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O Isaías é do arco-íris

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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O negro é a soma de todas as cores. Mas, de todas as cores, a única que ontem não marcou presença no café do Abel foi o negro. Faltou Maria com o seu traje de luto, assim como o professor Bambara, o bruxo guineense. Não apareceram pela primeira vez, o campeonato deles agora era outro, mais corpo a corpo e, àquela hora, já deviam ter voado para lá do arco-íris.

Mas, verdade seja dita, não se pode dizer que sejam baixas de vulto na claque da selecção. Maria vai ao café pela companhia, tirando a fama de Ronaldo e as tatuagens de Quaresma, não percebe nada de futebol. O mais que faz é ajudar numa corrente positiva quando as coisas não correm de feição. Ao professor Bambara, também não se pode exigir muito. Nem sequer é português e tudo o que sabe da bola foi o que leu nos búzios: “O Éder ainda há-de dar muitas alegrias a Portugal”. Profecia que, até à data, é a mais pura ficção.

Tirando estas duas ausências, o bairro estava em peso no café do Abel. Até o Duarte, meio desaparecido desde o penalty falhado no aniversário do Ricky, apareceu. Mas era apenas figura de corpo presente, o ar combalido denunciava estar ainda longe da forma, orgulho de macho é tramado, leva mais tempo a recuperar do que uma lesão do Fábio Coentrão. Em contrapartida, havia duas estreias absolutas, a chinesa da frutaria e o paquistanês da mercearia, os dois fardados a rigor com as cores de Portugal.

- André, traz-me uma ginjinha, por favor – pediu o Aníbal da loja “Electrodomésticos Amizade”.
- Uma ginjinha? – o coxo estranhou o pedido.
- Sim, uma ginjinha – Aníbal reforçou o pedido.
- Desculpa lá, mas é que o pessoal aqui só bebe cerveja.
- Eh pá, um gajo mal bebe uma cerveja passa a tarde toda na casa de banho e nem consegue ver o jogo. Ainda por cima, a ginjinha é produto nacional. Arranja lá uma ao amigo.

A magia do futebol é colocar lado a lado, todos na mesma euforia, inimigos que no dia a dia nem com molho de tomate se engolem. O Almeida e o Silva, proprietários de talhos há muito rivais, enterram durante noventa minutos o machado de guerra. O Duarte senta-se junto ao Isaías, apesar de mal se falarem, parece que por causa de um problema de saias mal resolvido. Na verdade, a história continua muito mal contada, nunca ninguém viu Isaías com uma mulher, passa o dia no ginásio a cultivar os músculos, não tem tempo para mais nada.

Enquanto o jogo não começa, o advogado reformado não se cala, mais preocupado com a resolução do seu problema do que com a vitória da selecção. Alguém conhece uma empregada doméstica de confiança?, pergunta sem cessar, mas ninguém responde, as cabeças sintonizadas na frequência da partida. Traz a vida a andar para trás. Desde que despediu Elisângela, a brasileira, a casa num caos, montanhas de louça por lavar, camisas e calças por passar.

Mas de todos o mais nervoso era, sem dúvida, o Duarte. Tinha um mau pressentimento, a partir de agora já não há empates, quem perde vai para casa, é preciso a todo o custo evitar o prolongamento. Ninguém compreendia o seu argumento, o jogo ainda mal tinha começado, também não conheciam a sua história recente, a sua experiência mal sucedida, para ele, prolongamento era sinónimo de penálti e, tão cedo, não queria repetir a dose. Correr o risco de falhar no momento decisivo.

Quando o onze de Portugal foi anunciado na televisão, o café do Abel quase veio abaixo. Os treinadores de bancada não compreendiam como é que Fernando Santos levara tanto tempo a perceber o óbvio – Cedric e Adrien têm de ser titulares. Para a euforia ser completa, faltava apenas o Renato Sanches, mas não se pode ter tudo.

O jogo começou, Portugal a ver a bola a rolar. Ainda bem que havia o Pepe, corria, cortava, passava, tentava arrastar a equipa com ele. Quase que marcava. É um Pepe imperial, dizia o Aníbal dos “Electrodomésticos Amizade”, com palavras aprendidas na televisão. Até ao intervalo, mais nada ficou para a história, a não ser que o pessoal seguiu o conselho do Aníbal, começou a pedir mais ginjinhas do que cervejas. Este vai ser um jogo de nervos e uma pessoa não pode passar o tempo todo na casa de banho.

Finalmente, na segunda parte entrou Renato Sanches. Não era sem tempo, gritou a plateia, o puto entrou bem, agora temos um modelo de jogo, o Aníbal continuava a comentar, vamos jogar em 4-3-2-1. Depois, um claro penalti sobre o Nani, Ronaldo a tentar, pela primeira vez, dar o ar de sua graça. E o Pepe corria, cortava, passava, tentava arrastar a equipa com ele. É um Pepe imperial, sublinhava o Aníbal.

O jogo caminhava para o fim, Duarte cada vez mais nervoso, era preciso a todo o custo evitar o prolongamento, a maldição dos penaltis. “Tirem o preto e metam o cigano”, gritou a táctica da vitória. Fernando Santos deve ter ouvido mal, meteu Ricardo Quaresma, mas em vez do Nani, tirou o João Mário. Duarte não gostou da substituição, mas não reclamou porque sentiu um movimento estranho nas suas costas, um corpo encaixado no seu. Nem precisou de olhar para trás, adivinhou ser o Isaías, sempre soube que era maricas. Em rigor, era por isso que quase não se falam. Há anos, disse-lho na cara, “és gay”, mas Isaías negou, negou tanto que endureceu o discurso contra os homossexuais. É o que muitas vezes acontece com quem tem vergonha de sair do armário.

Duarte preparava-se para reagir quando um telemóvel tocou. Todos a reclamarem o barulho, cada um a procurar nos bolsos. Era para o Aníbal.

- Pai!
-Sim filha…estás e ver o jogo?
- Qual jogo?
- O jogo de Portugal.
- Eu não.
- Então?
- Era só para te dizer que vim à Baixa. Precisava de uns biquinis. Comprei três.
- Como assim?
- Não tinha nenhum de jeito e é preciso diversificar.

O pessoal começou a protestar, Aníbal desligou o telemóvel às pressas. Entretanto, Fernando Santos decidiu meter Danilo, estamos a jogar para o empate, o advogado reformado constatou, ao que um comentador encartado respondeu: “O jogo não está para tabelinhas, é preciso alguém que tenha visão periférica”. As coisas que um homem aprende a ver televisão.

E chegou o minuto 116. O Renato Sanches a rasgar o meio campo, a bola a chegar ao Dani, cruzamento para o Ronaldo, mas o melhor do mundo não estava nos seus melhor dias. Por sorte, apareceu o cigano, o Harry Potter, o Mustang, o Ricardo Quaresma, chamem-lhe os nomes que quiserem. Naquele momento, no café do Abel, o seu nome era Portugal. Isaías não aguentou a euforia abraçou Duarte e pregou-lhe um beijo na boca.