Euro 2016

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Palavras que ninguém vai ler

Um texto é um texto se ninguém o ler? Uma equipa pode vencer sem ganhar?

Ricardo Marques

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Muitos autores dizem que os seus melhores trabalhos ganham vida própria e crescem e enriquecem à medida que vão sendo escritos. Um personagem que observa ao longe os dois protagonistas no primeiro capítulo transforma-se, quase por magia, num elemento-chave à beira do fim. Um banco de jardim como qualquer banco de jardim, e que surge de passagem numa cena insignificante, acaba por tornar-se o palco principal da trama. Claro que esses autores raramente arrancam para um texto que vai ser lido menos de quatro horas antes do início de um jogo de Portugal dos quartos de final do Europeu. Porque se o fizessem, sinceramente, acho que estariam tão desesperados como eu. Como quem contempla o deserto que tem pela frente.

Sejamos sinceros: quem é que vai perder tempo a ler isto? Se chegou até aqui, obrigado. Mesmo. Agradeço profundamente ter arranjado uns minutos e, se desistir agora, ninguém levará a mal. Aposto que já duas ou três pessoas lhe perguntaram o que acha do João Moutinho estar no onze inicial. É compreensível. Até ser conhecida a constituição da equipa, mais perto das oito da noite, não será a única questão: o Raphael Guerreiro está capaz ou entra o Eliseu? Vamos ter Pepe e José Fonte ou Ricardo Carvalho e Pepe? O André Gomes aguenta mais um jogo? O Quaresma e o Renato jogam de início ou Fernando Santos vai continuar a guardá-los na cartola, como coelhinhos de boa sorte? Neste caso, não basta ter opinião, é preciso mesmo discuti-la porque o assunto é sério.

Estamos no terceiro parágrafo e, apesar de tudo o que fomos lendo nos últimos dias, é neste momento que começamos a pensar seriamente na Polónia. Portanto, e correndo o risco de me repetir, ninguém levará a mal (muito menos eu) se interromper a leitura para perguntar ao colega do lado se os tipos são mesmo bons. Não sofreram nenhum golo na fase da grupos, ganharam dois jogos (República da Irlanda e Ucrânia) e empataram o terceiro. Nós empatámos três, sendo o que empate deles foi com a Alemanha, aqueles que no fim ganham sempre. Nos oitavos despacharam os suíços nos penáltis e, parece, partem para este jogo confiantes na vitória. Aquele seu amigo tem alguma razão, embora pareça um jogador a falar, quando diz que nesta fase não há jogos fáceis. Ainda assim, isto frente à Polónia arrisca ser bastante difícil.

Aí vão quatro e vou ficar francamente preocupado se ainda aqui estiver. Pensei que, como o nosso selecionador, não ia na 'cantiga do bandido'. Imagino que por esta hora a página do Expresso dedicada ao Euro 2016 esteja repleta de artigos sobre o jogo, os adeptos, a chegada da equipa ao estádio, as primeiras impressões do aquecimento, mais alguns prognósticos... Não leia isto como um convite a sair, por favor, mas o que é que ainda está aqui a fazer? Por mim, tudo bem. Aproveito para lhe falar de uma coisa que me passou ontem pela cabeça. E se todo este campeonato não passasse de um algoritmo criado por Fernando Santos para nos levar à redenção absoluta? Lembra-se que começámos o Euro contra a Islândia, por estes dias a equipa sensação em França? Tenha em conta que os islandeses estão do outro lado do sorteio e que, por isso, nada os impede de chegarem à final contra Portugal. No início e no fim. Parece 2004, não é? Mas com a Islândia no lugar da Grécia, Grécia essa que foi treinada por... Exato. Fernando Santos.

Quinto parágrafo, o primeiro após o delírio. Pelas minhas contas, devem ser quase seis da tarde – é provável (ainda que lamentável) que já esteja a ler isto no telefone ou no iPad. Muita gente vai sair mais cedo do trabalho hoje, e nem é para estar em casa à hora do jogo. É que há sempre uma espécie de aquecimento doméstico para garantir que tudo corre bem e para reduzir ao mínimo a necessidade de sair de frente da televisão. Ou seja, e mais uma vez, obrigado por chegar tão longe num artigo que, bem sei, não é suposto ser lido. Vá descansado, prepare o petisco e as bebidas. Ao contrário dos jogos da fase de grupo, em que há sempre mais um a seguir, este pode muito bem ser o último. É verdade que somos a equipa com mais presenças nos quartos de final, o que, de certo modo, retira alguma (muito pouca, convenhamos) magia ao jogo. Por outro lado, se correr bem, vamos esquecer depressa onde estávamos nestes quartos de final contra a Polónia.

Se correr bem (sexto), temos de partir para a meia-final absolutamente preparados. Valerá a pena ver o jogo com amigos e escolher com cuidado o local. É garantido que, bem ou mal, ficará para sempre na memória onde estávamos nesse dia. A alegria de chegar à final ou aquele copo vazio e sem qualquer sentido que mal conseguimos ver por causa das lágrimas – já é aceitável chorar a derrota nas meias-finais – acompanhar-nos-á até sermos velhinhos, daqueles que dizem que "no meu tempo é que o futebol era bom". Haverá quem chore se perdermos esta noite, claro, e provavelmente mergulharemos numa minidepressão, atenuada apenas por estar sol e o fim de semana à vista. Mas esta é aquela eliminatória que não é bem carne nem peixe: já cá estivemos, já sabemos como é e, de qualquer modo, ainda faltavam dois jogos para o fim. Se ganharmos, tudo será diferente.

Sete, tantos quantos os jogos que temos de passar para ganhar o Europeu. Para que Fernando Santos cumpra a promessa de só voltar a casa no dia 11 de julho – com o caneco, e não porque ficou a carpir mágoas junto ao Sena. Agora estou certo de estar a pregar no deserto, a escrever apenas para chegar ao fim. Porque já ninguém está a ler – já deve ter saído o onze inicial e já foram desfeitas as dúvidas do início. Mas é fundamental acabar com dignidade, jamais atirar a toalha e acreditar sempre que é possível, por mais difícil que pareça. Nunca se sabe se, por entre todos os que estão a caminho e os que já chegaram a casa e ligaram a televisão, haverá um português que ficou para trás e, no silêncio do escritório, continua a ler e até sorri neste preciso momento em que falo dele. Eu estou a sorrir e, por isso já somos dois. Alguém leu até à última palavra – e já nem preciso de pensar em qual será ela, porque nasceu uma flor no deserto e isto ganhou vida. O impossível aconteceu e, portanto, ambos sabemos que, só com empates ou sem eles, Portugal vai mesmo ganhar.

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