha. Após duas fases de grupos muito distintas, Portugal e Croácia preparam-se para um duelo de nervos que promete dividir atenções. Seja qual for o resultado, é certo que uma equipa vai fazer as malas para casa e a outra vai continuar a disfrutar da hospitalidade de terras gaulesas.

Deolinda Veiga não tem dúvidas que será Portugal a sair feliz do confronto. Foi para terras balcânicas há 18 anos, com o marido que conheceu na Suíça. Hoje tem um bar de praia na localidade de Dramaly e coloca a sua fé “no Quaresma e no Ronaldo.” Melhores amigos dentro e fora de campo (a fazer lembrar Mcnaman e Fowler na voz de Gabriel Alves), podem ser a chave para contrariar o “otimismo em demasia dos croatas”, garante.

Os clientes croatas dizem-lhe desde quarta “que vocês não têm hipótese” mas Deolinda não se atemoriza. A bandeira portuguesa estará a voar bem alto no seu bar e a “cerveja nacional” será a bebida de escolha. “Venho de cachecol e camisa e estou confiante na nossa festa. Até já lhes disse que o árbitro é espanhol, por isso que tenham cuidado”, revela a rir-se. Para afogar as mágoas, não faltará ajuda.

De coração dividido (“tic para um lado, tac para o outro”) vai estar Goran Detelic, que veio para Portugal em 1991. Inicialmente, só para “um trabalhinho de verão”. Agora para uma vida com dupla nacionalidade e que o torna incapaz de escolher entre um país e outro. “O que eu queria era que se encontrassem os dois na final”, conta.

“Empate e penáltis” é o que quer para que seja “a lotaria” a escolher por ele. O jogo, que espera ser “de poucas quezílias”, vai ver com amigos “sem levar camisola.” Com a certeza de que quem passar terá o seu apoio e “o da família”. Se a “Croácia tem uma verdadeira equipa, Portugal tem o melhor do mundo”, remata.

O desporto rei, como em tantas ocasiões, pode servir de paliativo para situação de instabilidade provocada pela recente queda do governo. Sérgio Savaterra, que veio para a Croácia há oito anos, acredita a seleção “está a unir muito os croatas nesta fase, com confiança total que hoje vão sair facilmente vitoriosos.”

A vitória sobre a Espanha “ajudou”, assim como o apuramento aos soluços da equipa das quinas. “Se o futebol fosse detentor de alguma lógica, diria que somos mais fortes. O que vi, leva-me a achar também que eles vão sair por cima”, confessa. A reduzida comunidade portuguesa (“ e a hora tardia para os filhos”) em Zagreb não lhe permite um grande ajuntamento ver o desafio. Mas resta uma esperança: “eventualmente haverá bacalhau.”

Fogo de artifício

Fé na vitória croata é coisa que, naturalmente também não falta a Ivor Sebalj. A trabalhar no ramo da informática em Carnaxide há dois anos e meio diz que “até gostava de apoiar as duas equipas, mas que isso agora não é possível.” Os compatriotas têm-no deixado orgulho com as suas prestações no Euro e não tem pejo em considerar que “a equipa é muito boa e luta imenso.”

Como se tratam “de dois favoritos”, prever o resultado não é tarefa fácil, mas Ivor arrisca um 3-2 recheado de golos a seu favor. Se assim for, já tem uma simpatizante dona de um quiosque que não se mostrou nada incomodada com o possível derrota. “Disse-me que como ganhamos aos espanhóis, também nos apoia”, conta divertido.

Para Eurico Gomes trata-se de “uma grande geração croata” que vai “apresentar muitos problemas” aos portugueses. Desde 2014 a morar definitivamente em Zagreb com a sua mulher, trabalha num call center e vive intensamente a prestação da seleção nacional. Talvez não tanto como os croatas que “sempre que marcam golo lançam fogo de artifício” mas o suficiente para estar “com força e confiança.”

Do outro lado vê “menos preocupação com a dificuldade do jogo” e uma expectativa “de triunfo.” Algo que não o desmoraliza na sua previsão de vitória por 1-0 com um golo de Nani. Eurico não tem dúvidas que “é muito difícil mas pode acontecer.” De uma forma ou de outra, “o coração está sempre por Portugal.”