Euro 2016

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E se nós fôssemos a Grécia de 2004?

Adriano Nobre

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Ganhámos, viva!, tudo é possível, aí vamos nós para os quartos-de-final. O sonho mantém-se. Não jogamos por aí além, é um facto, mas os factos dão para tudo: já vamos no quarto jogo no Europeu e ninguém nos derrota. Nem os fracos que era suposto golearmos, nem croatas, que até já ganharam à Espanha e que eram apontados como os mais difíceis do “nosso lado” do calendário a eliminar. Não foi brilhante, mas ganhámos-lhes. Venham os polacos. Viva Portugal.

O apuramento português na fase de grupos deste Europeu, apenas com três empates, trouxe à memória coletiva dos adeptos, nos últimos dias, a epopeia da Itália campeã do Mundo em 1982. Porque é preciso encontrar sempre argumentos para alimentar o sonho e pela similaridade de registos: três empates na fase de grupos, tal como aconteceu aos italianos nessa prova. Moral da história? É sempre possível ganhar apesar de.

Depois de três empates, ainda não convencemos. Mas já vencemos. E a vitória de ontem sobre a Croácia também serve de combustível para uma viagem mais curta no tempo, mais próxima do que essa Itália de Zoff, Gentile ou Rossi.

Pelo tipo de resultado, mas também pela 'nota artística' – ou falta dela – na exibição, sentimos 2004 a pairar no ar. Grécia. Lembramo-nos todos, certo?

Ainda dói, claro. Dói-nos, diretamente, por termos perdido na final que não podíamos perder, em casa, entre os nossos, com os nossos. Mas dói também ao futebol, no seu todo, pela consciência – que o tempo não apaga –, de que aquela Grécia terá sido provavelmente a campeã europeia menos exuberante da história da competição. Mas ganharam. Como nós ganhámos ontem.

As vitórias por 1-0 foram, de resto, a poção mágica de que os gregos se socorreram em todos os jogos a eliminar no Euro2004. Depois de se ter apurado na fase de grupos com apenas uma vitória (2-1 sobre Portugal no jogo inaugural, empate 1-1 com Espanha e derrota 1-2 com a Rússia), a Grécia seguiu até à final com vitórias por 1-0 sobre a França nos quartos-de-final (golo de Charisteas aos 65 minutos) e 1-0 sobre a República Checa nas meias-finais (golo de prata do central Dellas, no prolongamento).

O registo defensivo, cínico, quase anti-futbeol, repetiu-se na final, de novo 1-0, de novo Charisteas, agora aos 57 minutos, numa das raras subidas à área portuguesa, no único remate que acertou na baliza de Ricardo nesse jogo, com aquele cabeceamento que ainda hoje nos parece um sonho mau. E a eles um sonho bom.

Nas declarações aos jornalistas após essa final de má memória, o português Maniche foi um dos porta vozes da revolta que se sentia no balneário. Porque só Portugal tinha jogado para tentar ganhar e porque os gregos supostamente “não foram dignos da final”, pelo futebol “pragmático” e “defensivo” que praticaram.

“Não houve justiça neste resultado”, lamentou o médio português. Da mesma forma que não tinha havido justiça nas vitórias anteriores sobre a França ou Grécia. Mas o que interessa isso quando se faz história com uma seleção que nunca tinha sequer ganho um jogo numa fase final de uma grande competição? “Demos uma imensa alegria ao povo grego. Será um orgulho para sempre”, sentenciou o capitão grego Theo Zagorakis depois de levantar a taça.

Se nos garantissem isto, não assinávamos já por baixo mais três jogos como o de ontem com a Croácia?