Euro 2016

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“Se fizer comentários, tenho que dormir no sofá!”

Portugal e Polónia encontram-se hoje em Marselha para decidir quem avança para as meias-finais do Euro 2016 num jogo que promete nervos e emoção. Que o digam os que apoiam à distância. Bola para os adeptos

Tiago Oliveira

MATTHIEU ALEXANDRE

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Hoje à noite, a partir das 20h, dois países vão estar parados em comunidade em roda de um ecrã. O futebol move paixões e hoje Portugal e Polónia sentem isso na pele, enquanto se preparam para o jogo que vai ditar a permanência de uma das seleçõe em prova. É o primeiro encontro dos quartos de final e a vontade de vencer não deixa ninguém indiferente.

“Muitos amigos polacos me fazem uma pergunta estranha: por quem vou torcer?” A viver de forma mais definitiva em Portugal desde 2011, Dominika Kur-Santos não esconde a surpresa pela questão porque apesar da paixão pelo futebol do seu marido Pedro, não tem dúvidas “da sua lealdade.” A tradutora nem gosta muito de ver futebol mas neste caso “os planos foram alterados por causa do desafio.” Este vai ser visto em casa, onde “a vitória da Polónia” pode ser festejada mais à vontade do que “nas ruas portugueses”. Muitos companheiros já prevêm “discussões matrimoniais”, mas Dominika sabe que, seja qual for o resultado, “vão festejar juntos.”

Também confiante, mas com promessa feita de não “comentar em forma de piada a vitória da Polónia perante os amigos e familiares portugueses”, está Marzena Lemiesz Almeida. A viver em Portugal desde que cá fez um estágio Erasmus em 2005, acredita piamente no triunfo, e confessa que “esteve a torcer frente à Croácia” porque queria muito que este jogo acontecesse. Já lhe disseram que se a selecção das quinas ganhar o marido “não come durante uma semana.” Se for ao contrário, “não entro em casa”, conta a rir. Na verdade, o coração está dividido, como provam “as duas bandeiras na varanda.” Ainda assim, vai ver o jogo com amigos polacos “para não estar em minoria.” De preferência, acompanhada “de uma fresquinha.”

Narciso Antunes foi para a Polónia em 2014 por causa da falta de emprego e da namorada (“a razão mais comum pela qual os portugueses vêm para cá”, diz) e vai viver este jogo com “muita ansiedade e um grande peso emocional.” A comunidade portuguesa está a viver o jogo com grande expectativa “e não se vê a hora disto começar.”

Desde sábado que o jogo “é tema principal de conversa” no país, e que há muitas brincadeiras por parte dos polacos, “por vezes a roçar o passivo agressivo” mas a “rivalidade dentro do escritório é saudável.” Nota-se uma “vontade em humilhar o Cristiano Ronaldo” e grande confiança na vitória “de uma equipa com muitos e bons valores.” O jogo vai ser “equilibrado e não haver favas contadas para nenhum lado.” A tradição vai-se respeitar com “Super Bock” e festa portuguesa em casa, porque existe algum “receio de comportamentos menos pacíficos por parte dos nativos. No que toca a futebol, é costume haverem incidentes entre claques e cidadãos”, garante. Mas nada que mate a esperança no duo “CR7 + Quaresma para espetar umas batatas lá dentro.”

O receio dos portugueses em festejar abertamente nas ruas é realçado por Rui Moutinho. Há 21 anos no país, onde é dono das empresas Iberia Products A.P. e World Sementi D.P., não tem dúvidas que “a comunidade Portuguesa está com medo que Portugal ganhe e sofra consequências físicas dessa vitória, ou que, perca e sofra na mesma estas.” Já este ano um grupo português de alunos Erasmus foi alvo de agressões e o medo é que não seja um caso único. Ainda assim o jogo será visionamento essencial, e o empresário aponta para o 2-0, “com dois golos do Cristiano para bater o recorde do Platini.” Caso contrário, também compra o “meio a zero.”

Unhas e dentes

Na Polónia a euforia em torno da seleção e da vitória é grande. Raul Machado não abandona a certeza que “Portugal lhes ensinará como se joga à bola.” A relação com os estrangeiros tem “piorado, muito por culpa do novo governo” mas o português não deixa de brincar com os colegas polacos, “que acham que o Lewandowski vai ofuscar o Ronaldo.” A partida será vista no restaurante Portucale, em Varsóvia, com amigos das duas nacionalidades em espírito de convívio. Com alegria pela certa, até porque o resultado se vai cifrar em “2-1 para nós, após prolongamento.”

Há dez anos emigrado, Joaquim Coutinho viajou para a Polónia com a mulher. Teve que abandonar hábitos tão portugueses “como o cafézinho de manhã, a boa comida e o sol” mas hoje sente-se “bem adaptado.” Dos polacos, diz que são “os melhores adeptos que já viu” e que “defendem a sua equipa com unhas e dentes”.

O que custou mais foi explicar ao filho de oito anos, que ficou “quase a chorar” quando soube que as duas seleções se iam encontrar (“sente-se tanto português como polaco”), como vai sair sempre a ganhar, pois pode apoiar “qualquer uma das duas.” A esposa quem regra geral, até costuma apoiar os portugueses, ja lhe disse que vai ver o jogo sem ele e “em caso de ganharmos não permite fazer comentários.” Caso se esqueça: “durmo na sofá. Cá não há brincadeiras, leva-se tudo muito a sério.” Resta esperar que Joaquim fique confortável.