Euro 2016

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Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

É tão simples, não é, engenheiro?

Nicolau Santos

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Escrevi aqui que ontem era dia de Fernandexit se o selecionador nacional insistisse em jogar com João Moutinho no meio-campo (bem como André Gomes, Ricardo Carvalho, Eliseu e Vieirinha). Pois bem: o engenheiro deve ter sido visitado por alguma pitonisa grega (que o deve conhecer dos tempos em que lá trabalhou) e deve ter-lhe dito que o futuro dele iria ser risonho no final do jogo de Lens mas só se se deixasse de ser cabeçudo e fizesse mudanças evidentes na equipa. Fernando Santos lá fez o que tinha a fazer, a fortuna sorriu-lhe, mas no final mostrou que continua cabeçudo e que não está convencido: “Se tivesse o João (Moutinho) em condições punha-o mas não estava bem para este jogo”. Haja paciência.

E, no entanto, era e é tudo tão evidente. O Moutinho está de rastos e o Adrien está em grande forma. O Renato Sanches dá dez a zero ao André Gomes (que o engenheiro pôs a jogar, apesar dos avisos da pitonisa, e que teve de tirar aos 50 minutos porque era um a menos), o José Fonte está habituado à simplicidade de processos defensivos da Liga inglesa (a bola é para se tirar rapidamente da nossa grande área), o Cédric está muito melhor que o Vieirinha e as substituições são para ser feitas quando ainda há tempo para jogar. O Renato entrou aos 50 minutos, mas devia ter jogado de início. Contudo, antes assim: logo que entrou, o nosso futebol foi outro. O miúdo é descarado, não tem medo, vai para cima dos adversários, cobre a bola como ninguém e dá verticalidade (ah, o jargão futebolística é lindo!) ao jogo da equipa nacional. Foi assim que nasceu o golo. O Moutinho faria o que ele fez? Ou o André Gomes? É o fazias!

Por seu turno, o Adrien fez um enorme jogo a secar o Modric. Saiu completamente esgotado mas nunca o cérebro da Croácia conseguiu ter em campo a magistral influência que normalmente desfia durante os 90 minutos. O Moutinho faria o mesmo? Ou o André Gomes? É o fazias!

O Quaresma entrou quando já se vislumbrava o prolongamento. Talvez pudesse ter entrado mais cedo, no caso para o lugar de um desgastado João Mário. Mas ainda foi muito a tempo. O Harry Potter continua a ser um jogador que desequilibra, que causa instabilidade, que baralha marcações e que, ao contrário dos outros colegas de equipa, não tem medo de também ele assumir o remate à baliza em vez de procurar sempre o Ronaldo para ser ele a rematar. Aliás, só ele e o Renato Sanches fazem, nesta equipa, esse obséquio. Os outros estão sempre à espera de que seja o Ronaldo a concluir.

Finalmente, a entrada de Danilo também fez todo o sentido, quando os penalties estavam mesmo à porta e o Adrien esteva já muito desgastado, depois de um jogo em que encheu o campo com a sua raça e determinação e meteu o Modric no bolso.

Em resumo, ontem jogou de início a melhor equipa de Portugal, com excepção de André Gomes. No lugar dele deveria estar Renato Sanches. E provavelmente teríamos marcado mais cedo. Mas com o engenheiro já se sabe. O que ele quer é não sofrer golos, jogar para o empatezinho, todos a defender, e nos penalties é ter fé em Deus, no Patrício e nos que tiverem de rematar da marca dos 11 metros. Esperemos que a pitonisa lhe volte a aparecer em sonhos para o avisar que o seu fígado será debicado por abutres durante anos e anos se insistir em jogar com o Moutinho e o André Gomes, em vez do Renato Sanches e do Adrien. Haja Zeus e mais trezentos deuses gregos!