Euro 2016

Perfil

Fernando Santos pergunta: “Portugal não ganhou? Então e o Real Madrid não ganhou a Liga dos Campeões?”

Depois da qualificação para as meias-finais do Europeu, Fernando Santos reuniu-se com os jornalistas portugueses em Marcoussis e deixou bem vincado que Portugal ganhou e ganhou bem - e o resto são “questões semânticas e académicas”

GONZALO FUENTES/REUTERS

Partilhar

Quando o selecionador embala ninguém o para, mas isso é bom, porque vale a pena saber o que pensa. Eis o A a Z (bom, quase...) da seleção portuguesa no Europeu, em discurso direto de Fernando Santos:

Ausências

Sabemos que eles não vão ter Ben Davis e Ramsey, que são jogadores muito importantes, mas o elogio que faço é colectivo. Também não vamos ter William. O País de Gales tem muito a ver com a sua força colectiva, com o seu espírito. A chave deste jogo, para além do talento que pode fazer a diferença, é no mínimo sermos iguais na atitude, no trabalho e na entrega. Porque esta é uma equipa reativa, eles não dão tempo ao adversário para o que quer que seja, nem para receber a bola. Chegam em cima em qualquer momento e com agressividade. Vamos ter de ser rápidos a pensar.

Bale vs Ronaldo

Claro que isso vai ser o tema da semana para os jornais espanhóis. Mesmo sem jogarem um contra o outro já falavam disso. Não acredito que seja prejudicial.

Centralão

Destaquei a exibição de Pepe porque achei justo. Desde o princípio que Pepe é um líder na equipa, mas o que digo aos jogadores é que todos têm de ser líderes em campo, em determinados momentos do jogo. Pepe tem-no sido de forma fantástica.

Discurso

Os discursos ganham jogos, desde que sejam bem entendidos. Aliás, não é entendidos só, é... aceites. Nem sei como explicar. Nem é aceitar, é sentir. Às vezes ouves e dizes que sim, mas não bate cá dentro. Querer e crer são coisas diferentes. Quando crês podes mover montanhas.

Estratégia com a Polónia

Aos 20 minutos mudámos o jogo. Portugal deixou de jogar com o Renato por dentro, com três médios, e passámos a jogar com dois médios só – ou a quatro, vá, com Renato pela direita, e é por ali que ele marca o golo. O que fizemos foi pôr o William e o Adrien mais perto um do outro, com o João e o Renato também mais por dentro, porque achámos que estava a ser um dos problemas da equipa, porque iniciámos o jogo – apesar de não ter sido o que tínhamos perspectivado – um bocado em marcações individuais, que normalmente não fazemos. Isso levou-nos a ficar perdidos e acho que o Renato se ressente um pouco aí. Sabíamos que o '10' baixava sempre, sabíamos o que o '5', o '7' e o '9' faziam. Portanto tínhamos preparado uma estratégia para eles não fazerem o que habitualmente faziam. Só que entrámos em demasiada ação individual e a mim competia-me resolver essa questão. Parecia que os jogadores estavam presos, talvez pelo golo ter sido logo no início. Nem estávamos mal em termos de organização, só que quando ganhávamos a bola não tínhamos soluções para andar para a frente, por isso decidimos voltar a pôr o Nani mais frente. E acho que acabou por resultar.

Folgas para estar com a família

É muito importante para os jogadores estarem libertos, para deixarem de sentir a pressão normal do dia a dia aqui. Porque quando a cabeça não pensa o resto não responde. É perfeitamente normal haver momentos livres e essa necessidade já estava pré-definida, porque são momentos muito importantes.

Gales

Eles têm três centrais mas defendem em 4-4-2, porque um dos laterais sai sempre na pressão e o outro lateral entra dentro. Montam uma linha de quatro e não cinco, porque um lateral sai muito. Mas de facto têm três centrais, isso é verdade. Vamos trabalhar a nossa organização ofensiva para estarmos preparados perante um adversário que joga de forma diferente. Temos de fazer algumas situações de treino, treinar alguns movimentos para tirar partido e encontrar uma solução. Não é a mesma coisa defrontar um adversário com três defesas do que defrontar alguém que joga em 4-4-2. É isso que vamos treinar hoje, amanhã e depois. É fundamental que Portugal tenha mais bola do que Gales.

Gareth Bale, colega de Cristiano Ronaldo e Pepe no Real Madrid, é um dos líderes do País de Gales

Gareth Bale, colega de Cristiano Ronaldo e Pepe no Real Madrid, é um dos líderes do País de Gales

FILIP SINGER/ EPA

Hazard, Mertens, De Bruyne e não sei quê

Se a Bélgica tem passado, se calhar hoje estavam aqui a dizer que a Bélgica era favorita, porque tem uma grande equipa: Hazard, Mertens, De Bruyne e não sei quê não sei que mais. De repente levou 3-1 e agora passou Portugal a ser obrigado a ganhar a Gales? Os jornais belgas no dia do jogo perguntavam por quantos é que iam ganhar e isso é sempre uma apreciação muito complicada de se fazer quando se tem pela frente uma equipa com as características do País de Gales.

Italianização da seleção portuguesa

Acho que não é isso. Porque não era possível. Estamos é a viver um tempo positivo, que espero que dure muitos anos, que consiste em aliar aquilo que será sempre o ADN português – a qualidade técnica dos jogadores portugueses - com ser capaz de ser uma equipa pragmática, que sabe o que quer, que é ganhar. E como quer ganhar, umas vezes vai esquecer esse talento e essa qualidade, porque será suficientemente pragmática para saber o que tem de fazer para ganhar.

Jornais franceses criticam a forma de jogar

Não ligo a esse tipo de questões nem aceito que os meus jogadores liguem. Isso não conta para rigorosamente nada. Traçámos um objetivo para este Campeonato da Europa e é nisso que devemos estar focados e não naquilo que os outros pensam ou não pensam de nós. Portugal está aqui por mérito próprio. Essa questão de que Portugal ainda não ganhou, quer dizer, como é que não ganhou se quem está em casa é a Polónia? Como é que não ganhou se quem está em casa é a Croácia? Não consigo entender, há qualquer coisa que me deixa confuso. Parece que os outros é que ganharam e estão cá e Portugal está em casa. Como se isto fosse um campeonato nacional, em que são precisos muitos pontos para ser campeão. Isto é uma prova completamente distinta, nem comparação tem, por exemplo, com a Liga dos Campeões ou Liga Europa, porque aí há duas mãos. Aqui é só um jogo, ou vais ou ficas. Penso que ganhámos com mérito. Não sei quem é que descobriu que agora os jogos têm 90 minutos. O Real Madrid ganhou ou não a Liga dos Campeões? Ai ganhou? Então e Portugal não ganhou? Claro que ganhou, se não não podia estar aqui.

Lesões

O único que hoje não treinará em pleno é o Raphaël, mas já deverá treinar amanhã, de acordo com as informações clínicas que tenho.

Melhores

Portugal acredita sempre que pode ganhar a qualquer adversário. Não acredito que haja ninguém que possa ganhar a Portugal facilmente. Esta é a minha firme convicção: é que não há ninguém melhor do que Portugal. Mas não acho que Portugal é o melhor de todos. Não tenho essa presunção. Sei é que nos podemos bater com qualquer um e ganhar a qualquer um.

Negação de favoritismo

Seria uma asneira grave pensar que são favas contadas. Como é que não se valoriza um adversário que até agora é o que mais jogos ganhou e mais golos tem marcados? Podem escrever o que quiserem no Facebook e nessas coisas todas, que os meus jogadores estão imunes a isso.

A seleção continua a preparar-se em Marcoussis

A seleção continua a preparar-se em Marcoussis

Mário Cruz / Lusa

Observação

Mandei dois homens ao País de Gales-Bélgica para estarmos atentos às duas equipas. Se não ia só um. E um dos colaboradores, que ficou cá, estava à tarde muito focado em imagens da Bélgica e eu disse-lhe: “Para com isso, porque isso se calhar não vai servir para nada”. Para mim não foi surpresa. Sinceramente pensava que o País de Gales seria o nosso adversário. Porque a Bélgica é uma equipa constituída por excelentes jogadores, de renome, que jogam em grandes equipas, mas a equipa tinha algumas debilidades defensivas e Gales é uma equipa muito compacta, que não tem amanhã, faz tudo no presente, que luta muito, corre muito, trabalha muito e é muito forte no contra ataque. Quase todos jogam no mesmo campeonato, portanto claramente um estilo baseado no futebol inglês, por alguma razão é a equipa que tem mais vitórias e mais golos marcados até agora. É uma equipa fortíssima no espírito de equipa, ainda hoje tive oportunidade de ver dois jogos deles e o espírito é sempre o mesmo.

Penáltis (e o vídeo em que Ronaldo pede a Moutinho para marcar um)

Estava lá por isso não precisei de ver o vídeo, era comigo que eles estavam a falar. A questão é simples: nós temos sempre sete ou oito jogadores determinados para os penáltis. E depois depende se estão em campo ou não, como aconteceu com o Adrien. Indiquei cinco jogadores para marcar os penáltis e o João Moutinho, que tinha voltado a sentir um pressãozita na perna, disse – nem foi a mim, foi ao João Carlos: “Epá, ó mister, estou aqui com uma dor na perna de apoio, não estou muito confortável”. O João Carlos veio dizer-me, estava eu a falar com o Ronaldo, e o Ronaldo numa atitude fantástica disse: “João, anda, porque tu marcas muito bem, tem confiança porque tu vais marcar o penálti”. Acho isto uma atitude fantástica de um capitão de equipa.

Quaresma

Quaresma é um titular da equipa. Se começa de início ou sai do banco logo se vê. A minha confiança não passa por isso. Se não ele nem confiava em mim. O que ele sabe é que confio em absoluto nele e sabe que se falhar a responsabilidade é minha – é com ele e com todos. Vou à frente deles até ao fim. Sou o último a abandonar o barco e eles sabem isso.

Ronaldo

Só há um jogador que é claramente mais titular do que os outros, não vou esconder isso. Cristiano Ronaldo é mais titular do que os outros. E quem disser o contrário é mentiroso e eu não tenho feitio para isso. Este é o Cristiano da seleção nacional e não o do Real Madrid, não vale a pena comparar. O nosso Cristiano tem sido fantástico, jogador de equipa e com uma disponibilidade fantástica, com um peso cada vez mais forte porque é o grande capitão desta equipa. Também no seu espírito e determinação, o que depois contagia os outros. Depois diz-se que ele não é ‘9’ mas eu já disse isso trinta vezes. O Cristiano nunca pode ser ‘9’ na vida dele, mas nunca mais vai ser extremo também. ‘9’ era o Jardel e o Águas, que jogavam de costas para a baliza e dentro da área. Portugal nem sei se tem. Há-de crescer algum, parece que temos uns na calha. Para mim o Cristiano é ‘9’, é ‘10’ e é ‘11’.

Sanches

Se vai ser titular vou decidir depois. Mostrou algumas das coisas boas que tem, fantásticas – é um puro sangue. No outro dia falei de Mário Coluna e provavelmente a maioria de vocês não deve ter visto Mário Coluna jogar assim, mas lembro-me muito bem porque, antes de Eusébio, também Coluna era um puro sangue, depois é que recuou mais no campo. Se calhar é o que acontecerá com Renato no futuro. Faz parte do crescimento dele, a mim não me está a surpreender em nada. Sempre soube que o Renato ia ser um jogador importante para a equipa. Não se pode pedir ao Renato que ele em termos estratégico-táticos já esteja na sua plenitude. Não está e ainda vai demorar algum tempo a estar. Até porque acho que o Renato pode jogar em qualquer lado pelo meio-campo, pode jogar pela direita, pela esquerda e pelo meio. Mas tem de se adaptar à equipa e as suas estratégias.

Trocas

Nunca fui para um jogo com um plano de substituições, nunca na minha vida. Fiquei muito traumatizado quando era jogador e um treinador meu numa palestra disse que ao intervalo ia sair o A e o B para entrar o C e o D. O treinador não pode ir condicionado para um jogo, tem de ir analisando para ver o que é preciso. Às vezes as substituições repetem-se mas por mera circunstância do próprio jogo.

União

Não estava cá antes para saber como era. O que sei é que neste momento existe muito espírito de equipa. Se há alguma força de Portugal que tem de ser realçada é a coesão e o espírito de equipa, porque há uma comunhão de ideias, no staff, nos jogadores, no presidente e em mim.

Vitórias

Espero é que Portugal ganhe os próximos dois jogos. Isto são tudo questões semânticas e académicas. Puramente. Há algum treinador ou jogador que não queira ganhar a jogar muito bem? Não cabe na cabeça de ninguém que esse não seja o propósito. O propósito era estar nas meias-finais e ter jogado bem, como vocês entendem que é bem, porque eu acho que jogámos muito bem, mas o vosso conceito de bonito é uma coisa diferente. Se me puseres assim esta pergunta de uma forma muito clara: qual é o teu objetivo? O meu objetivo é ganhar o Campeonato da Europa. E se o fizer de modo feio, não me chateia rigorosamente nada. Não me interessa nada as crónicas que vêm a seguir, isso a mim passa-me completamente ao lado. A questão não é entre ganhar bonito e menos bonito. A questão é outra: prefiro mil vezes ganhar e que digam que foi feio, do que uma vez só dizerem que estive muito bem e fui para Portugal. Ai não tenho dúvidas nenhumas em relação a isso. Tenho muita pena mas é assim.

Xadrez

O que altera a estratégia da nossa equipa é a forma como joga Gales, porque tenho de analisar o adversário. Tentamos ter um padrão de jogo ofensivo e temos de ter em atenção o adversário, também porque Gales é uma equipa que joga de forma completamente diferente dos outros adversários, com três centrais. Vamos ter de observar bem isso para nos prepararmos, até porque eles têm jogadores muito velozes e estão sempre preparados para contra atacar, é uma equipa que lança bem. Esta equipa, ao contrário do que se costuma dizer das equipas inglesas, tem muita técnica. Porque as duas técnicas principais no futebol são o passe e a receção. O resto, o drible e essas coisas, são coisas acessórias. E os ingleses trabalham isso sistematicamente. Tive um treinador há muitos anos, o Jimmy Hagan, que nos metia todos os dias a fazer meia hora de passe e receção. Aqueles lançamentos longos que fazem não são só por acaso, são repetidos por eles até à exaustão. E isto não é adaptar-se ao adversário, é estar preparado para o que o adversário pode fazer.