Euro 2016

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Pepe, já que a UEFA não te fez justiça, fazemos nós

O central foi o melhor em campo do Polónia-Portugal, mas a UEFA escolheu Renato Sanches - e esta é só mais uma decisão estranha de uma organização que se anda a meter por caminhos insondáveis neste Europeu

Pedro Candeias

Lars Baron

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A UEFA move-se por caminhos misteriosos e insondáveis e podia começar por descrever o labirinto em que esta se mexe: ele é os relvados esburacados, as escaramuças nas bancadas, as pancadas no meio das ruas, os arruaças que entram dentro de campo. Há dedo da UEFA que permite isto tudo e permite por outro lado um campeonato alargado a quase todos os países que sabem o que é uma bola de futebol na Europa, transformando este Euro num dos piores espetáculos desportivos que já vi.

Não bastava a qualidade discutível de alguns jogadores e de algumas seleções que por ali andam ou andaram, temos igualmente de assistir em direto à erosão que os 565.697.704 minutos jogados durante uma época causam a futebolistas como o Ronaldo. E o dedinho da UEFA também se faz sentir aqui, porque é ela quem manda na Champions e nos Euros e supervisiona os campeonatos locais - talvez nunca lhes tenha passado pela cabeça somar jogos e subtraí-los ao desgaste das pernas.

Claro que agora é fácil estar a falar assim, de barriga cheia, depois dos penáltis que Portugal acabou de bater e da defesa do Rui Patrício que nos pôs nas meias-finais do Euro. Claro que é ingrato estar a maldizer a UEFA que dispôs o quadro de uma forma tão simpática e conveniente para nos abrir a estrada até à final do campeonato. Mas mesmo nestas alturas em que eu devia dizer bem e não mal, a UEFA põe o pé na argola e elege o Renato Sanches como o melhor jogador em campo.

Não me levem a mal - gosto do Renato Sanches como qualquer outro adepto de futebol gosta do Renato. E estou de acordo com quem escreve e diz que é o único tipo naquele meio-campo capaz de sacudir um jogo com um arranque, um encosto num adversário, um ombro-a-ombro do miúdo do bairro que está ali para marcar a posição. E, sim, fez um golo que relançou Portugal no jogo porque, ao contrário dos outros, o Renato não está obcecado em encontrar o Ronaldo. Tem personalidade, é destemido, valente, intenso, brigão, selvagem e muitos outros adjetivos nos quais inlcuo imaturo - mas não foi o melhor em campo.

O melhor foi o Pepe, tal como já fora contra os croatas, quando secou o jogo do Mandzukic. Este português que é luso-brasileiro está num momento de forma incrível e é capaz de multiplicar-se como nos bons velhos tempos em que aparecia à esquerda e à direita e atropelava o próprio colega de carteira no centro da defesa só para cortar uma bola. Às tantas, o Pepe terá descoberto um elixir da juventude e um tónico para ganhar juízo, porque está solto, leve, felino, sem medo de arriscar nos pulos que dá e nos carrinhos que faz. Se Lewandowski só fez um golo e Milik não fez nenhum foi porque num momento ou noutro o Pepe lhes apareceu pela frente a cortar-lhes as vazas.

Se esta é uma equipa que esconde o seu jogo e faz da sua defesa a sua melhor cartada, Pepe é o nosso ás de trunfo