Euro 2016

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2012: Pedro Proença sabia tudo. E quando dizemos tudo, é mesmo tudo

Duarte Gomes recorda a vida de árbitro naquele ano de 2012, em que esteve na final da Champions e do Euro. “Era o ano do Pedro”

Duarte Gomes

Martin Rose

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Tive a oportunidade e o privilégio de estar na equipa de arbitragem liderada pelo Pedro Proença, que esteve presente no Euro 2012, disputado na Polónia e na Ucrânia.

Depois de uma época fantástica para o Pedro e por extensão de partes, para todos nós (que culminou com a nomeação para a Final da Champions League), ter a possibilidade de estar também na maior competição de seleções da europa foi, sem dúvida, a cereja no topo do bolo.

A minha presença (tal como a do Jorge de Sousa) em todos esses grandes momentos, deveu-se ao facto da UEFA ter aprovado a integração de "Árbitros Assistentes Adicionais" no modelo competitivo da Liga dos Campeões e do Campeonato da Europa.

Por indicação inicial do Pedro e com a aceitação da UEFA, fizemos, juntamente com o Bertino Miranda e Ricardo Santos, uma equipa forte. Uma equipa vencedora.

E não digo isso porque dirigimos duas finais consecutivas. Essa foi apenas a consequência feliz.

Digo-o pela forma como dedicámos a esses projetos muito do nosso tempo e compromisso. Mérito, diga-se, do Pedro Proença.

Desde muito cedo, ele planeou todo este trajeto até ao mais ínfimo pormenor. Nada foi descurado ou deixado ao acaso.

A intensidade dos treinos e a forma como eram estudados e ministrados, a preparação teórica e técnica planeada com estratégia e sabedoria, as reuniões de trabalho presenciais ou via skype. Tudo fruto de muito trabalho.

O rigor colocado em cada pormenor, em cada detalhe, em cada ação que fazíamos, levou-nos para outro patamar. O da excelência.

Éramos, lembro-me bem, verdadeiras máquinas. Bem oleadas, bem afinadas e com objetivos muitíssimo bem definidos.

Estávamos na nossa melhor forma física de sempre e preparados tecnica e taticamente. Estávamos também emocionalmente fortes e confiantes.

E assim chegámos a Varsóvia, ao quartel-general da UEFA para árbitros e respetivo staff.

Nesses dias, penso que soubemos ser sempre pessoas afáveis, companheiros solidários perante todo o grupo, mas o segredo foi a forma como funcionámos entre nós, como amigos. Fomos verdadeiramente coesos.

O rigor era tal que até a nossa indumentária era preparada meticulosamente. Parecíamos uma verdadeira equipa, dentro e fora do campo, porque de facto o éramos.

Essa união, esse espírito contagiante que criámos, que nos distinguia dos demais, foi também um dos segredos do nosso sucesso.

Sentíamos o respeito dos nossos pares e, acima de tudo, a admiração do Comité de Arbitragem da UEFA, que via em nós o exemplo perfeiro de profissionalismo.

Os jogos foram aparecendo, as viagens e os estágios sucederam-se. Estávamos preparados. E com as funções, individuais e coletivas, bem definidas, bem planeadas.

Claudio Villa

Sabíamos tudo o que nos esperava. A cidade anfitriã e a temperatura que seria expetável, o estádio e o tipo de relvado que tinha, os onze previsíveis de cada equipa e as opções do banco. Sabíamos, em rigor, quem era o mais talentoso, o mais agressivo, o mais difícil, o mais veloz. Quem comandava a equipa e quem criaria conflitos. Sabíamos como defendiam e atacavam em todos os momentos, sobretudo nas bolas paradas. Sabíamos quem batia os pontapés livres. Sabíamos o que esperar dos técnicos e das suas reações e emoções. Tudo estudado, trabalho de casa sempre bem feito.

E assim tudo foi correndo bem. Fruto de muito trabalho, claro mas também de alguma sorte, que acompanha e protege sempre quem a procura com persistência.

E de jogo em jogo, de treino em treino, de semana a semana, fomos ficando em Varsóvia. Enquanto uns partiam, nós regressávamos aos quartos para arrumar a roupa nos armários novamente.

A internet ajudava a diluir as saudades que o passar dos dias e das semanas agudizavam, mas o trunfo era sermos a família uns dos outros.

E por isso, entre tanta concentração e profissionalismo, havia sempre espaço para momentos de descontração que gente feliz sabe promover para manter o bem estar de todos. Porque esse bem estar era a base essencial da nossa concentração.

Sabíamos que, naquela fase, já não estávamos a representar apenas os árbitros portugueses. Estávamos a representar o nosso país.

Estávamos cientes que o objetivo era apenas o de chegar à etapa seguinte, com humildade e dignidade. E sempre de cabecinha bem levantada.

E sabíamos também - soubemos sempre - que a nossa continuidade na prova não dependia apenas de nós, mas também de um conjunto de fatores aleatórios e subjetivos, que não dominávamos.

Mas aquele era o ano do Pedro.

E se a qualidade do trabalho que ele tão bem liderou deu frutos, o karma e o destino encarregaram-se de fazer o resto.

Fomos nomeados para a Final de Kiev.
Para a Final do Euro 2012, entre a Itália e a campeã Espanha.

Não há, a esta distância, muitas palavras que possam descrever aqueles momentos.

Sei que os adeptos nunca pensaram bem neste lado do futebol. No nosso lado. Mas acreditem, as sensações que um profissional saboreia ao atingir o máximo da sua carreira, são inenarráveis.

Alegria imensa confundida com risos perdidos e descontrolados, nervos em franja, mãos a tremer, palavras balbuciadas. Ficámos orgulhosos e felizes, tanto a saltar como a olhar uns para os outros, em silêncio. Um silêncio que gritava mais alto que qualquer palavra de euforia.

O nosso sucesso pessoal e desportivo teve um nome e um rosto bem definido. E hoje sei bem que nada dura e perdura na vida por acaso, sem mérito. Sem trabalho, sem compromisso ou profissionalismo.

Fomos os últimos a sair do Euro, os mais cansados mas obviamente, os mais felizes e preenchidos.

Pouco depois do nosso regresso, o Pedro foi eleito o melhor árbitro do mundo. Meritoriamente.

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