Euro 2016

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Camões, formigas e o França-Islândia

Uma outra forma de contar a história de David e Golias

André de Atayde

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Qual o membrudo e bárbaro Gigante,

Do rei Saul, com causa, tão temido,

Vendo o pastor inerme estar diante,

Só de pedras e esforço apercebido,

Com palavras soberbas o arrogante

Despreza o fraco moço mal vestido,

Que, rodeando a funda, o desengana

Quanto mais pode a Fé que a força humana!"

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto III estrofe 111

Há uns tempos fui fazer um piquenique num jardim em Lisboa. O dia estava agradável, sem demasiado calor e com muito pouco vento. Estendeu-se a toalha na relva e as iguarias foram dispostas em cima da mesma. Pão, carnes frias, queijo, tomate temperado com azeite, vinagre e oregãos, batatas fritas de pacote, compota de ameixa caseira trazida do Alentejo e uma garrafa de vinho branco ainda bem fresco.

O dia estava mesmo incrível, a sombra do plátano era uma verdadeira benção e os telemóveis de hoje em dia conseguem dar um belo som ambiente quando se liga a música - a volumes aceitáveis, naturalmente. A ideia não é perturbar o descanso das outras pessoas.

Tudo corria maravilhosamente naqueles primeiros 10 minutos de almoço ao ar livre e em contacto com a terra. Os cães andavam contentes, as crianças divertidas porque os cães estavam contentes e os adultos satisfeitos porque os cães estavam contentes e as crianças divertidas. Tudo em harmonia quase celestial.

Até a formiga que andava de um lado para o outro na minha perna parecia estar a gostar do ambiente ali criado. E a segunda formiga que apareceu também. E a terceira, e a quarta, e a quinta e acho que a centésima também. Acho que era a centésima porque às tantas deixei de ter capacidade para contá-las.

Eu, que do alto dos meus 184 cm, sempre desconfiei mais de pessoas do que animais e insetos, comecei a sentir-me desconfortável. Não porque tenha medo de formigas. Quero dizer, talvez tenha algum receio daquelas vermelhas grandes porque as vi num episódio do MacGyver e elas comiam pessoas e destruíam tudo à sua volta. Mas estas eram as normais, pequenas e pretas.

Perguntava-me como é que um ser infinitamente mais pequeno do que eu me podia causar tanto desconforto? Será porque "atacam" em grupo, se enfiam em tudo o que é espaço mínimo, ou será porque têm uma capacidade de organização de fazer inveja a qualquer democracia? Votei nesta ultima opção, arrumei a trouxa e voltei para casa sem sequer ter aberto a garrafa de vinho.

A história do piquenique já vai longa e este texto é suposto ser sobre o Euro2016. Mas ainda hoje penso nessas formigas que não me deixaram aproveitar o piquenique que andei semanas a imaginar. Acho que tão cedo não combino outro...

Mas, como disse, este texto é sobre o França-Islândia de hoje à noite. Ou se quiserem sobre David e Golias. Ou, ainda e também, sobre formigas. Porque a bola rola na relva e toda a gente sabe que os piqueniques se fazem em cima do verde e que é no verde que as formigas aparecem e acabam por estragar a festa que se imaginou que iria ser bonita logo à partida.