Euro 2016

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A contracrónica do Azar do Kralj: só mais 2 empates e somos campeões

Já está. Foi a vez de aviarmos a Polónia, uma equipa composta por indivíduos com a compleição física de um porteiro de discoteca lisboeta e penteado de frequentador de uma discoteca da margem sul

Azar do Kralj

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Alex Livesey

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Não foi fácil, mas entrámos bem. Já cá canta mais um recorde. Desta vez sofremos o 2º golo mais rápido de sempre num Europeu, num lance de admirável défice de atenção que começa com uma trombose de Cédric e termina com o remate certeiro de Lewandowski. Estima-se que William Carvalho chegue à grande área nas próximas horas para ajudar a marcar o polaco.

Ainda não tínhamos empatado quando, numa breve paragem de jogo, o comentador da RTP informa que um dos jogadores polacos viu a sua mãe ser assassinada. Foi tão despropositado quanto mencioná-lo neste texto, não acham? Logo depois um plano mais fechado revela o rosto de um dos polacos, impávido e sereno, com ar de quem podia ver toda a sua família ser assassinada atrás da baliza durante os penalties. Temia-se o pior.

Com os polacos ainda em vantagem e milhares de pessoas chocadas por este texto já ter falado em tromboses e assassinatos e ainda não termos chegado ao menino da Musgueira, Fernando Santos procurava reanimar a equipa com múltiplos tiques nervosos e algumas indicações tácticas erradas. Tudo para chegar ao precioso golo que daria uma vitória à engenheiro. Se por acaso ganharmos esta merda, livrem-se de voltar a chamar nomes ao Charisteas. Daí em diante poderemos dizer que fomos os campeões europeus dos empates, não obstante Fernando Santos.

No mesmo dia em que fi-nal-men-te assistimos à libertação de Luaty Beirão e outros 16 ativistas angolanos, um novo regime autoritário ameaça ganhar fôlego. O seu líder é Fernando Santos e a primeira vítima é João Mário, que passou mais um jogo preso à ala, aparentemente castigado pelo crime de ter um cérebro e dois bons pés. O resultado foi vermos um dos melhores jogadores desta equipa com liberdade a menos e outro com liberdade a mais: Nani deveria ter entrado em campo apenas para assistir de calcanhar Renato Sanches. Fora isso, jogou como se tivesse descoberto que ia ser pago a recibos verdes no Valência: é melhor do que não ter emprego, mas não lhe peçam para celebrar.

Onde é que íamos? Ah, o tal toque de calcanhar. Foi um lance maravilhoso. Fernando Santos fez a vontade a muito povão e colocou Renato Sanches em campo, hoje promovido a titular de luxo. O resultado? Uma geringonça técnico-táctica governada por um miúdo de 18 anos. Quis a ironia que o empate surgisse num dos raríssimos lances da primeira parte em que a equipa portuguesa deixou de “jogar futebol” e decidiu “jogar à bola”. Renato Sanches recebe a redondinha de Nani e remata como se valesse 35 milhões. Ainda a bola não tinha batido no defesa polaco antes de entrar e já milhões de benquistas diziam que o deviam ter vendido por 70. Na bancada, adeptos dos Super Dragões e da Juventude Leonina abraçam-se. Portugal é lindo.

O intervalo chegaria pouco depois, ou muito, já perceberam que esta crónica não prima pelo rigor temporal, e com o tempo de descanso chega-nos de Marselha a visão tenebrosa de um João Moutinho a aquecer. Mas a primeira substituição da segunda parte surpreendeu tudo e todos. Cristiano Ronaldo é substituído por Éder, que não desiludiu, tendo registado 3 fabulosos pontapés na atmosfera em pouco mais de 45 minutos. Acho que nos vão cortar caracteres, mas que se lixe. A segunda parte prossegue com os polacos a testarem novamente a destreza dos nossos laterais. Cédric, agora com os sinais vitais estabilizados, mais certinho a defender. Já Eliseu, a suar desalmadamente desde os 23 segundos da partida, tentava pautar o seu jogo por uma sucessão de frenéticas incursões ofensivas - The Eliseu Crossing Show - à procura de um cruzamento certeiro ou de um daqueles pastéis de fora da área mais raros que a maioria dos cometas.

Esta crónica já vai a meio da segunda parte e não se passa assim tanta coisa no jogo. Depois de João Mário, Fernando Santos decide premiar Renato Sanches pelo golo e coloca-o também na ala, conseguindo o feito notável de banalizar dois dos melhores jogadores desta selecção. Enquanto tudo isto acontecia, na estratosfera, Pepe ponteava simbolicamente os haters com mais uma exibição do Kralj, ocupando mais espaço em campo do que os restantes jogadores agenciados por Jorge Mendes. No entretanto, William Carvalho fez um favor às suas pernas e foi amarelado a tempo de falhar as meias-finais.

Nisto, chega o fim do jogo. Fernando Santos celebra discretamente, ajeita o queixo, reza mais um terço. Vamos a isto, malta. Por esta altura, note-se, há quase 100 minutos que celebrávamos um novo recorde: o 45º livre de Cristiano Ronaldo contra a barreira. Já agora, Cristiano é neste momento o único jogador que apresentou expressões faciais excessivamente teatrais em 4 europeus.

O maior destaque do prolongamento esteve no facto de Abel Xavier não ter tocado com a mão na bola, o que nos permitiu chegar aos penalties. Mas, se quisermos ir aos factos, lembremos o 4º falhanço de Éder logo a abrir a 1ª parte, para desespero de todos os portugueses que queriam ver Cristiano Ronaldo de volta ao campo. Pouco mais se passou. Os polacos acreditavam que a frieza da sua expressão facial seria suficiente para ganhar nos penalties. Os portugueses já sonhavam com Rui Patrício a tirar as luvas.

Afinal a frieza foi nossa e, mais uma vez, esta crónica não cumpre o desígnio a que se propôs: falar mal desta selecção após uma derrota. Não falhámos um único pontapé e Rui Patrício fez a sua parte, ascendendo a herói da noite. Está agora mais próximo de conquistar o seu primeiro título esta temporada. VAMOS PORTUGAL!

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