Euro 2016

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A semiótica, os penáltis e a Inglaterra

Inglaterra e Islândia jogam esta noite a passagem aos quartos de final num jogo de “mata-mata”. A seleção nórdica já provou que sabe defender e os ingleses, apesar de contarem com os dois melhores goleadores da última Premier League – Kane e Vardy –, têm demonstrado dificuldade em acertar com as balizas adversárias. Os penáltis são, por isso, um cenário possível. Diga isso a um inglês e veja a reação

Expresso

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Todos já passámos pela angústia de ver a nossa seleção decidir o seu futuro num grande torneio através do desempate com penáltis. Aquela sensação de que nessa altura só a sorte ou os deuses nos podem proteger, e que nada mais há a fazer senão esperar por um milagre qualquer, toma conta de nós e há até quem vire as costas. É mesmo assim. Umas vezes ganha-se, noutras perde-se. O tempo passa e só resta esperar pela próxima oportunidade.

Ora, e se lhe dissessemos que para os ingleses a coisa deixou de ser assim. Pelo menos, desde 1996 que para os adeptos súbditos de Sua Majestade a marcação de pontapés da marca de grande penalidade ultrapassa o sentido que a maioria lhe atribui.

Tudo começou em 1996, jogava-se o Europeu em Inglaterra e calhou em sorte à seleção da casa defrontar a Alemanha em Londres nas meias-finais, no mítico estádio de Wembley. “Achtung Surrender!” lia-se no "Mirror" no dia do jogo. As alusões à II Guerra Mundial eram inevitáveis e um significado além futebol era atribuído ao encontro destas duas enormes potências futebolísticas do Velho Continente.

O jogo terminou 0-0 depois do prolongamento e teve que ser decidido nas grandes penalidades. A Inglaterra perdeu e viu os eternos rivais festejarem em sua própria casa. Foi o início do que viria a ser um caso de estudo.

Alex Gordon, um estudioso que procura significados em acontecimentos do dia a dia – semiótica – explica a sua tese ao "The Guardian": "É claro para mim que o futebol moderno veio tomar o lugar das batalhas".

"Decidir jogos através de grande penalidades é uma forma das nações se reverem e julgarem. A sua narrativa cultural é escrita à medida que cada penálti é batido. E o mito nacional é reforçado ou alterado. No caso da Inglaterra é fundamental, porque cada derrota nos penáltis é uma lembrança da nossa perda do império, cada derrota significa a perda do nosso estatuto", defende Gordon.

Veja o leitor a sorte destes adeptos. Dois anos depois de perderem para a Alemanha, em Londres, a seleção inglesa joga o Mundial em França e encontra nos oitavos de final a Argentina –nação interveniente no conflito bélico ocorrido 16 anos antes nas ilhas Falkland/Malvinas – num jogo fantástico, com golos (2-2) e muita emoção, e... penáltis. O peso de não poderem perder mais território terá sido demasiado para os jogadores ingleses, que acabam eliminados, mais uma vez.

O Euro 2004 e o Mundial 2006 só vieram agravar ainda mais este trauma que assola o futebol inglês. Em ambas as vezes com Portugal metido ao barulho, claro, na marcação dos decisivos penáltis, e com os resultados que os portugueses bem conhecem e recordam com satisfação. Ultimato não respeitado e lá se foram mais umas terrinhas.

Os ingleses disseram basta. Garantiram que iam treinar, preparar até à exaustão e que na próxima decisão da marca de 11 metros iriam estar à altura, iriam fazer a festa. Mas tudo continuou na mesma. Há quatro anos, no Europeu coorganizado pela Polónia e pela Ucrânia, a Inglaterra defronta a Itália nos quartos de final e depois do 0-0 durante os 120 minutos a decisão passa, mais uma vez, pelo duelo homem a homem, para o qual Alex Gordon tem uma explicação: "Existe o respeito de esperar que o oponente esteja pronto, o romantismo entre heróis e vilões. A masculinidade tem um papel importante. Apenas os bravos aceitam bater o penálti, mas falhar pode significar perder o território para outro".

E assim foi, a Inglaterra cedeu a vaga a uma nação que se superiorizou e ficou de fora.

Pelo que resta esperar pelo próximo episódio desta sequela. Pode ser já esta noite.