Euro 2016

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O Conte de Monte Cristo

Esta Itália de Antonio Conte está a vingar o passado recente com um futebol certo e assertivo e a eficácia de sempre. A vítima de hoje foi a Espanha, campeã europeia em título

Pedro Candeias

Clive Rose/REMOTE

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Assim que o vi tive uma epifania: o Thiago Motta é a cara desta Itália. Porque, em primeiro lugar, o Thiago Motta nem italiano é, ou melhor, é tão italiano como o Éder Martins. Depois, porque o Thiago Motta entrou com o número 10 nas costas, e se há coisa que a Itália não tem é um número 10, estilo Baggio - o Thiago Motta é um seis-que-é-um-oito que está lá para fazer os adversários num oito. É uma versão mais pobre do De Rossi, o patrão do meio campo transalpino que ainda há pouco esteve a jogar contra a Espanha.

E o De Rossi, como o Buffon, são provavelmente as únicas estrelas (envelhecidas) desta equipa que está assente na experiência e na manha do Chiellini, do Bonucci e do Barzagli - e na mestria de um selecionador que faz mais do que escolher jogadores.

O Antonio Conte faz aquilo para que lhe pagam: treina os seus futebolistas, dá-lhes uma identidade coletiva, vinca-lhes a personalidade e dá-lhes moral.

Por isso é que o Éder ou o Pellé estão a jogar assim, com classe, uns furos acima daquilo que provavelmente valem, espécies de Totto Schillaci de 2016 a quem quase tudo lhes sai bem. Os americanos têm uma expressão para isto: estar na zona e a Itália está nesse lugar confortável. Joga em 3x5x2 e em 5x3x2, adapta-se aos adversários que fazem alinhar dois extremos e um avançado ou dois avançados e dois extremos (Del Bosque procurou as duas variantes), e está sempre mais próxima do golo do que o nível dos seus atletas faz supor.

Aliás, na primeira-parte, só De Gea impediu que a Itália tivesse saído ao intervalo com mais do que um golo de vantagem. Depois, soma a isto tudo aquela característica que é só deles e que Portugal está a aprender: a capacidade de sofrer sem tremer.

Foi isso que se viu, a espaços, na segunda-parte, quando a Espanha carregou em cima da defesa transaplina. E apesar de algumas bolas rente ao poste, defesas de Buffon, foras de jogo no limite, a Itália raramente se desuniu ou descoseu nas marcações e na estratégia, deixando sempre uma nesga entreaberta para o contra-ataque. Num deles, aconteceu o 2-0 e a Itália reforçou a candidatura á vitória neste Europeu.