Euro 2016

Perfil

O comentador “português” que brilha no Euro (não tanto como o islandês, mas quase...)

Benjamin da Silva não é islandês (o nome denuncia-o), mas também é um comentador reconhecido pelo mundo do futebol em França. Não só pelo Europeu, mas pelo que comenta todo o ano no canal beIN Sports, juntamente com o parceiro Omar da Silva, ex-jogador do PSG. Juntos, fazem uma dupla que leva os comentários como uma festa. “Temos de sorrir para o jogo”, diz ao Expresso o lusofrancês que costumava ver jogos com o pai na Luz

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Já ouviste o comentador islandês aos gritos?
Claro, esse tipo agora é famoso aqui em França desde aquele golo da Islândia contra a Áustria. Quer dizer, acho que agora é mesmo uma estrela em toda a Europa mesmo.

Também és um homem muito reconhecido por aqui.
Oh, só às vezes. As pessoas veem-me na beIN Sports, canal de desporto francês, a comentar muitos jogos. Durante o ano comento a liga espanhola e a Liga dos Campeões, e agora o Euro, claro. É giro ter esse reconhecimento mas não é o mais importante para mim.

Vi-te a tirar uma fotografia com emigrantes portugueses. Reconhecem-te?
Alguns, sim. [fala em português] “Ah, és o português.” [risos]

Mas em França a dupla Benjamin da Silva e Omar da Fonseca é muito elogiada.
Bom, não posso dizer se somos uma grande dupla ou não [risos]. Mas já trabalhamos juntos desde o início da beIN Sports em França e damo-nos bem a fazer jogos juntos. Sentimos o futebol e o comentário do mesmo modo: para nós, é uma questão de entreter as pessoas.

Disseram-me que são conhecidos por fazerem comentários de forma muito efusiva.
Sim, porque isto é um trabalho feliz, não é? Vamos aos estádios – estivemos no Brasil no Mundial, no Chile na Copa América… - e gostamos. Para mim, todos os jornalistas que vão a um estádio têm de sorrir para o jogo. A verdade é essa. É o que tentamos fazer.

Vi um vídeo vosso na bancada a dançarem, por exemplo.

[risos] Nem me digas nada, foi um grande erro. Foi engraçado, claro, mas depois milhares de pessoas viram isso. O Omar é muito animado, tem as suas próprias expressões efusivas nos comentários - nem sei como traduzi-las para te explicar -, tem uma maneira de se mexer e de falar com os olhos até. A sério. Gosto muito de trabalhar com ele e falamos muito de futebol. Ele é argentino, por isso adora Messi, claro. Eu gosto mais do Ronaldo. Não sei se é melhor ou não, mas gosto mais dele. Gosto das origens dele, do carácter dele, do trabalho que teve para chegar até aqui.

Já nasceste em França?
Sim, nasci em Paris. E agora viajo por toda a França para o Europeu: Paris, Bordéus, Lyon, Saint-Étienne… Andamos a seguir os jogos de Portugal e de Espanha. O meu pai é que nasceu em Portugal.

Onde?
Viana do Castelo. Mas veio para França com 10 anos, com a família quase toda, pais, irmãos e irmãs. Mas quando eu era miúdo íamos sempre a Viana do Castelo, até porque os meus avós depois voltaram para lá. Estive várias vezes lá e também em Albufeira, onde temos uma casa. Ou seja, quando era miúdo, todos os verões durante uns 10 anos ia para Portugal. E o meu tio mora atualmente no Porto.

Foste a Portugal recentemente?
A última vez que fui, foi para comentar o Benfica-Zenit, da Liga dos Campeões. Gostei muito, claro. Lisboa é a minha segunda cidade. Claro que sou parisiense, adoro a França e adoro Paris, mas também adoro Lisboa e Portugal. É sempre um prazer enorme para mim ir a Portugal, porque faz-me lembrar a minha infância.

Os portugueses são muito diferentes dos franceses?
Sim, os portugueses são mais… descontraídos, acho que é essa a palavra certa. Sorriem muito. As vidas de um francês e de um português diferem muito, parece-me. Não sei bem explicar, mas é a ideia que tenho dos portugueses. Mas os parisienses também são encantadores.

Já viste um jogo comentado por portugueses?
Claro, porque quando era miúdo e estava em Portugal via tudo o que podia de futebol naquele mês de agosto. Especialmente os jogos do Benfica, porque sou um grande adepto. Quando podia ia sempre aos estádios com o meu pai, fomos várias vezes à Luz e também ao Dragão.

Então não ouviste os comentários portugueses?
Na televisão? Já não me lembro, desculpa. O que sei é que aqui tentamos ser diferentes.

Como é que começaste a comentar jogos?
Comentar futebol sempre foi o sonho da minha vida, é o que sempre quis fazer. Quando saí da universidade, tentei arranjar trabalho nisso, fui bater à porta de todas as empresas de comunicação social: ‘Olá, o meu nome é Benjamin e quero ser jornalista. Ajudem-me, deem-me conselhos, o que posso fazer?’. Fui conhecendo jornalistas, fui trabalhando muito como freelancer, para jornais, rádios e televisões. Quando a beIN Sports apareceu em França, em 2012, mandei para lá o meu CV e eles ofereceram-me um contrato. Foi assim que tudo começou.

Sorte?
Sem dúvida. No jornalismo, como deves saber, a determinada altura precisas de ter sorte para evoluir. Mas claro que trabalho muito para conseguir ter essa sorte.

Como no futebol. Um bocadinho de sorte…
Ajuda. Mas também é preciso talento [risos].

Fernando Santos queixou-se da sorte nos primeiros jogos de Portugal.
Santos não tem sorte? Tem imensa sorte! Começa logo por estar a treinar a seleção portuguesa. Claro que é um homem sortudo, está a treinar o Ronaldo. Não é?

Estava a referir-me aos jogos mesmo.
Para mim, ele não tem escolhido bem um jogador: João Moutinho. Ele não pode estar a jogar com Portugal. Naquele meio-campo precisam de velocidade e João Moutinho não tem isso. Ali prefiro André Gomes, João Mário, Renato Sanches, Adrien. Mas a equipa é muito boa. Sabia-se que o vencedor do Croácia-Portugal ia ter grandes possibilidades de chegar à final.

Mas o jogo não foi assim tão bom, afinal.
Ficámos muito desapontados com o jogo e com ambas as equipas. Não adormecemos porque tínhamos de manter os espectadores acordados. Tentámos explicar o inexplicável e manter um discurso positivo.

Achas que podias comentar um jogo em português?
Oh, nem pensar. Só se me ensinares [risos]. Mas adorava ter essa experiência. Adorava falar português fluentemente. Quando o meu pai veio para França aprendeu a falar francês e sempre falou francês para estar bem integrado. Sei algumas coisas, mas mais daquilo que os meus avós me ensinaram.

Sabes dizer bem os nomes dos jogadores em português?
Isso sim, claro. Aliás, o meu primeiro jogo do Euro foi o Portugal-Islândia e quando o Nani marcou esqueci-me do francês e gritei, em português, “golo de Portugal!” [risos] Trouxe-me tantas recordações dos tempos em que era criança… Bom, mas tento não mostrar muito que estou a apoiar Portugal. Mas apoio Portugal, claro [risos]. E a França. São os meus dois países. O meu pai é português, a minha mãe é francesa, por isso é natural.

A França também começou o Euro de forma duvidosa.
É verdade, começaram de forma preocupante, não sei porquê. Têm grandes jogadores – Griezmann, Pogba, Payet… Não sei por que razão não têm estado melhor, até porque os jogos contra Suíça, Roménia e Albânia eram fáceis.

Quem pensas que vai ganhar o Euro?
Inicialmente pensei na Espanha, mas depois do jogo com a Croácia… Agora, acho que talvez seja a França.