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Domingo à tarde

“O coração também respira” é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro

Jorge Araújo

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Ao domingo, quando o dia entardece, o velho carteiro refugia-se na penumbra da sala de estar. Senta-se no sofá de cabedal, respira fundo, limpa a agulha do gira-discos e põe a música de sempre: “O que é que você vai fazer/ Domingo à tarde/ Pois domingo é um dia tão triste/ Para quem vive sozinho”. A letra na ponta da língua, a vida inteira a trautear aquele refrão.

Ao domingo, quando o dia entardece, o velho carteiro fecha os olhos com força e divorcia-se do mundo. O escuro é a sua casa, é lá que a vê melhor, que a sente mais perto. Fica colado ao seu corpo, os dois embrulhados num único abraço. A sala iluminada com o sorriso dela. O cheiro a alfazema, as gargalhadas sonoras.

Ao domingo, quando o dia entardece, o velho carteiro senta-se no sofá de cabedal, põe a música de sempre, fecha os olhos com força. Molha no chá o Esse de Azeitão. E fica a pensar nela. Saudade é doença de que não se quer curar. Ela partiu há um par de anos, mas continua nele de carne e osso.

Este domingo, quando o dia entardeceu, o velho carteiro sabia que o seu tempo não tinha muito mais tempo. Falta pouco, muito pouco, para se juntarem num só tempo. Mais uma semana, mais dois jogos da selecção. Depois da vitória de Portugal, vão ouvir a canção do Nelson Ned até a noite se perder.