Euro 2016

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Hoje é dia de Fernandexit!

Nicolau Santos

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Eu vibro com a seleção, com os golos do Ronaldo e do Nani, com as defesas do Patrício, com os passes açucarados do João Mário, com a energia irreverente do Renato Sanches, mas não, não consigo vibrar com a sagacidade do nosso selecionador. Esta noite, se Fernando Santos insistir em manter Moutinho no onze inicial, ele vai conseguir pôr um país inteiro à beira da estupefação e de um ataque de nervos, primeiro, e depois a chorar copiosamente. Porque esta noite não enfrentamos as dificílimas seleções da Islândia, da Áustria ou da Hungria. Hoje enfrentamos uns jogadores muito talentosos que, por acaso, no último jogo que fizeram ganharam 2-1 a Espanha, campeã europeia e mundial. Ora jogar contra Croácia logo de início só com 10 jogadores vai acabar inevitavelmente numa derrota e no Fernandexit da nossa seleção.

Fernando Santos já avisou a família que só regressa a Portugal no dia 11. Mas ainda não a avisou que vai ficar sozinho. Mais: o que ele quer mesmo é ficar sozinho em Paris, sem o presidente da Federação, nem o Humberto Coelho, nem os 23 jogadores que levou para a pátria de Astérix. Compreende-se: Paris é uma festa, já dizia o Hemingway. É a cidade que recebe mais turistas de todo o mundo, quase 70 milhões anualmente. A possibilidade de conhecer gente simpática e interessante é enorme. Os museus são magníficos, a Rive Gauche tem aquele não sei quê que nos faz retroceder a Maio de 68, e depois há os Campos Elíseos, a Torre Eiffel, a pirâmide invertida do Louvre, Versailhes e mais não sei quantos motivos de interesse e um homem tem de modernizar, de beber o ar do tempo, de passear por onde andaram Baudelaire, Victor Hugo, Alexandre Dumas, Camus, Sartre, Simone de Beauvoir, Gainsburg, Brel, Ferré e tantos outros.

Por isso, Fernando Santos já gizou o seu plano. Esta noite mete de início o Moutinho, que fez descansar na segunda parte do jogo contra a Hungria, o André Gomes, que está meio lesionado, o que quer dizer que está meio recuperado, logo bom para jogar a 50%, e o Eliseu, que dá todas as garantias para defender o flanco esquerdo com aquela sua maneira de chegar de bicicleta onde os outros vão de mota. Vai mantê-los em campo até ao minuto 9, quando já estivermos a perder por 2-0. Nessa altura substitui o Moutinho pelo Éder. Aos 95 troca o André Gomes pelo Rafa. E aos 99 mete o Renato Sanches, fazendo sair o Eliseu. Com esta nova tática vai surpreender totalmente os croatas. É claro que não vai ser fácil marcar dois golos nos três minutos de descontos. Mas o nosso selecionador não quer isso. Quer, quando muito, fingir que ir a penalties, como esclarece o Miguel Cadete na sua crónica – embora não queira.

Mas o que tenho a certeza que ele quer mesmo é ficar sozinho em Paris até dia 11. E vai conseguir, com grande competência e sem margem para dúvidas. Hoje é dia de Fernandexit! Carrega. Moutinho!