Euro 2016

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A história improvável da Islândia: o pai, o filho, a bolha imobiliária e o dentista

A Islândia é a equipa que toda a gente aprendeu a gostar, porque é genuína e combativa, nunca vira a cara à luta e bate o pé aos grandes. Mas o caminho até aos quartos de final do Euro não começou hoje - começou há vinte anos. Um conto de fadas no país dos elfos

Pedro Candeias

Dan Mullan

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Há um desporto em que os islandeses são em média melhores do que todos os outros e é uma celebração de força individual, o que acaba por ser uma contradição num país pouco dado a celebridades e a estratificações sociais: os governantes corruptos são julgados como gente comum e o comediante Jón Gnarr foi presidente da câmara de Reykjavik.

Neste rodízio de músculos do tipo jogos sem fronteiras que se chama World Strongest Man, homens que se parecem com montanhas arremessam bolas de granito, puxam camiões por uma cinta, carregam o equivalente a um animal de porte nas mãos, e levantam pesos inacreditáveis do chão.

Nesta modalidade, os islandeses têm 17 medalhas, menos oito do que os Estados Unidos, o que é quase nada se tivermos em conta o número de habitantes de uns e de outros. A Islândia é um lugar de gente geneticamente abençoada com o poder dos deuses: o recorde de peso-morto é 445 kg e é de Benedikt Magnússon; Hafthor Bjornsson, que ganha a vida a encenar esmagamentos de cabeças no Game of Thrones, carregou um tronco de 654 kg às costas no ano passado.

O problema dos islandeses nunca foi a força, mas a destreza, porque o meio e o contexto em que vivem e se mexem não lhes é favorável. É um lugar inóspito que só permite correrias e competições sazonais ao ar livre - a Islândia tem quatro medalhas em Jogos Olímpicos (andebol, triplo salto, judo e salto com vara), tantas quantas as do Peru, Namíbia, Líbano, Singapura, Gana, Qatar e um reino que já deixou de existir, a Boémia; Portugal, que é o que é, tem 23 medalhas. Mas há algo que difrente no ar e dizem que foi assim e que foi aqui que tudo mudou.

O dia 24 de abril de 1996 foi o dia em que tudo mudou. Nesse dia a Islândia jogou em Tallinn contra a Estónia e ganhou por 3-0 e ainda que esse jogo não tenha significado nada para os islandeses em geral, porque foi um amigável, significou tudo para dois deles em particular: Arnor e Eidur Gudjohnsen, pai e filho, abraçaram-se e beijaram-se quando o primeiro saiu para o segundo entrar. A revolução terá nascido desse cruzamento.

Arnor acabou a carreira e foi transformar a federação por dentro, Eidur acabou por tornar-se o melhor jogador da história do país e transformou o futebol islandês quando foi para fora. Para o Chelsea. E para o Barcelona. A carreira de Eidur, que ainda joga e está no Europeu, inspirou a geração seguinte de futebolistas - e de dirigentes desportivos. Se ele fora capaz de chegar tão longe com tão pouco, imaginem o que teria conseguido se na Islândia houvesse lugares onde miúdos pudessem jogar e treinar e competir, sem frio no corpo e gelo nos pés.

Traçou-se um plano, construíram-se estádios indoor com relvados e balneários, tudo aquilo a que um aspirante a futebolista tem direito, à boleia da bolha do imobiliário que levou a Islândia até até lá acima antes de vir por ali abaixo, em 2008, quando rebentou. Se havia crédito para se construir casas, porque não construir casas de futebol? Foi o que fizeram. Nos vinte anos seguintes, apareceram 11 campos indoor, mais de uma centena de treinadores tiraram a licença A da UEFA, a federação semi-profissionalizou-se - e a Islândia tornou-se uma nação de futebolistas. Com poucos futebolistas, é verdade, porque tem apenas 21,508 jogadores federados, mas ainda assim muitos mais do que os que tinha antes desta transformação. E este país que tem só 331 mil habitantes, muitos deles luteranos, outros pagãos, outros ainda que acreditam em elfos e duendes, vive agora um conto de fadas.

Julian Finney

Em apenas quatro anos, de 2012 para cá, a Islândia pulou cem lugares no ranking da FIFA e no Euro 2016 está entre as oito melhores seleções. Bateu o pé a Portugal e arrumou com a Inglaterra. O mérito é da Islândia, desta geração de islandeses, e de um sueco chamado Lars Lagerbäck, o selecionador que lhes trouxe a tática e lhes impôs o bê-á-bá clássico dos pequenos quando enfrentam os grandes: disciplina defensiva, agressividade nos duelos individuais e contra-ataque.

Ao lado de Lägerback está Heimir Hallgrímsson, que é islandês e dentista em part-time e que em 2017 vai tomar conta da Islândia. Juntos construíram uma equipa sólida e solidária, em que muitos defendem, poucos atacam e todos se mexem como num jogo de computador, certinhos e com o espaçamento certo entre eles. Sim, são altos, pesados e robustos como verdadeiros Vikings (média de 1,85m e 78,52 kg). E, sim, todos juntos valem menos do que Ronaldo (o plantel da Islândia está avaliado em €32,1 milhões). Mas há muito mais neles além disso. Sobretudo em Gilfy Sigurdsson, do Swansea, o craque islandês. E em Kolbeinn Sigthorsson, o ponta de lança do Nantes, em Birkir Bjarnason, o médio do Basileia, em Ragnar Sigurdsson, o central do Krasnodar, e no preferido de toda a gente, o capitão Aron Gunnarsson, do Cardiff. É ele que lidera a equipa, de barba e com tatuagens, nos cânticos que se parecem com o aka neozelandês.

É uma celebração tribal, gutural, de tipos que sabem o que é domar a natureza para viver. Descendem dos que sobreviveram ao controlo dos vizinhos maiores e mais poderosos (noruegueses e dinamarqueses) para se afirmarem enquanto povo.

Está-lhes no sangue contrariar o destino.