Euro 2016

Perfil

Isto não é fé, nem fezada. É outra coisa qualquer

E quem souber o que é que me explique. Num jogo mau, Portugal esteve francamente bem a aproveitar a sequência mais ilógica do futebol. Tudo começou numa bola ao poste de Patrício

Pedro Candeias

Miguel A. Lopes / EPA

Partilhar

Não sou dado a coisas divinas e do além e o esoterismo sempre me pareceu uma palavra confusa, a meio caminho entre o nada e outro nada. E é por isso que sempre me fizeram espécie as histórias do alho-porro, dos animais enterrados, das cruzes e das santas e das crendices, da Nossa Senhora e da Senhora do Caravaggio, do Roberto Leal a cantar no balneário como um pregador ou um pastor - e por aí fora.

E é também por isso que sinto tremores frios quando ouço o Fernando Santos a falar de fé, que não é fezada, porque a Fé é algo que lhe é sério, e ele é sério, e eu sei que com coisas sérias não se brinca. Brinco então com a fezada, se bem que isto que acabo de ver não é fezada, está além ou aquém disso, não consigo definir; porque se disser que é sorte tiro o mérito ao técnico-taticismo da bola; e se disser que é mérito do técnico-taticismo ninguém vai acreditar em mim.

Porque é difícil acreditar que estava tudo pensado para ser assim. Que seria normal defender durante cento e não sei quantos minutos sem rematar à baliza. Que estava tudo controlado apesar de a bola estar sempre nos pés do Modric e do Rakitic e do Perisic. Que não fazia mal mudar a equipa e a tática e o modelo em três jogos diferentes sem nunca mudar o motorzinho engripado do Moutinho. Que ter o melhor jogador deste continente a fazer figura de corpo presente para não dizer que se faz de morto chega para meter medo aos adversários. Que era possível bater uma equipa que limpou a Espanha na fase de grupos enquanto nós nos tínhamos visto à rasca para empatar com a Hungria. Que o sol é frio e a chuva quente, que a água seca e o calor molha - e que os golos caem do céu.

E, no entanto, a fé e a fezada têm uma razão de ser. Porque naquele minuto as improbabilidades aconteceram todas de uma só vez: a bola foi ao poste de Patríci e depois para os pés de Renato que com ela correu por ali fora e a passou a Nani que a chutou mal e esta foi parar a Ronaldo que a rematou pela primeira vez no jogo (nos três anteriores fizera mais de trinta) e Subasic defendeu-a para cima onde estava Quaresma para pô-la na baliza de cabeça.

Uma sequência totalmente ilógica que deu resultado e nos faz acreditar em coisas impossíveis, a maior delas a de Portugal poder ser campeão da Europa jogando sempre no arame, preso por arames.