Euro 2016

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Desliga o telemóvel!

Jorge Araújo

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Nos seus olhos cabia toda a tristeza do mundo. No meio do rebuliço que enchia o café do Abel, Vitorino era uma alma penada. Uma alma trancada num casulo. Desde a hora de almoço que estava assim, uma pulga atrás da orelha. A conversa com a mulher deixara-o em estado de alerta. De um momento para o outro, o sorriso perdido. Logo hoje que estava tão bem disposto, cumprira o trabalho de casa com aprumo, tarefa complicada sobretudo porque os polacos têm nomes esquisitos. É difícil aprender tudo sobre um adversário destes, mas um homem tem de estar preparado. Afinal, não é todos os dias que temos a hipótese de chegar às meias-finais de um Europeu.

Depois de uma manhã inteira a ler os desportivos, a identificar os polacos mais perigosos, foi recebido em casa com um grito. Marcolina num manto de aflição. Querido, vem cá depressa, preciso muito de falar contigo, disse ela, já vou amor, respondeu ele, certo de que se tratava apenas de mais um ataque de dores. Mas não. O assunto era bem mais delicado, a mulher suava para escolher as melhores palavras, precisava de vender muito bem a história que se preparava para contar.

Mal Vitorino entrou no quarto, disparou a conversa. Mas não conseguiu um discurso em linha recta, falas de curvas e contracurvas, muitos entretantos, nada de finalmentes. Por fim, e muito a custo, lá lhe contou o misterioso desaparecimento da gargantilha de prata, aquela com uma esmeralda, aquela que me ofereceste no dia do nosso noivado, recordas-te, claro que se recordava, há coisas que a vida não apaga. Não sei o que aconteceu querido, não dei por nada. Meu Deus, não percebo, que desgraça…

Mas Marcolina tem um problema, os seus olhos nunca mentem. Nem era preciso juntar dois mais dois para saber o que tinha acontecido. A gargantilha não tem pernas. Se não estava na primeira gaveta da cómoda do quarto, era porque alguém a tinha levado. A mulher estava a esconder alguma coisa, a proteger alguém. E só havia uma pessoa no mundo por quem era capaz de tamanho sacrifício. De qualquer sacrifício. Aquela gargantilha era o seu bem mais precioso. O único.

Vitorino tentou afastar o caso do pensamento, às vezes, a ignorância é auto-estrada para a felicidade. Mas não conseguia, pensar que o filho tinha conseguido fazer isso à própria mãe, deixava-o tão triste que nenhuma palavra consegue descrever a sua dor. Anda um homem a criar um filho para isto, desabafou consigo mesmo, quando a desilusão lhe estrangulou o coração.

Ainda bem que o jogo começou. Tentou sacudir a história da gargantilha com a vontade de arrumar os polacos. E, por uma vez neste Europeu, entrámos a ganhar, disseram os treinadores de bancada, por uma vez, o mister não inventou, Adrien e Cedric no onze, o puto também, Renato Sanches já merecia, é a próxima estrela da selecção. Quaresma ficou no banco, ainda bem, quando entrar na segunda parte até come a relva.

Mas a nossa vantagem durou pouco. Felisberto, o canalizador, foi o mensageiro da desgraça, os gajos marcaram, disse, mas ninguém acreditou, na televisão passava uma jogada aparentemente inofensiva e ele não anda bem deste que nas festas da cidade conheceu uma miúda de outro bairro. Infelizmente, passado uns segundos, tiveram de lhe dar razão.

Cedric foi à bola, falhou, a Polónia não desperdiçou.

Quinze minutos depois do apito inicial, Fernando Santos já se benzia no banco. Homem de fé, sabe bem que precisamos de todos os santos para chegar às meias-finais. Ainda por cima, Ronaldo tentou a sua sorte de livre directo, não acertou, Portugal a ver jogar, CR7 derrubado na área e o árbitro a não marcar a grande penalidade. O começo não está nada bem.

De repente, Felisberto de novo aos gritos, aos pulos, marcámos, festeja ele, marcámos, repetia. Mas, mais uma vez, ninguém acreditou no canalizador, as imagens da televisão não confirmavam tamanha euforia, arrastava-se uma jogada sem perigo. Como é que ele podia antecipar o jogo? Deves ter a mania que és o professor Bambara, gracejou o Almeida do talho. Mas, passado um bocado, tiveram de lhe dar novamente razão. O puto apareceu no ecrã a chutar, podem falar de sorte mas a sorte só protege os audazes. Marcou. Incrédulos, ao mesmo tempo que festejavam o golo, perguntavam ao Felisberto, mas como é que tu soubeste antes do puto marcar? Fácil, tinha recebido uma notificação no telemóvel, por causa do delay na televisão do café, as boas e as más notícias chegavam sempre atrasadas, cerca de trinta longos segundos.

- Assim não tem piada nenhuma – protestou o Aníbal.
- Desliga o telemóvel – acrescentou.

E chegou a segunda parte. Ronaldo falha, Ronaldo falha, Rui Patrício salva. Pepe sempre imperial. Ao minuto setenta e nove entra o cigano e Portugal leva uma injecção de euforia. Mas aos oitenta e cinco minutos Ronaldo volta a falhar. Se fosse no Real Madrid marcava pela certa, protesta Vitorino, aos poucos a esquecer a história da gargantilha.

Veio depois o prolongamento, antecâmara das grandes penalidades. Duarte levou as mãos à cabeça. Os fisioterapeutas não tiveram mãos a medir, era preciso recuperar, bebeu-se muita água, era preciso recuperar. Quando a bola voltou a rolar, Ronaldo voltou a falhar, nem a invasão do campo foi motivo de alegrias. Tinha chegado a lotaria das grandes penalidades, Portugal precisava de se superar.

Ronaldo marcou, o polaco também. Renato Sanches marcou, o polaco também. João Moutinho marcou, o polaco também. Nani marcou, o polaco falhou. Mas ainda nem sequer Quaresma tinha partido para a bola e já se ouviam gritos vindos do Terreiro do Paço, Portugal a festejar. Delay. Estamos nas meias, disse eufórico Aníbal que, sem resistir à pressão, tinha ligado de novo o telemóvel.

Quando o cigano avançou para a bola, o café do Abel já estava nas meias-finais. Vitorino não cabia em si de contente, tinha esquecido a história da gargantilha, as maldades do filho. A vitória é um poderoso analgésico.