Euro 2016

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Os quartos não são para toda a gente

Adriano Nobre

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Permanece um insondável mistério a decisão da Federação Portuguesa de Futebol de eleger uma versão da música “Tudo o que eu te dou”, de Pedro Abrunhosa, para hino motivacional da seleção e dos adeptos neste Euro2016. Percebe-se o piscar de olho ao sucesso da versão sportinguista do “My Way” de Sinatra, mas continua a soar forçado. Além de demasiado parado.

A opção soa ainda mais a tiro ao lado quando sabemos que o mesmo autor tinha uma música com mais ritmo e bem mais adequada a um cântico nas bancadas. Imagine-se a claque a cantar “O que é que temos que fazer? Talvez correr”, quando a equipa teima em não acelerar o jogo. Ou a gritar como refrão “Talvez vencer” quando o treinador decide meter Danilo nos últimos minutos de um empate. Seria seguramente mais animado.

Percebe-se, no entanto, o pudor da escolha. A alusão ao original poderia chocar as mentes mais púdicas e quiçá suscitar ideias na equipa. Ideias impróprias, claro.

Apesar de haver estudos - e o histórico de jogadores como Geroge Best - que colocam em causa a premissa de que a performance dos jogadores durante os jogos pode ser afetada por terem relações sexuais durante o estágio, a questão é geralmente tratada com pinças nestas provas.

O assunto é sempre notícia nas vésperas das competições, seja pelos treinadores que proíbem ou permitem que os seus jogadores recebam visitas das mulheres ou namoradas nos hotéis em que estão instalados.

Este ano não fugiu à regra e alguma imprensa inglesa noticiou que o selecionador daquele país proibiu os jogadores de terem relações sexuais durante a prova. E só poderiam estar pessoalmente com as suas companheiras no caso de lhes ser concedida alguma folga. Valeu-lhes ontem a Islândia para terminar com a clausura.

Não se sabe o que Fernando Santos combinou com os jogadores portugueses, mas sabemos que a abordagem dos treinadores a este tema dá por vezes origem a respostas pouco usuais em conferências de imprensa.

No Mundial 2014, por exemplo, o treinador da Bósnia, Safet Susic, fez questão de esclarecer as dúvidas dos jornalistas com todos os pormenores. “Não haverá sexo no Brasil. Os jogadores podem arranjar outras soluções, podem até masturbar-se se quiserem. Isto não é uma viagem de férias: vamos ao Brasil para jogar futebol”, sentenciou.

Um artigo da revista “Time” em 2014, nas vésperas do Mundial, sobre as opções nesta matéria dos selecionadores das equipas presentes nessa prova apresentou casos para todos os gostos.

Desde os treinadores que permitiam sexo durante a prova (Alemanha, Espanha, Suíça, Holanda ou Uruguai, por exemplo), os que o proibiam (Bósnia, México, Rússia ou Chile) e os que permitam com algumas condicionantes: os franceses podiam estar com as mulheres desde que não fosse a noite toda; os nigerianos só podiam se fosse com as mulheres com que estivessem casados; os brasileiros, então orientados por Scolari, podiam desde que o sexo não envolvesse “acrobacias”.

No Euro2004, quando dirigia a seleção portuguesa, o treinador brasileiro já tinha dado mostras da sua faceta liberal neste tema, assumindo que quando os jogadores estavam de folga “nem queria saber por onde andavam”. Mas quando as folgas acabavam, o tom mudava. “Quem não se controla é bicho. Ou somos humanos e sabemos definir o que queremos ou pensamos apenas em sexo”, respondeu na altura numa entrevista ao jornal A Bola.