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Eu sou o Ronaldo

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Todas as tardes, ao regressar da escola, os olhos colados à montra do café. Demorava-se a namorar os bolos, as guloseimas coloridas, até os chocolates envergonhados pelo calor. A mãe impacientava-se, começava a puxá-lo pelo braço, mas ele parecia hipnotizado. A montra tinha mel, prometia muito mais do que um episódio da Patrulha Pata, os seus desenhos-animados preferidos.

- Temos de ir para casa. Está a ficar muito tarde – a mãe tentava, em vão, dar voz de comando.
- Só mais um bocadinho…só mais um bocadinho – respondia ele, véu no céu da boca, ao mesmo tempo que desembrulhava um sorriso meigo.

Derretida, a mãe lá o deixava mais um bocadinho. E ele, vidrado na montra, tão-pouco falava.

Ontem, como todas as tardes, a história repetiu-se. Mas o miúdo encostou ainda mais a cara contra a montra, como se quisesse entrar para dentro de um filme. Ficou assim largos minutos, a mãe encostada às suas costas, todos os cuidados são poucos, os automobilistas não têm qualquer cuidado, conduzem a alta velocidade.

- Temos de ir para casa. Está a ficar muito tarde – a mãe repetiu a lenga-lenga do costume.
- Mas eu hoje faço anos. Já sou crescido – a resposta a saltitar na ponta da língua.

Atrás do balcão, Abel apreciava a coreografia. Todas as tardes, o mesmo filme. Mais do que uma vez, pensou entrar no diálogo mas recuava sempre. O tema era-lhe sensível, também ele tem uma filha, e durante anos, não lhe pôde dar tudo quanto queria. Mas ontem, num arroubo de coragem, meteu conversa com o miúdo de palmo e meio.

- Como é que te chamas?
- Pedro.
- E fazes anos hoje?
- Sim.
- Quantos?
- Quatro.
- Então, já és um crescido.
- Já não sou bebé.
-E portas-te bem na escola?
- Sim
- E diz-me lá uma coisa: gostas de futebol?
- Sim.
- E quem é o teu jogador preferido?
- Eu sou o Ronaldo.
- Vem comigo, Ronaldo, que tenho uma coisa para ti.

A mãe começou a ficar atrapalhada, sem saber muito bem o que fazer, limitou-se a seguir as pisadas do filho.

- Este bolo de anos é para ti – disse Abel, estendendo-lhe um bolo de chocolate enfeitado com uma bola com as cores da selecção.
- Fixe! – gritou o miúdo.

A mãe cada vez mais desconfortável. Estava longe de imaginar um desfecho destes, não sabia como reagir. Também ela gostaria de dar ao filho um presente destes, mas o subsídio de desemprego mal dava para comer, quanto mais para um carinho.

- Não me faça uma coisa destas – implorava, envergonhada.
- Temos de ser uns para os outros – respondeu Abel com as palavras que conseguiu amealhar.

Indiferente ao verbo dos adultos, Pedro transpirava felicidade, o sorriso do tamanho do mundo. Apenas tinha olhos para o seu bolo, o maior dos tesouros. A mãe deixou finalmente escapar um sorriso, tudo o que queria na vida era ver o filho feliz.

- E o que é que se diz ao senhor?- perguntou ao filho, antes de abandonarem o café.
- Obrigado, senhor – o miúdo a responder com palavras aprendidas.
- Não tens nada que agradecer, Ronaldo – respondeu Abel de imediato. Quando comeres o bolo, vais ficar mais forte e marcar muitos golos.

Ronaldo. Na altura, Abel não viu bem o caso. Ronaldo. Também o verdadeiro nasceu pobre, uma casa mal amanhada na Madeira, sofreu longe da família, lutou para ser o melhor do mundo. Agora, carrega um país na braçadeira. Onze milhões esperam amanhã mais uma alegria. Em todas as crianças há um Ronaldo, o Pedro pode ser o próximo.