Euro 2016

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O cansaço no futebol não é um mito. “É um delírio”

Quem viu a seleção no sábado vibrou com a passagem e temeu pela condição física de alguns dos nossos - Ronaldo, André Gomes, João Mário (saiu esgotado) e demais. Como é que se recupera a condição física de gente que fez mais de 50 jogos durante o ano e que agora joga a cada quatro dias (ou quase) numa competição a eliminar? Os segredos da recuperação revelados por quem sabe O Expresso está preocupado com a nossa seleção e quis saber se os jogadores estão ou não cansados. Falou com José Soares, responsável pelo Laboratório de Fisiologia da Faculdade de Desporto que garante que no futebol o cansaço é usado como desculpa por tudo e por nada

Isabel Paulo

Shaun Botterill

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D.R.

José Soares, professor catedrático responsável pelo Laboratório de Fisiologia da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, afirma que se está a atingir o limiar do raciocínio delirante na análise dos jogos e resultados no Euro 2016. O fisiologista da seleção de António Oliveira no Europeu de Inglaterra e no Mundial do Japão e do Boavista campeão nacional não alinha nas teses que os jogadores estão fatigados por excesso, o que condiciona o rendimento da equipa de Fernando Santos. Do encontro com a Croácia diz que não sabe se o jogo foi lento devido a fadiga ou simplesmente porque houve receio de atacar. E não se surpreende com o abandono de Messi, pois lembra que é humano querer mais vida para além do futebol

A nossa seleção está estafada?
Tem tido um padrão relativamente comum à maioria das equipas. Neste Europeu, como no último Mundial e agora na Copa América, os jogadores chegam com muitos jogos e é natural que acusem algum desgaste. Não é um problema da seleção portuguesa.

No jogo com a Croácia, Rodolfo Reis referiu que jogaram a 10 à hora. Foi um jogo parado, entediante até...
Eu acho que temos de ter um certo cuidado na forma como analisamos eventos que demoram algum tempo. Um jogo de futebol são 90 minutos. Muitos comentadores cometem, não digo o erro, mas a imprudência de fixarem em demasia alguns aspectos do jogo, como se fossem fotografias, quando um jogo é um filme. Na realidade, houve momentos em que o jogo foi lento, mas não sei se o foi por uma questão de receio de atacar ou de fadiga.

Acha que foi mais uma questão de tática do que desgaste físico?
Estando de fora não consigo distinguir isso. Nesse jogo, houve um dado muito interessante e que foi pouco valorizado. Fala-se muito na componente tática e que Portugal manietou o jogo, mas se formos ver os dados houve 14 passes para ocasião de golo por parte da Croácia. Rui Patrício fez zero defesas, o adversário teve várias situações perigosas e o que se analisa é se jogámos devagar ou depressa. Nós, no futebol, muitas vezes não vemos o filme todo, vemos só determinados aspetos, ficamos irritados e passamos a ver o padrão quando foi a exceção. De forma geral, parece que em relação à seleção, não há mais nenhum tema que não seja o do cansaço.

Após uma longa época, nestas fases finais de europeus e mundiais como é que se refresca uma equipa?
São épocas longas de facto, é normal que exista desgaste, embora haja outras modalidades que também têm muitos jogos e não se fala tanto nisso. O futebol entrou numa espiral de delírio que se fala na fadiga dos jogadores por tudo e nada. É porque jogam com 30 graus e outros com 25 e 27, é porque viajem mais ou menos uma hora e jogam com mais ou menos um dia de intervalo. Há uma contradição que o futebol vai ter de ultrapassar. Ouço pessoas a falar de futebol como se fosse uma atividade só compreensível para alguns, tal é a sofisticação da análise tática das equipas, que depois contradiz a sensação de que o jogo é iminentemente físico. Parece que o que condiciona tudo é o Ronaldo não ter descansado o suficiente, é os jogadores virem de campeonatos muito exigentes, é o Messi que agora diz que não quer jogar mais na seleção por ter uma sobrecarga muito grande de jogos. Decidam se o jogo de futebol é fundamentalmente tático, que às vezes até parece que estão a falar de xadrez, ou se é mais físico. Não percebo e confesso que não tenho solução para isso. Os jogadores e as equipas têm de perceber que há campeonatos europeus, mundiais e olímpicos, há jogos nacionais e torneios internacionais, e têm de se preparar em função disso. São profissionais e não vejo mais ninguém queixar-se.

Refere-se a que outras modalidades?
Por exemplo a NBA. Não vejo ninguém queixar-se. Ainda agora o campeão decidiu-se em sete jogos e não me venham dizer que os jogadores também não estão cansados psicologicamente e fisicamente ou que não é tão cansativo como o futebol. Eu não vi nenhuma referência a isso e não estiveram a brincar. Quando a seleção viajou, perguntaram-se se as viagens da equipa em França podia afetar o rendimento. O que é isso? Viajar 60 quilómetros é alguma coisa? Outro dia li, que Portugal tinha optado por um aeroporto, porque o outro ficava a 60 quilómetros do local de estágio. Na minha perspetiva, está-se a chegar a um ponto que não faz qualquer sentido. Sou um amante do futebol, embora confesse que me falta paciência para a injeção de teóricos que abundam por aí.

Foi boa ideia ter alargado a o Euro para 24 equipas? Não são de facto jogos a mais?
As organizações do futebol têm de decidir. Se os jogadores estão tão desgastados como dizem, que o façam com 10 ou 12 equipas, mas depois não se queixem de haver poucos jogos e menos verbas para o negócio. Assiste-se hoje a contradições sistemáticas. Os clubes e os jogadores têm de ganhar muito dinheiro, e para que haja verbas fantásticas para as mordomias tem de haver entrada de dinheiro e para isso muitos jogos. Se há muito jogos, queixam-se. Sinceramente não sei como se resolve. Sabe o que isto me faz lembrar? As competições europeias. Os treinadores querem ser apurados, quando o são queixam-se que são muitos jogos e perturbam o campeonato nacional. Não alinho nestas conversas.

A mudança dos métodos de treino nos clubes e nas seleções explica de alguma forma alternâncias de forma e rendimento?
O que vejo são diferentes modelos de treino com resultados muito semelhantes. Basta ver os jogos da Alemanha e ir aos sites dos clube alemães, como o do Bayern de Munique, e ver como a componente física dos treinos é fortíssima. O Vieirinha disse numa entrevista que uma das grandes diferenças que notou de Portugal para a Alemanha foi na intensidade do treino. Disse que uma das coisas que teve de aprender no Wolsburg foi a correr, a ter técnica de corrida. Contrariamente a outros treinadores que acham que os jogadores ficam desmotivados se não treinarem sem bola, e então treina todos com bola e a parte física já interessa pouco.

Por ter jogado a final da Champions, Cristiano Ronaldo teve mais tempo de férias. Fernando Santos fez bem em dar-lhe essa regalia?
Há duas coisas importantes. O impacto que poderia ter no grupo, e parece que não teve, atendendo ao facto de outros jogadores terem jogado a final da Taça e seguiram para estágio, e se ele precisava de ter uma semana relaxada após uma época tão exigente. Eu acho que sim, como qualquer pessoa de bom senso. Do ponto de vista físico, descansar, não pensar em futebol e fazer outras coisas, acho muitíssimo bem. Se foi bom para o grupo, isto é para os psicólogos e especialistas nessas áreas.

No dia a seguir aos jogos, Fernando Santos tem dado um dia livre para os jogadores passearem ou estarem com a família, e nos seguintes treinam de manhã. Parece-lhe a dose certa ou excessiva?
Acho bem. É o mínimo que se pode admitir. No futebol está-se a atingir um limiar de raciocínio delirante. Depois de um jogo, é óbvio que precisam descansar um dia. Agora sendo o jogo tão tático, e tendo de enfrentar outra equipa de que forma se podem preparar sem treinar?

Os jogadores fazem ainda de vez em quando sessões de crioterapia em câmaras frias. Tem vantagens?
É uma modelo adequado de recuperação. A única coisa que há que ter cuidado – mas na seleção sabem isso perfeitamente – é não fazer da crioterapia um modelo de recuperação sistemático. O corpo adapta-se de imediato, daí ser importante não repetir sempre os mesmos métodos, aliás como no treino, na alimentação e como tudo na nossa vida. A repetição exagera, deixa de ter o efeito pretendido.

E faz muita diferença uma equipa ter um intervalo de três ou cinco dias entre jogos?
Portugal teve três dias para recuperar antes do último jogo, e a Croácoa cinco...

É a pergunta que me fazem mais vezes e a resposta é sempre a mesma: perguntem a um treinador se ele prefere descansar três ou cinco dias. Ter mais dias de descanso é ótimo, não é só para os jogadores. Portugal jogou no limite mínimo do que já estipulado, que são 72 horas. Agora se isso interfere muito ou pouco no jogo, não sei quantificar...
Dependerá do que se faz nesses dias a mais...
Como em tudo na vida. É melhor comer cinco ou três vezes por dia? Cinco. Mas se forem cinco a comer leitão, é bem pior.

Ficou surpreendido com o anúncio de Messi e Ibrahimovic da Argentina e Suécia?
Não, nem ligo muito a que o Ibrahimovic jogue ou não na seleção. Em relação ao Messi, vou dizer algo que muita gente irá desmentir: em muitos casos, a seleção não é um estímulo suficientemente motivador para os jogadores. Acho que em geral os jogadores identificam-se muito mais com os clubes, embora haja de facto países onde a ligação seja um apelo forte. Veja-se o caso da Islândia, e não é por terem ganho à Inglaterra. Basta olhar como eles festejam, ou a Irlanda do Norte. Outro dia, ouvi o treinador-adjunto da Islândia a referir-se aos jogadores como «o nosso exército». Os islandeses são 300 mil e há uma identificação coletiva muito grande. No caso do Messi, coloco-me no papel dele e acho que fez é humano.

Por já ter ganho quase tudo o que havia para ganhar?
Deve estar farto de estágios, de jogos. Tem uns dias de férias e volta a entrar em viagens, hóteis e estágios. Para muitos já deve ser um frete e não um prazer. Com a idade que tem e o seu palmarés, é aceitável que na fase final da carreira queira ter mais tempo para si, para a família...

Ter vida para além do futebol.
Exatamente. Não digo que os jogadores não gostem dos seus países, mas ele vive em Espanha há quantos anos? É compreensível que se concentre no Barça, que é quem lhe paga.

No caso da Islândia, a euforia dos jogadores é uma questão de novidade? 30 mil estão em França.
A novidade e também sabemos que o sentido patriótico não é igual em toda a parte. Veja o escarcéu que se fez por causa das bandeiras porque não tínhamos esse hábito. Nos EUA, em qualquer recanto há bandeiras do país. Um país pequenito, periférico, a lutar com um grande, ganha outro alento nestes momentos. Que tem um futebol incrivelmente físico, de jogadores altos, agressivos mas sem maldade, de que se fala pouco porque o que agora está na moda são os blocos altos e baixos e passes com critério (seja isso o que for).

Esse futebol físico explica os 2-1 Inglaterra?
No futebol, é difícil explicar vitórias e derrotas. Ganhar e perder é um fio ténue. O futebol é de uma aleatoriedade enorme. Portugal jogou bem porque o Ronaldo jogou para a equipa e o Quaresma marcou. Se a bola à trave dois minutos antes tivesse entrado, a história era outra. Quando se perde, não acho que tudo tenha falido, nem tudo se justifica quando se ganha. Para mim é assim. Se a Croácia fez 14 passes para golo e tivesse marcado dois, queria ver que análises seriam feitas. O jogo seria igual, mas lá diriam que o Ronaldo não ajuda. O futebol é tão aleatório que é a a única modalidade em que há totobola, apesar de se falar de resultados 0-0 ou 1-1 como se fossem uma coisa matemática. Se Portugal tivesse sido eliminado, era uma tragédia nacional. A diferença foi um corte que correu muito bem e o Quaresma apareceu no sítio certo. Ou querem-me dizer que aquilo foi tudo estudado? Não dou para esse peditório.