Euro 2016

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Nem a ‘bella’ Itália conseguiu parar a caminhada alemã rumo ao título

Alemanha e Itália disputaram uma final antecipada do Euro-2016 e, depois do 1-1 final, os alemães só conseguiram mandar os italianos para casa nos penáltis, para tristeza de Buffon

Tibor Illyes/EPA

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Foi - como se diz para parecer versado no assunto - "um jogo muito tático"? Foi, sim senhora. E é precisamente por aí que temos de começar, não só porque estas são provavelmente as duas melhores equipas do Euro-2016, mas porque a Alemanha é a Alemanha, ou seja, campeã mundial com justiça e categoria, e a Itália é a Itália - não davam (nem eu) nada por ela e eliminou a campeã europeia Espanha de forma "limpinha".

A 29 de março de 2016, a Alemanha aproveitou um amigável em Munique para fazer o que nunca tinha feito em oito jogos oficiais em Europeus e Mundiais contra os italianos: ganhar. Porquê? Porque Joachim Löw, como Antonio Conte, é um treinador mais do que competente taticamente e percebeu que a melhor forma de travar o versátil 3-5-2 dos italianos era responder com uma disposição diferente do habitual, para proteger as fraquezas próprias e explorar as alheias. Foi assim que o 4-2-3-1 germânico passou para um 3-4-3 e a Alemanha derrotou a Itália por 4-1.

Esta noite, os protagonistas não eram exatamente os mesmos, mas a ideia foi a mesma: a Alemanha entrou nos quartos de final do Europeu com um 3-4-3 que permitia aos laterais/extremos - Hector e Kimmich - dar largura e profundidade ao ataque e, ainda assim, manter alguma segurança no momento de transição defensiva, no qual os alemães não são particularmente astutos.

E era precisamente na transição ofensiva que a Itália tinha um dos seus momentos de jogo mais fortes (bom, e na organização defensiva, claro está), como ficou perfeitamente provado contra a Espanha, quando os italianos fizeram o que procuraram fazer esta noite, quando tinham a bola: abrir bem o campo, com dois alas junto às linhas laterais, para provocar buracos no meio (campo) e surpreender a defesa alemã.

Se parece complexo, é porque é, e foi por isso que nem Alemanha nem Itália foram especialmente dominantes na 1ª parte. Os italianos atacaram menos do que era expectável e a Alemanha teve mais bola, como era esperado, mas raramente conseguiu incomodar Buffon, tirando uma jogada de matraquilhos entre Kroos, Kimmich e Muller que acabou num remate fraco.

Na 2ª parte, "o jogo tático" foi semelhante e só desatou quando Mario Gomez dominou uma bola lançada na frente por Neuer - depois da forte pressão italiana ao guarda-redes -, viu, rodeado por três defesas, Hector a entrar na profundidade, passou-lhe a bola e o lateral/extremo assistiu Özil para o primeiro golo.

O jogo parecia decorrer então às mil maravilhas para os alemães, mas nem tudo o que parece é, porque o futebol é um jogo incrivelmente imprevisível, por muito que se tente controlá-lo. Numa bola alta lançada para a área alemã, Boateng, o defesa que joga sempre de collants, decidiu fazer jus ao traje com a sua melhor imitação de um 'plié' - e tocou na bola com o braço.

Erro absurdo para a Alemanha (bom, para Boateng) e penálti para a Itália que Bonucci - o mesmo tipo que em 2012 espetou um murro num ladrão armado que lhe quis roubar o relógio (a sério) - marcou sem pestanejar, antevendo o que aí vinha nos minutos seguintes: mais penáltis, pois claro. Que foram nove para cada lado e decorreram assim:

Golo de Insigne

Golo de Kroos

Falhanço de Zaza, que tinha acabado de entrar no jogo e que foi a pisar uvas até chegar à bola e rematar para o mesmo sítio longínquo da galáxia onde estão as bolas de Beckham e Ramos

Grande defesa de Buffon a remate de Muller

Golo de Barzagli

Remate de Özil ao poste esquerdo da baliza

Remate ao lado de Pellè

Golo de Draxler

Grande defesa de Neuer a remate de Bonucci

Schweinsteiger tem a oportunidade de acabar com a eliminatória mas prefere ter piedade de Zaza e mandar outra bola para a escuridão

Golo de Giaccherini

Golo de Hummels

Golo de Parolo

Golo de Kimmich

Golo de Sciglio

Golo de Boateng

Mais uma defesa de Neuer, agora a remate de Darmian

E, depois, a alegria de Hector, que a mete lá dentro, e a tristeza de Buffon, que ainda lhe toca. Mas a bola entra. Fim

A Alemanha, que não perde em penáltis desde 1976, passa às meias-finais (vai defrontar ou França ou Islândia) e a Itália, que já perdeu sete eliminatórias assim (ninguém perdeu tanto como eles) vai para casa com o reconhecimento de ter feito um grande Euro - apesar das tristes lágrimas de Buffon. Nada é certo no futebol, mas há coisas extremamente prováveis e esta é uma delas: a Alemanha está quase a sagrar-se campeã europeia.