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A morte não é conversa de café

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Há já algum tempo que o velho carteiro não aparecia no café do Abel. Ninguém estranhou. Desde que se reformou, passa longas temporadas na terra. Cada vez mais longas. Ficou viúvo, na aldeia ou em Lisboa, não tem satisfações a dar a ninguém, faz da vida o que bem entende. Ou melhor, o que consegue.

Mas hoje apareceu no café logo de manhã. Parecia outro, mil anos envelhecido - vestido de véspera, olheiras cavadas no rosto combalido. Dirigiu-se ao balcão com poucas palavras, há anos que frequenta o estabelecimento e, por ali, antiguidade é posto.

- O costume – limitou-se a dizer.

- Não viste as notícias? – perguntou Abel a meter conversa.

- Quais notícias?

- Eh pá, dizem que beber café em chávena escaldada provoca cancro do esófago e parece que é dos que mais está a aumentar. Li no Correio da Manhã, no outro dia.

- A sério? Não me digas...

- Dizem que é mesmo perigoso.

- Imagino…

-Então, ainda queres a chávena escaldada?

- Sim, quero.

- Oh homem, não tens medo?

- Eu não.

- Como assim?!

- Esse já vem atrasado.

- Desculpa lá, não estou a perceber nada da conversa.

- Estou só a dizer que esse cancro vai chegar atrasado.

- O que é que queres dizer com isso?

- Que o dos pulmões antecipou-se.

- Não me digas uma coisa dessas!...

- Pois é, meu amigo. É por isso que não tenho vindo ao café, tenho estado internado no IPO.

- Oh diabo, não fazia a mínima ideia.

- Agora mandaram-me embora...

- Então, já estás melhor! Vais ver que te pões fino num instante.

- … para vir morrer em casa.

- Mas é assim tão grave? Não há mesmo nada a fazer?

- É uma questão de dias

A morte não é conversa de café. É sentença demasiado séria. Fim da linha, ponto final, parágrafo. Abel ficou sem palavras. E, curiosamente, o velho carteiro nunca mais se calou. Sabes, amigo, começou por dizer, custa um bocado no início, ninguém está preparado para uma notícia destas. Ainda por cima, os tratamentos são duros, aquela quimioterapia é violenta, dá cabo de qualquer um. Mas depois um homem habitua-se à ideia, não há nada a fazer, também já não vou para novo.

Nunca mais se calava, as palavras atropelavam-se no céu da boca, tanta a vontade de se soltarem. Deixa-me dizer-te só mais uma coisa, amigo, tu que já me conheces há tantos anos, e digo-te isto com a maior sinceridade, não vou desistir, vou lutar com todas as forças que me restam. E sabes porquê? Não quero morrer antes de ver Portugal ganhar o Euro. A morte não me vai apanhar sem essa alegria.

Podes escrever o que te digo, na quarta-feira, cá estarei para despachar os gajos do País de Gales e, seja lá quem for que nos calhe na rifa, tenho a certeza de que no domingo vamos festejar. O Cristiano Ronaldo e o puto, o Sanches, vão dar-me essa alegria. Tenho a certeza. Vou morrer descansado, amigo.