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Nos jornais, quem escreve sobre futebol é o “cronista-estrela-de-qualquer-coisa-que-não-tem-nada-que-ver-com-futebol”

Bruno Vieira Amaral, escritor e crítico literário, considera que editores e diretores de jornais deviam assumir, de vez em quando, “o papel de olheiros”, e ir à procura dos “potenciais cronistas que escrevem sobre futebol apenas nas redes sociais”. Esta é mais uma de uma série de entrevistas em que a literatura se cruza com o futebol

Helena Bento

Laurence Griffiths

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O que faz de uma crónica sobre futebol uma boa crónica? A excelência e o ritmo da escrita? O nível de detalhe? Aquilo que o escritor faz com esses detalhes? A forma como arruma a informação no texto? Bruno Vieira Amaral, escritor e crítico literário, ajuda-nos, com a sua opinião, a dar resposta a algumas destas perguntas. “Uma boa crónica sobre qualquer coisa ou sobre coisa nenhuma é uma conversa intimista em que uma pessoa fala e a outra ouve e sorri. Com uma crónica sobre futebol é a mesma coisa. Os bons cronistas de futebol são aqueles que me fazem ter vontade de ver um jogo na sua companhia. Podem não ser os melhores analistas, os que conhecem todas as estatísticas e todas as táticas, mas são aqueles que nos põem a ver o futebol através dos seus olhos”. São, acrescenta o crítico literário, “aqueles que reparam num pormenor e, a partir daí, partem para uma crónica que não poderia ter sido escrita por outra pessoa”.

Autor do romance “As Primeiras Coisas”, com o qual venceu, no ano passado, o Prémio José Saramago (o livro tinha já sido distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora e o Prémio PEN Clube Narrativa), Bruno Vieira Amaral começou recentemente a escrever sobre futebol no jornal Observador. Na sua opinião, há muitas crónicas sobre futebol nos jornais, embora sejam “raras” as que ele lê e “ainda mais raras” as que o entusiasmam. “Não me interessa rigorosamente nada ler a crónica de um adepto mentecapto que ainda por cima escreva mal, e é isso que acontece em muitos casos”. Depois, refere, há ainda a “tendência para convidar figuras da televisão pelo simples facto de serem figuras da televisão”. “Não sei qual o efeito destas escolhas nas vendas de jornais, mas em termos de qualidade literária das crónicas é um holocausto”, acrescenta.

Mas como era antes? E como é que chegámos até aqui? Bruno Vieira Amaral diz que, embora não tenha estudado o assunto, a impressão que tem “é que os jornais foram atrás do modelo de sucesso das televisões: debates intermináveis, insultos rascas, baixo nível, muita discussão sobre a arbitragem, dirigismo e bastidores”. Sobre os programas televisivos sobre futebol, o crítico literário, que é também editor-adjunto da revista Ler, critica o facto de não haver espaço para se “falar sobre futebol, sobre a beleza do jogo e a arte dos jogadores”, mas somente para “analisar repetições de possíveis faltas e lances polémicos”, o que, na sua opinião, “mata qualquer interesse das pessoas no lado bom do futebol”. “Tudo isso só serve para a promoção de algumas figurinhas e para criar um clima de guerrilha que a mim, enquanto adepto de futebol, me entristece”, diz.

Mas voltemos aos jornais, onde, na opinião de Bruno Vieira Amaral continua a haver “bons cronistas”. O problema, diz, “é que eles, muitas vezes, não têm o espaço que merecem, que está destinado ao cronista-adepto ou ao cronista-estrela-de-qualquer-coisa-que-não-tem-nada-que-ver-com-futebol”. O escritor e crítico literário chama ainda a atenção para os “potenciais cronistas que escrevem apenas nas redes sociais”. “Embora eu considere que o teste à qualidade de um cronista é a crónica publicada, creio que editores e diretores de jornais deveriam ir à procura desses talentos. Era bom que assumissem o papel de olheiros de vez em quando”, diz.

Há dias, uma das pessoas entrevistadas para esta série de textos sobre futebol e literatura, que o Expresso tem vindo a publicar desde o início do campeonato europeu, colocava a hipótese de o discurso do futebol ser, atualmente, menos apelativo para a crónica, ao ser “muito redondo” e formatado, ao contrário daquele que era o discurso nas últimas décadas do séc. XX, muito mais “desbragado”. Bruno Vieira Amaral tem, contudo, outra opinião: “Por exemplo, há dias, Jorge Mendes saiu em defesa de Cristiano Ronaldo e disse que ele é o melhor atleta da história, e que ganharia o prémio de melhor pessoa do mundo, se tal prémio existisse. Aqui está uma crónica. No discurso formatado dos jogadores está outra crónica, aliás, estão centenas de crónicas”, diz o crítico literário, recordando um episódio antigo. “Há uns anos, quando o Sporting vivia em estado de crise permanente, Rui Patrício repetia o mesmo mantra nas conferências de imprensa. ‘Temos de levantar a cabeça’. Depois, talvez aconselhado pelo agente, alterou o discurso: ‘Temos de dar a volta’. Até ao dia em que proferiu esta maravilha tautológica: ‘Não há volta a dar. Temos de dar a volta’”. O facto de os jogadores e treinadores serem, atualmente, mais “cautelosos na suas declarações”, diz o crítico literário, “obriga o cronista a procurar a pérola escondida”.

Desviando-se da crónica e voltando-se para o romance de futebol, Bruno Vieira Amaral diz que, “mais do que ficção”, sente falta, em Portugal, de “bons livros de não-ficção sobre futebol, biografias de jogadores e treinadores, histórias de alguns clubes, de determinados períodos históricos ou de equipas célebres”. E questiona, sabendo, no entanto, de antemão a resposta: “Há algum bom livro sobre os Cinco Violinos? Sobre o Benfica bi-campeão europeu? Sobre o Porto dos anos 80?”

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