Euro 2016

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Um Azar do Kralj* fez o trabalho por nós: a análise ao onze de Portugal

Vai ler coisas destas neste texto: que o Adrien é o Modric dos pobres ou que o André Gomes é um péssimo ouvinte de piadas porque está sempre atrasado. “Está bom assim? Se calhar exagerámos”

Um Azar do Kralj

ROLEX DELA PENA / EPA

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Rui Patrício

Protagonista das 2 horas mais monótonas que alguém já passou em Lens, o que não é fácil. Não se passa nada ali. Teve à sua frente o melhor quarteto defensivo português neste Europeu e o pior extremo (já lá vamos). Teria sido um bom jogo para imitar Ricardo no Euro2004 e tirar as luvas, já que não precisou delas.

Cédric

As indicações recebidas de Fernando Santos - “por favor faz melhor do que o Vieirinha” - foram cumpridas à risca. Melhor a defender do que a atacar, numa noite em que estiveram no relvado tantos jogadores com nomes terminados em -ic quantos formados no Sporting. Cédric conseguiu o pleno. Por pouco não levou a primeira cueca do jogo, já que William Carvalho intercedera minutos antes em seu auxílio.

Pepe

Notável. 120 minutos sem um único comportamento detestável em campo. Mas, mais do que isso, fez o tipo de exibição que nos permite tolerar esses comportamentos detestáveis. Se era para isto mais valia ter dado uma cabeçada em alguém. A razão pede-nos que terminemos com um adjectivo higiénico como “imperial”. Não. Fez mesmo um jogo do Kralj.

José Fonte

Chamado a substituir o único fã de Stone Roses na selecção portuguesa, não acusou a responsabilidade e secou dois postes da NBA com aquela simplicidade de processos de quem sabe que o mais importante é tirar a merda da bola dali. Tem tudo para continuar a fazer dupla com Pepe, excepto o bom gosto musical.

Raphael Guerreiro

Foi autorizado a marcar o 1º livre do jogo - o gesto mais altruísta de Cristiano Ronaldo desde que ofereceu aquele cheque à UNICEF - e quase dava golo de Pepe. Tirando isso, fez rigorosamente tudo bem, o que o torna péssimo para alguém que vive dos erros dos jogadores.

Adrien Silva

Sportinguistas por essa internet inteira celebraram o regresso do do talento e das boas ideias, isto é, a chegada em peso do Sporting ao meio-campo nacional. O Modric dos pobres acordou para o jogo aos 23 minutos, ao ganhar um lance disputado com o Modric dos ricos. Não repetiria a proeza e os 85 minutos que se seguiram mostraram a intermitência de um semáforo junto às obras do eixo Marquês-Entrecampos. Foi o tipo de futebol que deu a João Moutinho o prémio de homem do jogo contra a Áustria. Ao contrário de Moutinho, é gajo para melhorar.

William Carvalho

Um daqueles jogadores cujos erros na parte inicial da partida levam comentadores televisivos a dizer coisas como “os adversários estão em fase de estudo” ou “as equipas ainda estão a encaixar”. O pior é quando já passaram 35 minutos de jogo e Sir William continua a acompanhar os lances com a lenta contemplação de quem foi ao cinema ver aquele filme sobre Zidane com banda sonora dos Mogwai. Ainda assim, melhor do que contra o Gana no Mundial de 2014 (bastaria conseguir respirar). Aos 64 minutos descaiu sobre a direita e executou aquele que é até à data o pior cruzamento do Euro, para alívio de Vieirinha.

João Mário

Depois de ter desencantado auto-estradas no centro do meio-campo húngaro, nada melhor do que ser encostado à linha. Sendo quem é, João Mário, um dos jogadores mais inteligentes do futebol português nos últimos muitos anos, fez a única coisa que lhe pareceu razoável: continuou a utilizar o cérebro e tentou seguir as indicações de Fernando Santos da melhor forma possível. Tem um lance genial aos 34 minutos que fez Bruno de Carvalho rever a sua cláusula de rescisão e o repórter de relvado da RTP afirmar que “os portugueses estão a abrir o livro”, apesar de não estarmos a jogar um charuto.

André Gomes

Intervalo quase a terminar no Portugal-Croácia. Os jogadores portugueses regressam ao relvado para a segunda parte e ninguém consegue ver André Gomes. Uma nação de 11 a 15 milhões exulta a evidente e necessária troca por Renato Sanches. Instantes depois, o impensável: é mesmo ele. André Gomes a regressar do balneário. Chegara atrasado para a segunda parte, como chegou atrasado para a primeira. Tem uns belíssimos pés mas às vezes parece compreender o que se está a passar um segundo depois de toda a gente. Deve ser péssimo ouvinte de piadas. Caiu aos 23 minutos num lance que daria penalty ao Benfica. Em seu favor tem o facto de ter jogado fora da posição habitual, que neste caso será o banco de suplentes.

Nani

Foi atingido involuntariamente no olho esquerdo aos 25 minutos de jogo e terá ficado combalido, porque falhou 4 passes nos 10 minutos seguintes. Decidiu o resultado moral da partida aos 63 minutos, quando sofre falta de Strinic dentro da grande área por um árbitro que, saberíamos amanhã de manhã, é sobrinho de alguém na UEFA e já prejudicou equipas portuguesas antes. Felizmente recupera a lucidez a definir o último passe (literalmente o último passe que fez, isto não é lábia de comentador) aos 116 minutos de jogo, num chouriço magistral que Cristiano Ronaldo conseguiu desperdiçar, para gáudio de Quaresma.

Ronaldo

Na manhã do jogo recebi um e-mail de uma loja de roupa que prometia um desconto de 10% por cada golo de Cristiano Ronaldo. A determinada altura pensei que deveriam ter definido a promoção em função de cada toque na bola, tal foi o alheamento do jogo. No primeiro lance digno de registo finta lateraldireitoic, e logo perdeu o lance para o colega de equipa Modric. Aos 18 minutos perdeu novamente a bola para Srna, tendo executado impecavelmente a sua vingança aos 20 com uma pisadela que teria amarelado algum dos humanos em campo. Depois disso desapareceu da partida e só voltou a ser decisivo num cabeceamento defensivo aos 90 minutos. Se jogasse sempre assim seria a terceira melhor exportação da Madeira, a seguir à banana e ao bolo do caco.

Renato Sanches

Foi o desfibrilhador de um jogo a que jamais assistiríamos se não fôssemos portugueses. A entrada de Renato em campo é todo um acontecimento, capaz de desorientar o adversário, os colegas de equipa e até o próprio. Começou por fazer sonhar meio mundo numa tabelinha com João Mário para instantes depois homenagear Éder num remate absolutamente desastrado. Renato será mais ou menos isto, pelo menos até levar no focinho de Ancelotti. Mesmo mesmo mesmo a terminar, recebe um passe de Cristiano Ronaldo ainda no meio-campo português, acelera rumo à baliza croata. faz aquilo que nos pareceu ser o seu primeiro passe acertado em todo o jogo... e GOLO. Grande desfeita para Fernando Santos, que tinha tudo para celebrar o quarto empate. Acabaria por receber o prémio de Homem do Jogo e, bem melhor do que isso, a camisola de Modric.

Ricardo Quaresma

Tínhamos aqui umas notas sobre como fez mais uma exibição relativamente apagada, às vezes solidária, muitas vezes pouco inspirada, quase sempre Quaresma. Mas olhem, que se lixe. GANDA QUARESMA. Exibição fulgurante do extremo português, sempre apostado em imprimir velocidade ao jogo, pleno de repentismo e imaginação. Uma flecha apontada à baliza adversária! Está bom assim? Se calhar exagerámos.

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