Euro 2016

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Há um Quaresma em todos nós - até nos franceses

Payet, o novo herói da França, teve uma carreira de altos e baixos que estabilizou mesmo a tempo de salvar os gauleses. Hoje, contra a Islândia (20h), esperam-se grandes coisas deste talentoso e irreverente futebolista

Nelson Marques

FRANCK FIFE

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Esqueça Paul Pogba. E esqueça também Antoine Griezmann. Se há jogador capaz de levar a França à final do Euro 2016 é Dimitri Payet, um dos grandes enigmas do futebol francês. Aos 29 anos, este rapaz natural da pequena ilha de Reunião, no oceano Índico, é uma espécie de clone gaulês de Ricardo Quaresma. Não só pelo talento imenso, capaz de virar um jogo do avesso com um toque de magia, mas também pelo percurso errático.

E foi ao lembrar-se do "longo caminho" até se transformar no herói da seleção da casa no jogo inaugural da prova que o médio não conteve as lágrimas depois de marcar o golo da vitória frente à Roménia a um minuto dos 90.

Há um ano, quando trocou o Marselha pelo West Ham, um clube histórico de Londres mas sem ambições ao título em Inglaterra, nem PSG, nem Mónaco se dispuseram a pagar os quase 14 milhões de euros da transferência de um médio que tinha tanto de talentoso como de inconstante. Agora, Payet brilha com a camisola dos "bleus" e tem meia Europa disposta a pagar uma pequena fortuna para contar com os seus serviços, incluindo o próprio PSG - determinado em corrigir o erro de há um ano, mas também Real Madrid - Chelsea e Inter de Milão.

Payet começou a dar nas vistas bem cedo no JS Saint-Pierroise, um histórico clube da sua ilha natal por onde passaram dois astros do futebol mundial: o camaronês Roger Milla e o francês Jean Pierre Papin. Por lá jogou também Sinama-Pongolle, que chegou ao Sporting em 2009 como a contratação mais cara da história do clube, mas marcou apenas dois golos numa época (um deles na própria baliza), ambos no mesmo jogo.

As exibições do menino Dimitri levaram-no aos 12 anos até ao Le Havre, clube da Normandia. Chegou acompanhado de Pongolle, mas a experiência não lhe deixou boas memórias: descrito como "um miúdo complicado" e com falta de motivação, nunca se adaptou ao frio do Norte de França e, quatro anos depois, acabou por regressar a Reunião.

O sonho de uma carreira profissional podia ter acabado ali, mas 11 golos em 25 jogos pelo AS Excelsior, uma das equipas mais fortes da ilha,

convenceram o Nantes a dar-lhe uma nova oportunidade de triunfar no futebol francês. Começou nas reservas, com um contrato de seis meses, mas aos 19 anos já era titular indiscutível, acabando por dar o salto para o Saint-Étienne a troco de quatro milhões de euros.

Com a camisola 7 dos "verts" chegou à seleção sub-21 de França, mas deu também os primeiros sinais de instabilidade psicológica: em maio de 2010, durante um jogo, agrediu com uma cabeçada o capitão de equipa Blaise Matuidi, hoje colega na seleção gaulesa. Foi afastado momentaneamente, pediu desculpas públicas, ficou mais um ano no clube, mas acabou por sair no verão de 2011 para o Lille, que acabara de se sagrar campeão francês, por 9 milhões de euros.

O EMPURRÃO DE BIELSA

Depois duas épocas de sucesso no regresso ao Norte de França, seguiu-se o histórico Marselha. O primeiro ano foi irregular, mas o segundo foi a sua melhor época no campeonato francês (36 jogos, 7 golos e 17 assistências), sob a liderança do treinador argentino Marcelo Bielsa. "Ele tornou-me mais maduro e consistente. Ensinou-me a jogar simples e a saber provocar na altura certa. Colocou ordem no meu jogo. Mantenho os seus conselhos na cabeça, que serão úteis até ao final da minha carreira", contou o médio ao jornal "L'Équipe".

No início da temporada passada, Payet recebeu uma proposta tentadora para se mudar para o West Ham. O jogador hesitou, à espera de um projeto desportivo mais aliciante, mas acabou por atravessar mesmo o canal da Mancha, seduzido pelas libras do clube londrino. Chegou em bicos de pés, mas conquistou rapidamente os adeptos ingleses, terminando o ano com 12 golos, 13 assistência e a inclusão na equipa do ano da Premier League. Ficou óbvio que não havia como deixá-lo de fora da convocatória para o Euro 2016.

Com um golo nos instantes finais e uma assistência, foi ele quem salvou a França de um embaraço no jogo de estreia. No segundo encontro dos gauleses, contra a Albânia, é dele o tento que sela o triunfo por 2-0, já nos descontos. Deschamps deu-lhe uma nova oportunidade para brilhar com a camisola francesa e o número 8 dos "bleus" está a agarrá-la com as duas mãos. E, sobretudo, com muita cabeça. Quando lhe perguntaram se se sentia o melhor de França, respondeu com humildade. "Não, não sou eu. As pessoas continuarão a pensar no Griezmann e no Pogba. Vimos o que eles fizeram contra a Suíça. Precisamos de ambos. Podem levar-nos longe na competição".