Euro 2016

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Brexit chega aos relvados

Islândia conseguiu o impensável e eliminou a Inglaterra por 2-1 com os golos de Sigurdsson e Sigthorsson a selarem a reviravolta. Segue-se agora a França e mais um capítulo no conto de fadas enquanto os ingleses regressam humilhados a casa

Tiago Oliveira

Laurence Griffiths/ Getty Images

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Nova Albion, velhos hábitos. Após uma campanha de qualificação só com vitórias, as expectativas eram altas para a equipa mais jovem do Euro e geração promissoras como há muito não se via para aquelas bandas. Mas há coisas que não mudam e a injeção de juventude não foi suficiente para enfrentar os demónios de sempre. Confusão tática, exibições pouco convincentes e mais uma saída prematura de uma competição internacional.

Mas desta vez, os ingleses não se podem queixar de um adversário com mais pedigree, da sorte ou dos malditos penáltis (Ricardo que o diga). O 2-1 com que se despedem pela segunda vez em poucos dias da Europa aconteceu como cortesia da Islândia. Sim, leu bem. Do país que tem apenas 323 mil habitantes, que está numa competição do género pela primeira vez e de quem pouco ou nada se esperava.

Os rapazes loiros e de olhos azuis que compõem a seleção não são tão toscos quando aparentam à primeira vista. Isso ficou logo claro no primeiro jogo perante Portugal, onde a réplica foi boa e o futebol consistente. Sem esquecer que já na fase de apuramento tinham ganho duas vezes à Holanda. No mínimo, não seriam certamente presa fácil para os ingleses que, como qualquer adepto de futebol sabe, nunca gostam do caminho fácil para atingir os objetivos.

No último jogo com a Eslováquia, a gestão do selecionador Roy Hodgson tinha resultado numa exibição pouco conseguida e o consequente empate atirou a equipa para o segundo lugar e para o lado mais complicado das eliminatórias. Ainda assim, os islandeses pareciam um adversário acessível. Mesmo possuindo uma daquelas qualidades raras que costumam dar resultado, vulgo um sentido coletivo que tira o melhor dos recursos disponíveis, decerto que o que a pequena nação já tinha conseguido era suficiente. Certo?

Como as sondagens e sentimento público aparentemente prevalecente nos ensinaram recentemente, nada é o que parece. A pátria do futebol arrancou para a partida com Daniel Sturridge a substituir Lallana na ala direita e com a confiança reforçada perante um início de jogo que não podia ter corrido melhor. Passe longo, desmarcação perfeita de Sterling e derrube inevitável do guarda-redes Halldorson. Grande penalidade que o capitão Rooney converteu logo aos 4 minutos.

Lars Baron/ Getty Images

Resistência

Caminho aberto para uma passagem tranquila. Só que, como acontecia numa célebre aldeia gaulesa (é pegar e tirar o pó ao Astérix da prateleira), os islandeses têm demonstrado estar prontos para agora e sempre resistir ao invasor. E isso foi evidente na resposta imediata dada pelos nórdicos com recurso a uma arma que se revelou muito eficaz: os lançamentos longos de Aron Gunnarsson. A bola na área foi desviada por Arnason e sobrou na pequena área para o central Sigurdsson que rematou para o fundo das redes um minuto após o penálti.

13 minutos depois tudo se tornou ainda pior para os ingleses. Mais um lançamento, bola disputada à entrada da área, passe para Sigthorsson e remate colocado para um tento onde Joe Hart não ficou bem na fotografia. Os adeptos islandeses (1/3 do país está em França) nem acreditavam e aumentaram o volume da festa em Lille.

Os ingleses partiram para cima dos adversários mas sem grande organização. À parte de um remate muito perigoso de Harry Kane, todas as investidas esbarravam na sempre bem posicionada defesa islandesa. Por incrível que pareça, a segunda parte consegui ser ainda pior e revelou uma Inglaterra sem ideias e com pouca convicção. A entrada do herói do título do Leicester, Jamie Vardy, não galvanizou a equipa, que concedeu mesmo à Islândia as melhores oportunidades de golo.

Nos minutos finais, nota para a entrada do adolescente Marcus Rashford, que foi o único a apresentar uma ponta de irreverência. A surpreendente vitória caiu bem à Islândia, que fez por merecer. Já a Inglaterra volta a casa pela orta pequena e já sem o demitido treinador. Os islandeses esperam agora por um confronto com a anfitriã França. Num país onde 30% tentaram votar este fim-de-semana pelo selecionador Lagerback as eleições presidenciais, o sonho está vivo.