Euro 2016

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Pepe, tu põe-te bom, por amor de Deus!

É preciso colocar o Pepe são como um pero para quarta-feira. Sem ele, também ganhamos. Mas com ele ganhamos de forma mais elegante e demolidora!

Nicolau Santos

Shaun Botterill

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Uma pessoa vem para o trabalho depois de um merecido fim-de-semana de descanso e, zás, chega à redação e fica logo com uma crise de nervos: então o Pepe não treinou? O Pepe está com uma mialgia de esforço? O Pepe pode não jogar contra o Pais de Gales? Cataclismo! Terror! E alerta geral: mandem os melhores fisioterapeutas para França, vejam se na Alemanha há alguma sumidade ou quiçá em Espanha. Paguem viagens a esses especialistas e excelentes honorários para que eles confluam à tripla velocidade do som para Marcoussis, onde estagia a seleção portuguesa. Lá chegados, atirem-se de imediato à perna do Pepe, usem ultrassons, metam-no no gelo, esfreguem-no com pomadas de última geração e outros unguentos, recorram à acupuntura! O homem é imprescindível para quarta-feira! Sem ele, as coisas podem correr mal, porque para o seu lugar entra o Bruno Alves, que é muito bom nos golpes de kung-fu, mas aos 20 minutos vai para a rua por ter tentado tirar a cabeça a um primo do Bale.

Agora, a sério. O futebol não é a vida. É muito mais do que isso. E a lesão do Pepe, então, está para lá da estratosfera. Sim, eu bem sei que o Renato Sanches é agora o nosso menino de ouro. Eu próprio embandeirei em arco com ele e bati-me, por escrito, para que o Fernando Cabeça Dura Santos o pusesse a titular. E não é que resultou e o miúdo marcou um grande golo contra a Polónia e mais um dos decisivos penalties? E o Nani tem marcado uns golos, o Ronaldo, quando precisámos dele (no jogo com a Hungria) também meteu dois, o William é um príncipe (mas não joga porque está castigado), o Adrien é um poço de força, o Quaresma é o nosso Houdini, mas isto tudo não valia de nada se lá atrás não estivessem o Patrício e o Pepe.

Nos dois últimos jogos, o Pepe devia ter sido considerado o melhor jogador em campo pela UEFA. Então no último, contra a Polónia, a injustiça foi evidente. Mas mesmo sem lhe darem esse título, o certo é que Pepe tem estado a um nível verdadeiramente extraordinário: na antecipação, nos cortes de cabeça, a dar o corpo à bola, a ir ao ataque (ainda há-de marcar um golo na sequência de um canto) e a incentivar os companheiros. A par de Ronaldo, ele é a outra figura da seleção com mais peso quando as coisas não correm bem e é preciso dar a volta por cima.

Por isso, na quarta-feira, precisamos desesperadamente do Pepe. Com ele em campo, o Robson-Kanu não fazia aquilo que fez contra a Bélgica, estar de costas para a baliza, fintar três defesas dentro da área e atirar a contar. Com o Pepe em campo, o Vokes também não apontava aquele golo de cabeça, a saltar entre dois defesas belgas e a meter a bola no lado direito do Courtois. E o Ashley Williams tinha lá hipóteses de marcar aquele primeiro golo!

Visto a partir das costas do Rui Patrício, Portugal é o Pepe e mais dez. Ele já canta o hino, ele já joga sem faltas, ele dobra os companheiros, ele dá indicações à defesa, ele já não lhe dá os nervos, ele já não faz aquele teatro para que às vezes tem queda, ele só ainda não marcou um golo, enfim, o nosso luso-brasileiro tem sido um exemplo de qualidade e competência.

Por isso, fisioterapeutas de todo o mundo, uni-vos! É preciso colocar o Pepe são como um pero para quarta-feira. Sem ele, também ganhamos. Mas com ele ganhamos de forma mais elegante e demolidora!