Euro 2016

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No final, os alemães ganham sempre. Ou quase sempre. Ou nunca

O Alemanha-Itália dos quartos de final do Euro é um dos duelos com mais história do futebol mundial. Só em Mundiais e Europeus foram oito as vezes que estas duas potências se encontraram. Agora espante-se: a Alemanha nunca ganhou

Expresso

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Tinha a Inglaterra acabado de ser eliminada nas meias finais do mundial de 1990 em Itália, sem surpresa, contra a Alemanha Ocidental e após as grandes penalidades, quando Gary Lineker desabafou: "O futebol é um jogo simples. 22 homens perseguem uma bola durante 90 minutos e, no fim, ganham os alemães."

Lineker não sabia mas acabava de ser autor de uma das frases mais emblemáticas do mundo do futebol. A sensação de fatalidade a cada derrota aos pés dos todo-poderosos alemães ultrapassa o que Lineker viveu naquele dia. A expressão do amargurado jogador inglês correu mundo porque todo o mundo se consegue relacionar com isto: mais cedo ou mais tarde, todos perderemos contra os alemães.

Todos - menos os italianos.

É que ao fim de 8 jogos oficiais, 3 em Europeus e 5 em Mundiais, a seleção italiana está invicta. Diz que são 4 vitórias e 4 empates. Se contarmos com os confrontos amigáveis são ao todo 33 - e a squadra azzurra ganhou 15, empatou 10 e apenas perdeu 8.

Esta história de duelos entre estes dois gigantes do velho continente, que só entre eles ganharam 8 Mundiais e 4 Europeus, teve início em 1962, no Mundial organizado pelo Chile. Italianos e alemães empataram a zero numa prova que viu a Itália a ficar pelo caminho na fase de grupos e a Mannschaft ser eliminada nos quartos de final pela Jugoslávia.

O jogo do século

Oito anos passaram até estas duas seleções se encontrarem novamente num palco mundial. Foi no México 70. Em jogo estava um lugar na final para discutir o título com o Brasil de Pelé e companhia. Esta meia-final ficou conhecida como o jogo do século - com direito a placa. Italianos e alemães protagonizaram um jogo que acabou 4-3, após o prolongamento. Para além da incerteza do resultado com duas reviravoltas esta partida ficou também marcada pelo facto de o lendário Franz Beckenbauer ter jogado com a clavícula partida. A Itália foi à final para ser cilindrada por uma das melhores seleções da história.

Outros oito anos passaram para, novamente num campeonato do mundo, agora na Argentina, estas duas seleções medirem forças. Mas poucas. Empataram a zero e ambas ficaram pelo caminho na segunda fase de grupos.

Tardelli e Rossi

Não foi necessário esperar tanto tempo para ver outra batalha entre estas duas nações - bastaram quatro anos. Foi o tempo de chegar ao verão de 1982 e ao mundial de Espanha. A Itália vinha de uma vitória surpreendente nas meias-finais contra o Brasil, que jogava como nunca se tinha visto. Paolo Rossi foi o herói italiano: marcou três golos a uma seleção brasileira que tinha Zico, Júnior, Sócrates e outros, e fez mais um na final contra os alemães. Na final, a squadra azzurra não deu qualquer hipótese à Alemanha. Ganhou por 3-1 e sagrou-se campeã do mundo. Para a história fica a celebração de Marco Tardelli ao fazer o 2-0 aos 70 minutos.

Em 1988 a Alemanha, então Alemanha Ocidental, organizou o europeu e o torneio abriu com um duelo entre os velhos conhecidos. Sorteados no mesmo grupo discutiram uma das duas vagas para a fase seguinte. O encontro acabou 1-1. Roberto Mancini estreou-se a marcar com a camisola transalpina e do lado germânico foi Brehme a faturar. Ambas as seleções conseguiram passar à fase seguinte para serem eliminadas na meia-final. A equipa da casa contra os holandeses, que se sagraram campeões da Europa; a Itália foi eliminada pela União Soviética orientada pelo lendário Valeriy Lobanovskyi.

Empate, mas soube a derrota

"O futebol regressa a casa" cantavam os ingleses no verão de 1996, que organizaram o Euro desse ano. Mais uma vez, Itália e Alemanha ficaram no mesmo grupo. Encontraram-se na última jornada dessa fase, e apesar de ter terminado 0-0 foi um jogo repleto de emoções. Penáltis falhados, cartões vermelhos e festejos de golos do outro encontro do grupo que decorria ao mesmo tempo - Rússia 3-3 Rep.Checa. A Itália ficou pelo caminho enquanto a Alemanha seguiu até à final de Wembley para conquistar o título de campeã da europa.

Festejar em casa do "inimigo"

Dez anos passaram e a Alemanha organizou novamente uma competição internacional. O mundial de 2006 viu uma Mannschaft chegar à meia-final apoiada numa nação que vibrou como nunca com a sua seleção. Até que... a seleção transalpina chegou à meia-final, para defrontar os anfitriões, apoiada numa defesa de ferro - Materazzi, Cannavaro e Buffon - e num ataque mágico - Totti e Del Piero. O jogo foi de uma intensidade estonteante, com ambas as seleções a procurarem o ataque, mas o jogo foi para prolongamento a zeros. E, quando já se esperava pelos penáltis, apareceu o herói improvável. Fabio Grosso, o defesa/médio esquerdo, fez o 1-0 num remate colocadissímo e bateu o gigante Lehmann. A Alemanha chorou e Del Piero sem piedade fez o 2-0 logo a seguir, levando a Itália à final de Berlim para se sagrar campeã mundial pela quarta vez.

O Euro de Balotelli

Como em muitas outras ocasiões a Itália iniciou o Euro 2012 como a underdog. Jogadores velhos e acabados e Giaccherini - era isto que se dizia dos italianos. Acontece que a squadra azzurra foi crescendo dentro da prova e chegou à meia-final para, novamente, jogar com a seleção alemã, vista como a principal candidata a bater o pé à sempre favorita Espanha, que já estava na final. 36 minutos de jogo bastaram para que os alemães percebessem que ainda não era desta que levariam a melhor sobre os eternos rivais. Balotelli esteve imparável e fez dois golos - o segundo com um remate portentoso que deixou Neuer pregado ao chão. A Itália foi para o intervalo a ganhar por 2-0 e só nos descontos é que Özil conseguiu reduzir a diferença.

O próximo capítulo desta magnífica história é já este hoje, às 20h. Italianos e alemães disputam um lugar na meia-final.