Euro 2016

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“Somos os coitadinhos mas não temos problemas com isso”

Chris Coleman sabe que Portugal é favorito para a meia-final contra o País de Gales, mas diz que a força do coletivo galês pode fazer diferença. Assim como Gareth Bale, claro

Stu Forster

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Ir a uma conferência de imprensa galesa é sempre um risco: vamos percebê-los ou não vamos percebê-los? Eles falam inglês, sim, mas não é aquele inglês que conhecemos, com um sotaque britânico subtil - como seria um português lisboeta, por exemplo. É um inglês com um acento grave e enrolado, como um português de um pescador dos Açores, digamos assim. É português, mas custa percebê-lo.

O "think" ("pensar") passa a "fink", o "manager" ("treinador") passa a "gaffer" e há uma série de coisas que ficam perdidas na tradução. Como a palavra "underdogs", usada para dizer que uma equipa não é, de todo, favorita - é suposto que perca, porque é supostamente mais fraca. Ou, em tradução livre, é uma equipa de "coitadinhos", digamos assim. "Sabemos que entramos neste jogo como underdogs, mas não temos problemas nenhuns com isso. Sabemos que eles já estiveram em sete meias-finais de competições e nós somos novatos. Tudo bem. O que nos interessa é pensar em nós e no que podemos fazer", disse o selecionador galês, Chris Coleman, esta tarde, na antevisão do Portugal-Gales, em Lyon (quarta-feira, 20h, RTP1).

Tal como fez no resto da prova e na qualificação, Gales entrará em campo contra Portugal num sistema de 3-5-2, que Coleman explicou ser o melhor para os jogadores que tem. "É verdade que é um sistema que a maioria nunca tinha experimentado, mas escolhi-o porque era o melhor para os jogadores e quando eles percebem isso torna-se mais fácil", disse, rejeitando semelhanças com o modelo italiano, apesar de elogiá-lo. "Claro que admiro a Itália, porque não só são agressivos defensivamente como ofensivamente, atacam e defendem com rapidez e intenção. Mas nós não jogamos com dois avançados, e variamos a esquematização do nosso meio-campo, por isso há algumas diferenças".

Em 3-5-2, 5-3-2 ou seja o que for, só há uma coisa que não muda na equipa: Gareth Bale, claro. "A verdade é que ou és um jogador de equipa ou não és. Gostar de trabalhar como os teus colegas, ajudá-los e estar sempre pronto para tudo são coisas que não se fingem. O Gareth é assim e isso passa para os outros jogadores, daí que estejam agora a dizer que temos uma equipa muito unida. É fácil dizê-lo agora, que tudo corre bem, mas isso foi construído em toda a qualificação, mesmo quando passámos por tempos mais difíceis", explicou.

O próprio Coleman é um treinador que já passou por situações difíceis, como a época de 2010/11, quando esteve nos gregos do Larissa. "Não é fácil ser treinador. Há muitos desempregados e a verdade é que se um ou dois sítios te correm mal, é complicado teres outra proposta. Depois de sair do Coventry estive um ano desempregado e foi um conselho de [Alex] Ferguson que me ajudou: 'Aceita o que aparecer, seja o que for'. Foi assim que fui parar à 2ª divisão grega e foi uma das melhores coisas que fiz, porque me permitiu pensar muito sobre mim enquanto treinador e aprender fora da minha zona de conforto. O único problema foi não o pormenor de não nos pagarem", gracejou, agradecendo humildemente os elogios de um jornalista belga que o queria no lugar de Marc Wilmots: "Por muito bom treinador que sejas, só és tão bom quanto os jogadores que tens".

Bale já sabemos que é bom, e Aaron Ramsey e Ben Davies também, só que estes últimos dois estão suspensos e não vão poder jogar. Problema? "Ramsey tem sido sem dúvida alguma dos melhores jogadores deste Euro e Davies também tem estado fantástico. Mas confio nos jogadores que vão entrar, porque sabem perfeitamente como jogar nesta equipa", explicou o selecionador. "Temos crescido muito ultimamente e já estamos mais espertos, temos mais manha [street wise]. Às vezes há coisas que têm de ser feias mas tens de fazer tudo o que puderes para continuares no jogo".

Questionado pelos jornalistas sobre a importância de Ronaldo, Coleman elogiou o jogador português. "Tem a vontade de ser sempre melhor, isso vê-se à distância, já era assim no Manchester United. O talento às vezes é uma grande distração para as pessoas, porque o talento não é suficiente: é preciso ter atitude e mentalidade para acompanhar isso, como tem o nosso rapaz Bale. Mas a chave do jogo não é parar Ronaldo, é cumprir o nosso plano de jogo", explicou, distribuindo elogios para outro jogador português: "Renato é um jogador jovem muito bom, que tem estado num nível impressionante e tem um grande coração para isto, o que é muito importante".

Tal como o selecionador, o capitão Ashley Williams - que marcou um dos golos contra a Bélgica - elogiou os portugueses, mas mostrou-se confiante numa vitória galesa: "Não vamos estar obcecados com Ronaldo, temos é de anulá-los enquanto equipa, como temos feito em todo o Euro. A nossa força está no coletivo e não nos indivíduos", disse.

A acabar a conferência, foi a vez do treinador adjunto Osian Roberts responder a perguntas - em galês. Aí é que não houve mesmo tradução que valesse.